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domingo, 31 de outubro de 2010

Eu preciso saber

A recaída de amor acontece como num daqueles pesadelos que se está caindo. De repente você acorda sentado na cama: Meu Deus, eu preciso saber! Mas se eu já estava tão bem há semanas. Volte a dormir, volte a dormir. Você já tinha decidido lembra? Nada a ver com você, chato, bobo, não deu certo. Mas eu preciso saber. Não, não precisa. Pra quê? Vai te machucar. Não! Eu preciso saber. Então levanto da cama.
Facebook, a desgraça em formato de parquinho virtual. Nome dele, aparece a foto azulada e ele de perfil. É tão bonito. Mas não há mais nada que eu possa ver. Nos deletamos mutuamente pra evitar justamente esse tipo de inspecão noturna.
Mas isso não vai ficar assim. Ligo pra nossa amiga em comum. Ela não atende, afinal, são duas da manhã. Mando mensagem "me manda sua senha do Facebook agora ou vou ficar te ligando até amanhã cedo". Ela manda a senha e um palavrão. Acesso. Vamos ver. Eu preciso saber. Eu preciso. Então vejo que ele não posta nada há cinco semanas. Fotos, fotos. A única foto nova é o flyer de uma festa que eu fui e ele não estava. Nada.
Jogo o nome dele no Google. Aparece uma foto dele alcoolizado dando entrevista em uma festa de mídia. Como é lindo. Tento o Twitter mas ele só escreve piada de político. Tento o Facebook, Twitter e blogs de amigos. Está ficando tarde. Se eu tivesse essa mesma concentração e minuciosidade e empenho e energia para o trabalho estaria rica. Estou retesadamente motivada e atenta. Mas não consegui nenhuma informação e eu ainda preciso saber.
São seis da manhã. Estou cansada. Coloco a música de quando você forçou a porta do quarto e entrou. Black Swan. Não sou boa de inglês como você, mas sei que é a história de algo que já começou fodido porque cresceu demais antes da hora, você que pegue um trem e suma daqui. Que bela música pra começar. Ok, agora estou chorando. Lembrei que eu me sentia tão viva com você me olhando bem sério e bem no fundo dos olhos e machucando meu braço. Sim, é definitivamente uma recaída e eu acabo de decidir que te amo mais que tudo no universo e que amanhã, ou hoje, porque já são sete e meia da manhã, vou resolver isso. Agora preciso dormir só um pouquinho.
Volto pra cama. Coração disparado. Não tem posição na cama. O que eu faço? Não tô a fim de ler, não tô a fim de ver TV. Aquelas outras coisas que se faz pra acalmar tô com preguiça agora, minha imaginação está indo toda para traçar um plano para que eu descubra. Descubra o quê? Não sei, mas sei que algo está acontecendo, ou eu não estaria assim. Porque eu sinto quando ele está com alguém, sabe? Eu sinto. Sim! A cartomante!
Ligo pra Zuleide. Você atende hoje? Mas é domingo, Tati! Atende? Só se for por telefone. Tá bom, então joga aí: ele está com alguém? Mas Tati, você quer mesmo saber isso? Quero, mulher. Eu preciso saber. Joga aí: ele está com alguma puta? Tati, eu não posso perguntar isso pras cartas. Pergunta aí: ele tá com alguma piranhuda desgraçada vagabunda vaca dos infernos? Zuleide pede desculpas e desliga. Preciso do Lexapro mas ele acabou há semanas, igual meu amor. E agora, de repente, preciso tanto dos dois novamente.
Você acha que ele está com alguém? Não sei, Tati, eu ainda tô dormindo, posso te ligar mais tarde? Você acha que ele está com alguém? E se estiver, Tati, quer ir ao cinema mais tarde? Você acha que ele está com alguém? Putz, sei lá, homem sempre tá comendo alguém né? Você acha que ele está com alguém? Tati, do jeito que ele gostava de você? Claro que não!
Chega, chega. Preciso me acalmar. Pra que isso? Se ele estiver com alguém agora, e daí? Terminamos não terminamos? Ele e eu não temos nada a ver, certo? Decidimos que era melhor assim, certo? Eu não tava bem com ele e nem ele comigo, certo? Porque era bom e tal. Aliás, meu Deus, como era bom. Mas não era bom pra ficar junto, certo? Então pronto. Chega. Adulta, adulta. Qual o problema se ele estiver agora, justamente agora, lambendo a virilhazinha de alguma desgraçada? Qual o problema? Ok, eu posso morrer. Eu definitivamente posso morrer. Chega, vou acabar com essa palhaçada agora mesmo.
Tomo banho, me visto, pego a bolsa, entro no carro. Considerando que ele não mora em São Paulo, não sei exatamente o que eu pretendo com isso. Mas me faz bem enganar o cérebro e fazer de conta que estou indo atrás da verdade. Na verdade vou só na casa de outro, preciso fazer qualquer coisa que não seja sofrer, mas não consigo. O outro não conhece Black Swan, não ri da história da Zuleide, não me aperta o braço.
Volto pra casa destruída. Sinto tanto amor dentro de mim que posso explodir e bolhas de corações vermelhos atingiriam o Japão. Quase não consigo respirar. Chega, chega. Ligo pra ele. Ele não atende. Ligo de novo. Ele atende falando baixinho. Você está com alguém? Estou. Desligamos. Pronto, agora eu já sei. Depois de um final de semana inteiro de corações palpitantes, músicas, textos, amigos, danças, gritos, sensações, assuntos, choros, dores. Agora eu já sei.
O que eu nunca vou saber é porque faço tudo isso comigo só porque tenho tanto medo do tédio. Era só isso o que eu precisava saber.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Carta para o homem que morreu e um pouco de verdade viva

