sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Assumindo o ET pirocudo

Ontem foi o meu aniversário. Vinte e nove anos. Não to exatamente onde eu queria estar (fama, glamour, sucesso, machos incríveis, bunda maravilhosa, ilha de Caras, semblante enigmático que o mundo tenta decifrar) mas to muito além do que pensava quando pensava como eu estaria com vinte e nove anos.
Aí lembrei da história do duende pirocudo.
Em São Paulo, mais especificamente na Vila Madalena, tinha um tiozinho, que eu acho que até já morreu, que perambulava pelos bares vendendo um ET pirocudo. Mas era duende ou ET, Tati? Sei lá, o fato é que era pirocudo.
E um ex namorado meu, que não era pirocudo, entrou numa de fazer graça para os amigos de boteco e me deu de presente a porra do boneco verde pirocudo. E eu, achando graça, botei a porra do boneco pirocudo em cima da minha mesa, na época que eu era estagiaria da W/Brasil. Isso faz dez anos.
Aí o Rodrigo, que era um redator que tinha na W/ e que era pica grossa, um dia me chamou na mesa dele e falou “olha, minha filha, se um dia você for alguém, se um dia alguém souber quem você é, se um dia você for fodona, você bota a porra de um ET pirocudo na sua mesa e foda-se o mundo, mas antes desse dia, enquanto você é só uma estagiária, é melhor tirar essa porra daí que pega mal”.
Eu lembro que ensaquei a porra do duende como quem enfia o rabinho verde entre as pernas e nunca mais apareci com ele por lá. Achei que ele, o Rodrigo, tinha razão e continuo achando.
Mas hoje, no meu aniversário de vinte e nove anos, resolvi que chegou a hora de reverter essa situação.
Eu definitivamente não preciso mais esconder a minha piroca verde. Quer saber? Eu finalmente sou alguém e sou foda! Chegou a hora de botar o pau verde pra fora. O pau verde na mesa. De matar a cobra e mostrar o pau verde.

Nem sei mais por onde anda a porra do presente bizarro que meu ex namorado me deu e causou tanto mal estar na W/Brasil (acho que minha empregada do Reino de Deus jogou fora), mas sei que chegou a hora de assumir outros monstros verdes e pirocudos. Maiores, mais verdes e mais pirocudos.
Chegou a hora de assumir, por exemplo, o meu peculiar jeito de ser. Mal humorada com sons, principalmente os relacionados a gente que não sabe comer (comida) ou beijar sem estalar a língua. Fresca com comida, de preferência as que esperam você cheias de perdigotos em self-service gordurosos ou, pior, são trazidas pelo garçom que insiste em botar o dedão dentro do prato.
Sensível pra cacete, maldosa na mesma intensidade, feliz de andar cantando e depressiva de nunca achar que uma janela é só uma janela. E cheia de manias bem estranhas do tipo almoçar em livrarias quando estou catatônica demais para digerir comidas. Não sei por que mas sempre acho que dentro de uma livraria todo o peso do mundo é chupado pelos livros e eu posso flutuar em paz. Comer em paz. Folhear a vida sem medo de ser puxada pra dentro.
Eu sou sim a pessoa que some, que surta, que vai embora, que aparece do nada, que fica porque quer, que odeia a falta de oxigênio das obrigações, que encurta uma conversa besta, que estende um bom drama, que diz o que ninguém espera e salva uma noite, que estraga uma semana só pelo prazer de ser má e tirar as correntes da cobrança do meu peito.
Que acha todo mundo meio feio, meio bobo, meio burro, meio perdido, meio sem alma, meio de plástico, meia bomba. E espera impaciente ser salva por uma metade meio interessante que me tire finalmente essa sensação de perna manca quando ando sozinha por aí, maldizendo a tudo e a todos. Eu só queria ser legal, ser boa, ser leve. Mas dá realmente pra ser assim?
Eu sou essa pessoa. Que não faz questão de ver quem a minha mente castradora me manda amar e que simpatiza, ainda que por alguma doença, com quem me judia aos pouquinhos.

