domingo, 6 de fevereiro de 2011

53 dias normais

O trânsito de uma hora e meia da Zona Leste, onde moro, até a porta da W/Brasil, onde trabalho, não mudou nada nos últimos dois meses. O Ano Novo, o Natal e o aniversário do meu pai, em dezembro, chegaram como chegam todos os anos - eu mais uma vez me perguntei se era mais um Natal com minha família ou se era menos um.
Ansioso, como sempre, mais um verão chegou na agência. Como era de se esperar, começaram as brigas por causa do ar condicionado. Os homens tiveram que escolher entre as roupinhas de verão da mulherada bronzeada e o frio. Escolheram a gripe.
Na criação, os atrasados continuaram do mesmo jeito, chegando após as nove todos os dias. Após as dez na maioria dos dias. Os teclados do Ruy e do Peralta também permaneceram iguais, funcionando o tempo todo, desde bem cedo, até muito tarde. O Bruno continuou atrapalhado, cheio de desculpas, colando fitas na testa, caçando comida pela agência, achando toda mulher linda, bagunçando mais ainda a sua mesa. Continuou também rendendo absurdamente no final do dia. Mas que horas ele trabalha? Nove horas da noite, dez, às vezes onze, continuou sendo horário de trabalho para aqueles atrasados sempre acusados injustamente.
Dois anos trabalhando na mesma empresa. Já não fico mais sem graça de escovar meus dentes ao lado de redatoras, almoçar com diretores de arte. Um ano trabalhando com o Ruy, acostumei a gostar de ficar até mais tarde na agência. Quando ele tem um tempinho, entre uma cervejinha e outra, na sua mesa, acabo contando mais da minha vida do que contaria para meus pais.
Quem diria que encontrar diariamente Washington Olivetto seria a coisa mais normal do mundo? "De onde veio essa loirinha gostosinha?"
A gente acostuma com tudo nessa vida. Com mais um verão, mais um Natal, mais um diretor de arte, menos um diretor de arte. Acostuma com oito meses sem salário no atendimento sem reclamar. Depois acostuma a reclamar por mais de um ano do salário na criação.

Acostuma com a esperança de mais uma chance como estagiária e com mais uma despedida do melhor estagiário. Acostuma com coisas boas na mesma proporção desanimadora que acostuma com as tristes.
Foi assim que acostumamos com a presença do Washington. Foi assim que acostumamos com a falta dele. Acordamos, colocamos uma roupa bacana, trabalhamos pensando no almoço, almoçamos pensando no trabalho. Acabou o dia e nos resta pensar em todo o resto que existe além da W/Brasil.
Acostumamos. Acomodamos. Deixamos de pensar muitas vezes. Não dá tempo de pensar se planejamos fazer tudo o que precisamos. Recorri assustada à pessoa que mais admiro e respeito na agência quando percebi tamanha acomodação. Meus Deus tudo continua igual! Ele não está aqui e mesmo assim ninguém deixou de ser sacana, falar besteira, gastar dinheiro, transar, morrer de rir, dormir, sentir fome, fazer piadinhas de seqüestro. Será que somos frios? E ele me respondeu que não, somos sobreviventes.
Temos que fingir que está tudo bem até acreditarmos de verdade. Até cairmos em nossa própria lavagem cerebral diária. Temos que continuar apesar das gripes, do trânsito, das brigas com o namorado. Temos que continuar apesar dos corredores silenciosos. Apesar da mesa vazia, do computador cor de rosa, de um monte de revista empilhada.
Ninguém para comentar "como ninguém" os jogos do Corinthians. Ninguém para entender tão bem o Gabriel. Ninguém para elogiar tão bem quem merece elogio. Acostumamos com a falta de euforia, com a falta de genialidade, com a falta de um jeito de andar, de falar com as mãos, de levar a vida. De gostar da vida.
Ninguém para fazer a maior besteira do mundo ficar engraçada. Para ser indiscreto com classe. Para falar alto discretamente. Para ser inconveniente com inocência. Para ser Washington Olivetto sem arrogância. Ninguém para sintetizar a vida tão brilhantemente e com tanta simplicidade.
Cinqüenta e três dias. Mais um dia sem Washington. Menos um dia sem Washington.
 
Eu estava tão acostumada com a angústia que não percebia mais o quanto estava angustiada. Que alívio.
Eu estava tão acostumada a ver vocês, sempre com as mesmas caras, que tinha esquecido como ficam bonitos quando estão cheios de esperança. Estava tão acostumada a trabalhar aqui, que tinha esquecido que um dia esse tinha sido o meu maior sonho.
Eu estava tão acostumada com a falta de amor dos noticiários. "Patrícia, meu amor, te amo, adoro." Graças a Deus você voltou chefe. Quando eu te vir, depois de tanto tempo, acho que vou me emocionar um pouco, mas depois eu acostumo.
 
 

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