Você pensa que eu não sei?
Eu sei que tenho soluçado risos nervosos por aí. Sempre um por aí perto dos seus ouvidos.
Tudo para você ver o quanto eu me divirto, o quanto sou charmosa. Para você lembrar de como a gente se diverte, com a minha risada, com a sua.
E eu grito um pouco rindo, eu sei disso também. Que é para você lembrar de quando eu sinto prazer. De quando você me dá prazer.
Eu passo quieta por você, você passa quieto por mim, e eu ainda escuto o barulho que a gente faz.
Vocês pensam que eu não sei?
Escova no cabelo todos os dias, lápis nos olhos, perfume de morango. Eu sei, eu sei, a paixão é ridícula.
Sei que não cumpro o que prometo com olhares de mulher. Pois é, eu sou uma menina. Surpreso? Eu não.
Você está surpreso mesmo? Achou que era uma mulher te instigando para fugir da lógica? Isso é coisa de criança.
Lógica? Que se foda a lógica.
Eu não tenho tesão nenhum em separar o certo do errado. Espero não aguentar mais a dor do caminho errado para mudar de vida, é só isso que acontece.
E o caminho certo também não me dá muito tesão não.
Menos aquele que a gente fez para fugir, menos aquele que a gente fez para se pegar, se entrar, parar de pensar em sentir e sentir de uma vez.
E a inspiração para escrever Meu Deus! Foi para onde?
Foi para o mesmo lugar da minha outra paixão esquecida. O homem para o qual dedico este texto.
Aquele que tirei do pedestal e nunca mais coloquei em lugar nenhum.
Foi para depois. Depois que eu resolver o que é verdade, o que é de verdade.
Você pensa que eu não sei que você sabe que eu estou mentindo? Eu sei.
Quer um pouco de verdade? Leia o começo deste texto, não é sobre você que eu escrevo não.
Essa é a verdade, mas você me ensinou que ela não é necessária.
Eu sei bem. E sei que você mente também. E sei que a gente se atura porque perder pessoas é muito triste.
Por mais que você não venha me encoxar no meio da noite, não me agarre no corredor, não jogue a porra do controle remoto para longe, não fale no meu
ouvido o quanto você está precisando me comer naquele momento. Por mais que você não seja esse homem, você respira quietinho ao meu lado enquanto dorme, lindo.
E quando você dorme quietinho assim, eu sei que, apesar de eu não abalar sua vida em nada, você precisa de mim.
E você já abalou tanto a minha vida. Que pena, agora você morreu.
Mas eu continuo vendo você respirar, quietinho, ao meu lado.
A verdade é que eu ainda acredito em reencarnação.
E eu te olhei tantas vezes implorando. Não morre, por favor. Seja ele, seja o homem que perde um segundo de ar quando me vê.
Mas você nunca mais me olhou quase chorando, você nunca mais se emocionou, nem a mim.
Você nunca mais pegou na minha mão e me fez sentir segura. Nunca mais falou a coisa mais errada do mundo e fez o mundo valer a pena.
Eu treinei viver sem você, eu treinei porque você sempre achou um absurdo o tanto que eu precisava de você para estar feliz.
De tanto treinar acostumei.
E cadê a inspiração? Foi embora junto com a minha pureza, a minha crença, a minha fidelidade.
Eu sou comum, igualzinho a você, a vocês. Eu cometo erros mesquinhos e sou capaz de grandes momentos.
Para cada grande momento, milhares de erros mesquinhos no ar, no lençol, no ralo de um banho cheiroso.
Para cada fundo do poço, milhares de motivos de perdão boiando, bóias de coração para eu me agarrar.
E eu nunca me agarro em mim, sempre espero alguém chegar.
Eu não queria ter ido tão longe. Nem seguido um que não posso, nem aturando outro que nunca pude.
Eu só queria que ele aparecesse, o homem que vai me olhar de um jeito que vai limpar toda a sujeira, o rabisco, o nó.
O homem que vai ser o pai dos meus filhos e não dos meus medos.
O homem com o maior colo do mundo, para dar tempo de eu ser mulher, transar para sempre. Para dar tempo de seu ser criança, chorar para sempre.
Para dar tempo de eu ser para sempre.
Cansei de morrer na vida das pessoas. Por isso matei você.
Antes que eu morresse de amor. Matei você.
Eu sei que sou covarde. Surpreso? Eu não.
Desculpa, eu tinha prometido nunca mais escrever tão subjetivamente.
Te amo, viu?
Você renasceu de novo.
Eu sei que sou louca.
Louca e covarde.

Toca

Eu tenho um beijo que alterna do calmo pro intenso, você iria gostar. Acho que você tem olhos iguais ao meu beijo.

A gente poderia ser interessante andando com suas mãos longilíneas e eu tão pequenininha. De repente as pessoas poderiam olhar e pensar: lá vai mais um casal que não combina mas por isso mesmo dá certo. Seria lindo.