Que quer matar a velhinha que demora horas para descer as escadas e segundos depois carrega a porra da velhinha no colo e chora sensibilizada pelas fragilidades do mundo. Eu só queria que tudo fosse belo, cheirasse bem e tivesse o brilho de um fim de tarde com bebezinhos sorridentes. Mas o mundo, as pessoas, as validades, tudo expira, tudo cai, os mitos viram defeituosos, as fortalezas de vidro vagabundo, tudo perde o encanto. E para mim, aceitar tudo isso ainda é comer o feijão com pressa e entupir uma narina. Não entra direito.
E eu volto a focar o lixo ainda que tenha um mar ao fundo. Eu volto a focar o mijo, ainda que tenha a brisa e a maresia em todos os lugares. Eu volto a focar o crime, a criança descalça, os olhos adultos de ódio em corpinhos de cinco anos, ainda que tenha a Adriane Galisteu correndo ao meu lado. Eu volto a focar o vazio e essa imensa tristeza sem motivo dentro do meu peito, ainda que o Cristo me mande um abraço aberto não muito longe dali.
Eu sou essa pessoa. Que deixa doer porque esse é o único esporte que se pode fazer deitada e que dorme demais como uma resposta blasé a esse mundo que pensa mandar em mim o tempo todo.
Piroca verde. Piroca verde. Com medo das paredes fecharem e meus amigos não me amarem mais. Com medo de sentir tanto, tanto, a vida, e vomitar em cima do mundo. Com medo de quase tudo o que se mexe e muito mais do que não se mexe. Mas com uma curiosidade que cura e emudece qualquer pânico. Chegar do outro lado sempre ganha de permanecer e se afogar, ainda que eu engula um pouco de água para pedir socorro em prestações e jamais precisar do definitivo.
Chegou a hora de botar meu duende e meu ET verde em cima da mesa. Pendurar no pescoço. Equilibrar em cima da cabeça. Essa sou eu. Preconceituosa. Com preguiça de gente brega, de gente pobre de viço, que compra Caras pra se sentir mais viva porque não tem uma vida própria.

Com preguiça dos grupinhos de gente rica que ri aristocraticamente e, mesmo tendo um currículo de mil viagens à Europa, não entendeu nada do que é ter um ou outro comentário próprio a respeito do que vê. E também compra Caras. Eu também, de vez em quando, compro Caras. E também tenho preguiça de mim.
Essa sou eu. Andando rápido por aí. Um pouco de olheira. Com uma tromba imensa, pois me protejo de tudo e odeio quem passa por mim. Qualquer esquina pode ser o fim. Andando lenta, fazendo amizade na banca de jornal, a espera da esquina que mude meu caminho e me ajude a ter menos medo.
Piroca verde, não me deixe mais sorrir quando quero mandar se foder. Não me deixe mais presa em filas, quando tudo o que eu quero é não mais pertencer ou provar. Apenas pensar na vida, usar meus cremes, botar uma meia, fazer minha massa ruim com legumes, assistir Sopranos e sei lá porque sentir uma alegria que poucas vezes senti ao longo da vida. Ficar comigo, só comigo. E sorrir pensando que um dia alguém tão bacana quanto eu poderia se deitar ao meu lado pra gente ser tão especial juntos.
Não me deixe mais paquerar qualquer cara bobo, mal vestido, sem assunto e sem magia só porque preciso de algum bosta me ligando pra me sentir mais mulher. Isso é coisa de gente imoral, de gente com mais medo da solidão do que o auge do meu medo da solidão. Não me deixe mais confundir amor com ego e ficar aprisionada tantos bons anos num rapaz tão comum. Comum ao ponto de eu querer ser tão comum quanto ele só porque, para mim, isso é ser diferente. E sair do meu corpo, como se eu tivesse experimentado algum alucinógeno pra sentir de perto como é passar a vida rindo e indo a festas como todo mundo.

Que perda de tempo não me amar absurdamente. Não me validar absurdamente. Que perda de tempo. Piroca verde, você foi posta pra fora em boa hora. Eu nunca amei tanto cada defeito e bizarrice minha. E não me pergunte o motivo pois daria outro texto enorme que não leva a lugar nenhum. É a maravilha de estar com quase trinta anos e poder ser triste, perturbada, estranha e má em paz. E poder ser tudo isso com tanta autenticidade e com tanta entrega, que tudo perde sua força, seu peso e não passa de um bom motivo pra rir e continuar em frente. Em frente com os meus maravilhosos ETS, duendes e pirocas verdes.

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