Eu olho tanto meu celular que já decorei de quanto em quanto são cinco minutos. Eu tenho vontade de jogar meu celular numa parede qualquer. E me libertar da vontade de ouvir sua voz.

De novo, de novo, eu não canso. De novo fazendo romance em cima de um conto
breve. Dois jantares e um almoço. Só isso. E lá estou eu achando que você pode ser um forte candidato a homem da minha vida. Lá estou eu acreditando que exista um homem da minha vida.

Se você não ligar, nunca mais, eu vou ficar triste, igual fiquei semana passada porque outro não ligou, igual fiquei semana retrasada porque outro sumiu. Igual eu vivo ficando chateada e vive passando. Eu tenho prostituído demais a minha espera. E as coisas parecem perder a importância toda hora. O problema é que, para perder a importância toda hora, toda hora vivem ganhando importância, e eu estou ficando cansada.

Ah, se você me ligasse, a gente poderia ver aquele filme do Bertolucci que eu tô louca pra ver e, se no filme tivesse cena de sexo, eu iria morrer de vergonha. Depois você poderia me fazer alguns elogios, afinal eu passei o dia inteiro com uma touca de creme no cabelo esperando a sua ligação.

Os grampos estão me machucando, mas eu agüento a dor, eu agüento esperar.

O seu beijo poderia ser daqueles calmos e profundos e a gente poderia combinar tão obviamente quanto é óbvio o silêncio do meu celular. A gente poderia acabar de se beijar e cair na risada, uma risada tão ensurdecedora quanto o silêncio do meu celular.

Liga, vai, me dá uma chance. Me dá uma chance de ser extremamente sensual apesar do meu braço torto e das celulites da minha bunda. Ser extremamente sensível apesar de todas as ironias que eu te falo pra você não achar que pode me ganhar.

Eu aprendo a gostar de Nick Drake, Velvet, e se bobear até divido um ácido com você. Não, esquece, tô fora do ácido e quer saber de uma coisa? A Britney Spears vai continuar me dando uma vontade louca de dançar. É como você mesmo disse: eu tenho o ouvido burro.

Mas eu tenho uma mão esperta, me liga vai?

Olha eu mais uma vez me vendendo sexualmente, não, não compre. Compre meu coração, compre minha alma. Recuse minha incapacidade de me achar amada e me ame.

Se você me ligasse a gente poderia ter uma conversa séria a respeito da solidão e do tédio do mundo e resolver ser feliz pra sempre. A gente poderia resolver isso e depois resolver que o mundo tem suas limitações e depois resolver que não tem limitação coisa nenhuma. A gente poderia mudar de opinião juntos e tornar a vida menos solitária e tediosa.

Olha, é simples, são sete números e uma única chance de conhecer uma mulher super bacana. Que, sim, tem chulé às vezes, tem bafo às vezes, tem ataques de histeria, ciúme e infantilidade às vezes. tá bom, é mais do que às vezes, mas se você me ocupar com bom papo e carinho, eu juro que esqueço um pouco meu lado que não sabe se relacionar.

Peraí, tá tocando aqui. tem que ser você, tem que ser você. tem que meeeeeeerda, pena que não dá para processar o "Vivo Informa" por propaganda enganosa."

sábado, 2 de outubro de 2010

Acabou!

Nunca me conformei com o fim de nada. Por mais que eu sentisse que era a hora. Por mais que eu quisesse ou precisasse me livrar das coisas. O “acabou” sempre chega ou chegou como se eu jamais tivesse parado pra pensar nele. Cruel, terrível e doloroso além de mim.
O último dia em qualquer coisa que tenha durado tempo suficiente pra me fazer dormir sorrindo com o dia seguinte. Um emprego, um curso, uma casa, uma viagem especial, um relacionamento. O ultimo dia do ano. Sempre tristes, sempre cheios de momentos em que eu preciso me isolar e ficar de um quase desespero catatônico. Uma vontade de sair correndo sem me mexer. Um pavor calmo e, pra quem nada entende de espasmos assustados, até sorridente. Abaixar e abrandar tudo em mim que ainda se debate pra continuar onde estava. Subindo loucos para a minha testa, todos eles. Mas quem são esses eles que sobem pra minha testa? Um mal estar em velar a vida que acabou pra poder continuar. Uma mistura caótica de enterro com nascimento, tipo se apaixonar.
Dez pra meia noite meus amigos já estão um pouco bêbados e os fogos começam nas praias próximas. A praia em frente a casa está linda e o teto cheio de bexigas brancas. Meus amigos cheiram bem. Digo, por causa do banho. Eu sumo. Desapareço. E começam as piadinhas “deixa, ela é assim mesmo”. Uma coisa horrorosa me assusta e eu quero algo que não é nem a minha mãe e nem a minha cama e nem a minha casa. Olho meu carro na garagem da casa e tenho um segundo de alívio. Ainda existe ir embora. Mas da onde? Eu sempre querendo ir embora. Mas pra onde? Quero um colo e um quente e um ombro que nunca conheci. Não é de homem, de amor, de força. O que é isso? Um enjoado que não faz passar mal. Um frio que não precisa de agasalho. Uma necessidade absurda de ir para um lugar que eu nem imagino qual seja. Uma saudade de vida inteira como se eu já tivesse vivido. Uma coisa enorme e ao mesmo tempo concentrada naquela picadinha de inseto atrás do meu joelho que incha e incomoda do tamanho do mundo. Uma angústia que estremece até aqueles cantos da gente que a gente passa batido. Uma coisa de cantos e não de peitos. Mas que acaba com o oxigênio.
Sento sozinha onde a vista é mais bonita. Aperto meu celular. Pra quem eu quero ligar? Quem? Ninguém. Não é saudade de gente essa coisa. Não é coisa que passa de ouvir voz ou desejo ou coisas bonitas. Então passa com o quê? Chama a Tati que vai dar meia noite. Não, deixa ela. Ela é assim mesmo. É “tipo” isso que ela faz? É e não é. É saudade da família, do cara, da cachorra? Não, ela é assim. Escuto os outros e enquanto isso acontecer, não vai passar. Preciso me escutar. Mas não tenho nada pra me dizer. Só esse vão dos pensamentos. Só esse intervalo de motivos. Só a soneca merecida do carrasco que mora no centro da minha cabeça. Só o momento alienado das listas. Esse bueiro vazio embaixo da vida. Essa falha da linha embaixo do que se tem a dizer. Esse nada que caio, de vez em quando, e que também não tem nada pra me dizer a não ser que o mistério também faz parte. Assim que eu me sentir mais leve, simplesmente saio dele, sem nada concluir. Não dá pra forçar, levar um choque de voltar pra superfície. Só o que existe é enfrentar esse algo que jamais soa como algo a ser enfrentado, já que não é nada.
Coloca aí a sinfonia número 5 para eu chorar? Quando meu pai me leva, aos domingos, para ver concertos, fico torcendo pra ter essa porque ela sempre explica, de alguma maneira, o fim das coisas. Não é de morte, mas é de morrer. Entende? Coloca? Não, Tati. Ninguém tem isso aqui, tá louca? A gente vai colocar o Asa de águia. Oi? É. E eu mais uma vez me pergunto porque saio de São Paulo no dia que mais tenho pânico de todos os dias do ano. Mas se eu contar pra alguém, vão me mandar pra médicos e remédios e curandeiros. Como se tivesse solução pra ter nascido. Ninguém entende nada. Então só me afasto e aperto o celular. Não quero nada e nem ninguém. Aperto apenas pra lembrar que existe, ainda, uma lista de querer dentro de mim. Que uma hora volta. Daqui a pouco eu volto e tudo volta.
A virada do ano. Estamos todos morrendo! Quero correr pela praia. E gritar. Fodeu galeraaaaaa! Estamos todos morrendo! Acabou. Ta acabando. Vai acabar. E isso é...putz, e isso é tão lindo que eu queria poder, agora, amar demais tudo e todos. Amar daquele jeito perfeito que dura um segundo e não quer nada em troca. Amar com meu caminhão da Granero. Do jeito enorme e grosseiro e Zona Leste que sei. Mas não faço nada disso, apenas rebolo, como se eu fosse mais uma ovelha do rebanho feliz, ao som do Asa de águia. E é como se o diabo me filmasse para eu saber, pra sempre, o quanto me traio pra jamais sucumbir a minha estranheza. O quanto deixo de assustar os outros com a minha maluquice e me assusto com a maluquice dos outros em mim. Rebolo pra dar de presente ao mundo minha presença, ainda que nem eu possa senti-la nessas horas.
Acabou. O ano virou. Daqui a pouco, todos estarão tão bêbados que eu poderei ser estranha ou infeliz ou bizarra ou nula como bem entender. Talvez ir dormir, por exemplo. Ou fazer coco. E poderei me libertar dessa obrigação pavorosa de estar feliz e simpática e emanando coisas boas. A ditadura da felicidade. Ano Novo é que nem o Rio de Janeiro. O Hugo Chávez da alegria. Eu quando fico estranha, quando tenho o “troço” que me dá, a última coisa que quero é um abraço. Agora imagina ficar estranha todo ano novo, a data dos abraços. Socorro.
As quatro da manhã, em meio a bexigas estouradas, gente caída, bocejos e I-pods descarregados, sinto a alegria vindo como um orgasmo daqueles que sabemos fortes porque se aproximam tímidos e ainda machucados. Canto bem alto. Danço. Abraço os restos das pessoas espalhados pelos restos da festa. Agora é a minha vez. Enquanto todos acabam de comemorar o final do ano, começo a comemorar o final da comemoração de final de ano. Ufa! Acabou! Acabou o Natal e o ano novo! Ufa! Agora que não precisa ser feliz, posso ser feliz em paz. Agora que não precisa ter energia, esbanjo minha falta de limite. Quero correr pela praia. Estamos todos vivos. Galeraaaaaa estamos vivooooos! Ufa! Acabou! Acabooooou! É isso. Não sei ser feliz com os finais que chegam. Mas sempre dou um jeito de me divertir quando sou eu que, apesar de tudo, chego até o fim.

A chance

Ontem quando liguei para o táxi percebi que era uma daquelas chances. Fico meio rouca e meio calma. A voz sai divertida e as pessoas riem de mim mesmo que eu diga apenas o nome e o número de uma rua.
É tão agradável que gosto como se eu fosse uma amiga nova e simples, dessas que a gente tem vontade de viajar pra praia e falar besteira enquanto cutuca cascões no pé. Eu era uma dessas garotas sempre sorridentes que a gente, quando encontra, abraça como se tomasse o resto da Coca-Cola no gargalo. É pessoal e ao mesmo tempo ninguém aguenta não fazer. Dá vergonha e tem seu charme. Umas dessas garotas que nitidamente foi feliz na infância porque o pai conversava no fresquinho da noite sobre como a vida não precisa ser assustadora. Dessas meninas que quando alguém quer explicar, começa falando de si mesmo.
Quando o táxi chegou na festa e eu, num ímpeto que nem sei o nome, beijei e abracei todos da entrada gostando de gente como nunca gosto, percebi que era uma daquelas chances. De tudo o que posso ser, essa é a que me vem com menos frequência. A garota corada, quase a Moranguinho que eu tinha quando era criança. A garotinha beija e abraça e gosta e ouve todo mundo. Olha a fulana. Olha o cara. Pessoas. E quando ela vem fico nessa certeza, até um pouco doída, de que não existe nenhuma outra mais verdadeira. E que todo o resto, todo o enorme resto, é só para guardá-la intacta em algum lugar onde as janelas são anti tudo. Mas quando alguma coisa esquece a porta aberta e a noite é quente demais para deixarmos as crianças medrosas, ela escapa. E é lindo. Quando os carrascos de fora e de dentro dormem, quando é feriado no planeta do afasta e repele e rebate. Ela sai. E é lindo. Porque a maldade do mundo inteiro entende que não se brinca com as exceções da vida. E nada de mais acontece.

Os diferentes

Fico congelada olhando, ela lamber os dedos da fruta que trouxe na bolsa de marca brega. Mãos da rua e nem lava. Lambe os dedos das mãos secas, com as unhas sem fazer. Fico congelada olhando e sinto o golpe de ar que entra pela rachadura do meu peito. De um lado o nojo, o renegar, o virar o rosto. De outro, uma vontade imensa de pertencer ou ao menos ser querida ao diferente. O diferente, o diferente, o diferente. Eu metralhando a vida mesmo sabendo que não existe defesa pra isso. Ela transforma meu peito de arrogância lisinha num chão árido e nem imagina que faço metáfora com seu mijo. Nem imagina que pego suas sobras, suas coisas descartadas, e passo o resto da semana bebendo nessa fonte. O que você não quer, me dá que eu levo pra casa e fico horas tentando entender. Por outro lado, tente ser meu um pouquinho?
De dentro do carro descubro que o caminho mais rápido para a minha casa passa sempre em frente ao boteco. Boteco? Boteco. E me contorço inteira de não querer, mas espio lá pra dentro de uma curiosidade tão torta que as rodas do meu carro com ar condicionado entortam também meus caminhos. Alguém buzina sem paciência. E eu quero gritar “e eu lá quero essa vida toda que não é a minha?”. E as rodas tortas e todo meu retesar não enganam mais nada. Eu quero um pouco. Eu quero que eles me queiram um pouco. E tudo isso me assusta e incomoda muito. De leve, caindo gotinhas a cada segundo, uma coceira pequena mas inchadinha. Eu olho sim do buraquinho da minha bolha. Ô menino, pega minha bola? Brinca comigo um pouco? Meus pais não me deixam brincar na rua, mas minha bola é bonita e cara, você não quer entrar? Minha bola é melhor do que a sua. Mais limpa. Menos usada. O menino ri e corre pra longe. Vai viver de verdade na vida enquanto eu faço o mesmo só dentro de mim. Eu fico triste, mas o coração disparou tanto que quase não parece tristeza. As coisas que sinto quase nunca parecem as que temos oficializadas em dicionários. E então me pergunto como escrevo.
Eu fico congelada olhando. As janelas todas dos prédios todos de todas as vidas por aí. Fico congelada quando não são meus grupinhos e plateias e tudo que tem cheiro de mãe ainda que nem mãe tenha esse cheiro. As pessoas diferentes e como se viram pra conseguir o mesmo que eu. Que é ver algum sentido, dormir bem, falar que alguma coisa é boa demais, meter o pau no resto todo, gozar antes de começar a pensar na quarta-feira e não decepcionar tanto assim alguém que a gente tem certeza que conhece melhor do que ninguém.
Quando não riem de mim, não entendem, não se doem com minha dor, não congelam por mim, não existe aquele minuto em que sinto “olha lá, estão virando meus, vão virar, vão virar, opa, sim, são meus”. Vou murchando, murchando. Ratinho pequeno. Noz. Formiga. Meleca de nariz. Sumi. Nunca existi. Que dor. Que dor. Soco o teto pra voltar pro chão. Só ser plateia. Ser amiga de gente com seus egos e histórias próprias. E o pior de tudo: prestar a maior atenção neles e nem conseguir falar nada. Mudo a voz, meu jeito de sentar, não lembro de sequer um motivo pra ser amada ou desejada. Tenho a idade insuportável de novo. E as crianças no recreio não querem brincar com minha bola. Tudo o que construí esses anos todos me abandona. Quando vou ver, estou lá de novo, magrela, sozinha, estranha e criando vinganças puras no peito estriado. Sonhando com tudo o que eu faria pra me transformar exatamente no que me transformei. Voltar pra merda dói mas é passado. Agora eu olho pra eles de dentro do carro geladinho, de dentro de poses, mais de cem mil páginas no Google, mais de três mil livros vendidos, mais de duzentos mil nessa sala com a iluminação que li que era chique, mais de mil garotos, amigos, notas, abraços. Não sou ela! Eu sou eu! Ouviram? Ouviram? Mas eles estão preocupados demais em provar o mesmo. Vai ver não somos tão diferentes assim.

Mexeram com o português

Para tudo! Não me conformo com enjoo sem circunflexo. Sentir enjoo, ao menos pra mim, é a pior coisa do mundo. É a certeza de que tudo vai muito mal, deu muito errado, saiu do controle. Tem que ter intensidade, tem que ser acentuado. Transformaram o passar mal numa coisa que passa desapercebida (ou despercebida?). Tiraram o drama do enjoo. Tiraram a dramaticidade de quem briga e grita “paraaa tudooo”.
Ideia sem acento é outra coisa que me mata. Porque quando temos uma, a vida flui, abre um chacra no topo da nossa cabeça (meu psiquiatra espírita que disse). Os braços se abrem em alegria. A lâmpada surge em cima da cabeça. O mundo pede um acento pra isso. Ideeeeia. Ninguém tem uma ideia. A gente tem uma ideeeeia. Porque ideia fraca nem chega a classificar ideia. Ideia serve pra se destacar, não? Paranoia serve pra ser sentida até suas últimas consequências sem trema. Assim como estreia. Ninguém estreia pra passar despercebido (ou desapercebido?). É duro ter apego a uma verdade e de repente (ainda bem que não inventaram de ser “derrepente”) ela passar a ser incorreta. Eu tinha muito apego às minhas ideias com acento. Mas crase nunca soube usar direito e eles insistem em manter: afinal, “às minhas ideias” têm crase?
Ainda bem que “minhas ideias têm” continua com acento no tem. Meu cérebro entende que onde tem mais de um querendo ter ideia, tem sempre um que toma chapéu. Já os coitados que veem, agora, vão ter de ver de pé mesmo. A última: meu cérebro também entende que voo sem acento pode ser aceitável, afinal, já é assim mesmo que a gente se sente espremido neles. E peço desculpa a vocês por esse parágrafo com três trocadilhos infames e seguidos, mas não resisti.
Tô com medo de ter virado a minha avó, que em seu livro de receitas escrevia absurdos como “êle” (calma, ela não fazia picadinho de gente). Já tô até vendo meus netos lendo meus livros antigos e rindo de erros de ortografia e outras bobeiras que certamente cairão em desuso. Como procurar um romântico avô para eles, por exemplo.
Um assunto que virou quase uma pedra de césio é a tal da diferença entre história e estória. ESTÓRIA não existe mais, gente! Há anos! Mas já percebeu como tem sempre alguém de óculos que adora brigar por isso? E “estória” também era mentirinha, lorota, livro de criança. Como hoje em dia tudo ficou sério demais (até bala barata de cinema só vende se tiver vitaminas e fibras), virou tudo história mesmo. Tudo chato e de verdade.
Tem mudança que não me incomodou nem um pouco. A queda do tal de acento agudo “na primeira pessoa do plural do pretérito perfeito dos verbos da primeira conjugação”. Oi? Que língua é essa? Quem fala assim além de padre e/ou pseudo ator ex-comunista e ex-hippie e atual budista de peça de teatro chata que fica adaptando czaristas em teatro sem ar condicionado? Quem fala: amámos ou louvámos?
O trema também já vai tarde. Eu já não uso desde o colegial, quando a Celina, minha professora querida que nunca esqueço, liberava a gente desses pontinhos chatos. Pontinhos servem pra classificar ideias mal acabadas ou infinitas ou misteriosas e assinatura de metidos a maçom (metido “a” tem crase?). Mas pra fazer som de francesa transando não. “Oui”!
Já em Portugal, finalmente eles tiraram o “c” de ação. Ninguém que precisa agir rápido para (do verbo parar) para (olha a dificuldade) ter uma “acção” ou um “acto”. Quem se deu bem foi o kiwi (diferente da pera), que agora, tem duas de suas únicas consoantes aceitas pelo dicionário. Se fosse "kiwy", essa seria uma fruta heroica sem acento. Um exemplo de modernidade. Deveria ter um monumento de “kiwy” em frente ao Museu da Língua Portuguesa. E a história dele é séria: tem vitaminas e fibras e tal.
Ao final do texto, meu “corretor do Word” desavisado, ultrapassado e sofredor, me avisa de muitos erros. Mal sabe ele.

Visão além do alcance

No Rio você vê o que está do outro lado da esquina e vê o que está do outro lado da outra esquina e vê a praia a sua esquerda e vê a lagoa a sua direita e vê que o dia está bonito acima de você e vê a montanha a sua frente.
No Rio você vê a bunda de todo mundo, e parte dos peitos, e as pernas de todo mundo. E vê artistas. E vê todo tipo de gente misturada a todo tipo de gente. E vê o sol e vê as horas e vê Deus. E sabe exatamente onde está, ainda que não conheça direito a cidade. E vê tudo isso numa única caminhada. E com uma claridade e uma amplitude absurda.
O Rio se escancara. O Rio, como já disse em outros textos, é pra fora. E tudo isso, assim, de repente, dói os olhos. É como fritar a retina em óculos de sol vagabundo. O Rio te dá uma sensação de que as imagens não vêm em layers, aos poucos, protegidas, em camadas, em tentativas. O Rio explode na sua frente. O Rio frita as suas sensações. O Rio não te protege, não conta aos poucos, não engana. O Rio é aquilo.
E por isso eu sofri tanto, odiei, tive síndrome do pânico, apnéia, caganeira, chorei horrores, e passei noites em claro, e coloquei tudo o que eu sabia em dúvida. Fiquei perdida, me senti com doze anos. Ou “douze”, como eles preferem dizer.
E resolvi escrever um monte de textos pra acabar com eles. Como fiz com todos os homens que mais amei na minha vida. Porque o Rio é uma trepada violenta que não espera você sentir prazer ou estar preparada pra tirar a roupa. Simplesmente ele te come. E no fundo, como toda mulher que gosta de um bom cafajeste, você gosta. Você reclama, toma banho, escreve um livro falando mal do Rio, mas gosta.
O Rio é como um primeiro dia na escola nova. Todo mundo zomba de você. Você vomita de madrugada. Jura vingança. Mas você sabe o quanto aquilo fez bem pro seu caráter. E não sabe explicar exatamente o motivo. O Rio é como um namorado sarado que você nem amava mas que achou que precisava deixar de quatro só porque acha que cérebro tem que vencer a beleza. Só que até de quatro ele é lindo. Então quem vive de quatro é você. Mijando e cagando pros cariocas. Mas eles não se importam porque você é só um cachorro. Você é só uma cabeça rolando.
No Rio tudo é aberto, tudo é de todos, tudo é de graça, tudo é amplo. E então, você, paulistano inseguro, tem medo de não saber mais quem você é. De se perder. Das suas bolinhas de gude desagruparem e saírem correndo pelas valetas do mundo. Porque a bosta do seu grupinho fechado e das sua visões fechadas e das suas certezas em paredes caras acabaram. E não é todo mundo que fica bonito saindo do mar. Pelado. E enxergando tantas coisas. Sem seu território devidamente comprado, conquistado e fechado, que porra é você? De que serve seu mundinho tão específico num mundão misturado?
O Rio é como nascer de novo só que sem mãe pra te dar peito. É como estar super na moda só que sem roupa nenhuma. É como estar no lugar do momento sem ter ralado, pagado ou puxado o saco de alguém para merecer. É como ser contratado pro emprego da sua vida numa língua que você não entende e para tarefas que você nem sabia que existiam. É como ser convidado pra desfrutar de um paraíso cheio de demônios. Você não entende nada, não sabe nada, fica se perguntando se está mesmo vivo ou se sabe viver. E tudo isso, na imensa contradição de estar enxergando tudo como nunca antes.
Em muitos momentos fui obrigada a fechar os olhos, mas certamente voltei de lá com eles um pouco mais verdes.

O mundo é uma revista chata

Crítica de dois filmes, indicação de três livros, ótimas músicas para baixar, fofocas e últimos trabalhos importantes, alguns clichês, a personalidade do momento, uma sessão de piadinhas, dicas de comportamento pra não afugentar o próximo e a crônica final: um relato pessoal cheio de trocadilhos e “pseudos” momentos de alma. Qualquer amigo, qualquer almoço, qualquer telefonema, qualquer encontro de galera animada, qualquer papo virtual, qualquer café com alguém cabeça, se parece com qualquer revista chata. Uns são Nova e outros Bravo. Mas não passam de papel com brilho. Viram lixo na semana seguinte, na hora de pintar as paredes ou da Lolita mijar. Todo e qualquer ser humano cheio de ideias não passa de um jornalista mala em começo de carreira querendo montar uma revista sensacional e inédita que o mundo inteiro já montou. Tá todo mundo falando, falando, falando a mesma coisa de sempre. Do mesmo jeito de sempre. E comendo as mesmas garotas de sempre. Com a ressaca de sempre. Com a vontade de morrer de sempre. E o alpino melhorando a vida por alguns segundos depois da massa ruim de microondas ou da rebarba de gordura no peito de peru light.
As regras do jornalismo. Sempre as datas, lugares e filiações. Sempre os sonhos pra daqui dez e há dez. Sempre os personagens simples das esquinas e a necessidade povo de ser. Até o ônibus te fechar e o Hitler "baixar" em você. Isso ninguém publica ou fala. Igual, igual, igual. Um lugar pra chamar de seu. A mina da vez. Mil lugares pra se matar antes de morrer. A volta por cima. Ele veio pra ficar. O mundo é uma revista chata e igual.
A banca de jornal tem cara de boteco cheio na Vila Madalena. Uma solidão profunda. Mil assuntos gritados egoicamente e todo mundo se perguntando em silêncio se já pode ir embora sem parecer um maluco que fica em casa fritando a cabeça. As gordas gostosas de obra usando sandálias de plataforma e encantando os super bem sucedidos profissionais assistentes de firma falida. Hmm, hoje vai rolar um sexozinho gostoso com uma bunda falante. A VIP nem colunista tem mais. E infinitas mesas de cariocas ultra felizes ainda que mais da metade ali nunca tenha pisado no Rio e só ache sexy fazer chiados ou falar garçom com sotaque menos caipira. Bancas de jornais, com as revistas penduradas pra fora, voando um pouco pelas laterais, quase no seu colo, “splashs” implorando pra serem levados, tudo grita, uma explosão de cor que acaba num cinza amorfo. Cadeiras pra fora dos botecos. Tudo igual. Um segundo ali e você acaba comprando um assunto chato pra se distrair, ocupar os dedos folheando e não beliscando o centro do peito como a tal da ave que comia um fígado. O fingimento da não angústia compartilhada chega tão perto da alegria que a coisa volta pra você numa tristeza ainda pior. Coxinha com bebida mesa capenga e elogio falso. Azia arrependida mas melhor que o oco. Qualquer merda dentro da gente é melhor do que o nada. Vomitar o nada seria conhecer um universo paralelo que nem dá pra passar pelo pensamento. Então vomitemos coxinhas. Moça bonita na capa na lata de lixo. Chorume na coluna do psiquiatra das estrelas. Chato, chato, chato. Por isso, e só por isso, ainda insisto na amizade com quem, livre de parecer ou ser ou se sentir qualquer coisa, fala de pum. Ao resto das revistas todas, dedico breves encontros enquanto estou cagando.

O equivalente a escrever

Quando eu trabalhava em marketing, em firma, e odiava, eu pensava, vou largar essa merda e escrever. Não tinha a menor capacidade pra ficar sentada embaixo daquele ar condicionado acumulando gripe desde 1994. Barulhinho de elevador me entristece. Aquele “plimplum” do elevador, sabe? Eu tenho vontade de imitar puta dentro de elevador com aquele povo falando das férias no Atacama. Sei lá, botar um peito pra fora e gritar “dérreal”. Algo bizarro. Gritar “spalacutinanaipoxereca”. Algo, algo. Já percebeu como tem sempre alguém falando de aventura no elevador? É porque eles tão escalando o prédio do décimo andar até o décimo terceiro onde fica o RH? E as TVezinhas de plasma informando do jogo do São Paulo e da prisão do Dantas e do urso que queriam aniquilar. Que aventura. E odiava aquelas calças pretas do terninho em dia de versão sem seu par paletozinho, esmagando bundas super profissionais. Crachá sempre tem algo de laranja. Cor da comunicação, manô! Os super ousados que andam na frente, levando sua trupe alegre ao quilo da esquina. Hoje é por conta do Álvaro. Não, hoje é dia do Tavares.
Quando eu trabalhava em agência, bota aí uns dez anos, eu pensava, vou largar essa merda e escrever. Virar noite por conta de spot pra banco? Aturar chefe que fala frases do tipo “hmmm, não sei, ainda não tá matador, sabe?”. E eu querendo estourar a cabeça do cara. “Tá matador agora, ô nerd brocha que ganhou dinheiro?”. E aturar duplas que você não escolheu nem pra marido e nem pra amigo e muito menos pra dupla. O dia todo ao seu lado. A noite toda quando tinha refação ou mesmo quando não tinha. O importante é viver pra essa merda. E sabendo o cheiro que o pêlo dele tem depois das três da manhã (uma hora o gel da desgraça ao lado vence, confere?). Enquanto ele refaz o sombreado do layout pela décima vez ouvindo “tecneira”. Eu olhando de longe e tendo que "pensar junto". Vou largar essa merda e escrever.
Cruzar no corredor aquela cara de sapa mijada do financeiro “não tenho expediente para lhe responder isso agora”. Vou largar essa merda e escrever. Participar de reunião com beirute e o cara da mídia que tem voz de catarrinho seco preso na faringe. Vou largar essa merda e escrever. O bolo dos aniversariantes de junho com direito ao prêmio bunda da firma pra Suélen, da recepção. Vou, sim, largar, essa merda. Ô se vou. E o cara que se acha maior engraçado, da finalização, imitando o Joseph Climber? Aliás, que graça tem essa bosta de quadro? A redatora gatinha que se pergunta sempre porque todo mundo olha pra ela, mal sabe que é por causa da bóia de pato rosa embaixo do sovaco. A menina é gorda no canto da teta! Mas se acha gata. Solidão. Bocejo. Azedo. Sempre o chocolatinho na gaveta. E um dia. Quem sabe. Consegui! Consegui! Ganhei leão! E agora? Agora enfia no cu. Eu vou largar essa merda. E larguei.
Eu larguei tudo pra escrever, porque nada bastava, servia, dava garantia, me fazia feliz. Nada era suportável. Sim, tem aí todo um problema grave de pouca paciência pra vida e menos ainda pra socializar e me relacionar. Grave. Até meio doente, vai saber. Mas, profissionalmente, super bem contornado pelo fato de que me sustento escrevendo. Sou plena assim. Ainda que plena seja uma palavra brega digna daquelas amigos que dizem “vá ver o Sol, Tatiane” (tive que ouvir essa ontem). Arrumei um jeito de pertencer ao mundo e pagar o IPVA sem precisar sair de casa pra me irritar. Fico aqui e tudo certo.
Mas e no amor, me pergunto, qual é o equivalente a largar tudo para escrever? Se também não aguento, não tenho saco, não fico quieta e trabalho. Se tudo me irrita, dá vontade de ir embora, sufoca, maltrata, enlouquece. Se quando peço aumento, só quero, na verdade, um bom motivo pra ser demitida. Se quando cobro reconhecimento só quero, na verdade, ser mandada embora. "Já que estar aqui é insuportável, me dá pelo menos a garantia de um bom plano de saúde?". Namorar é saber que daqui a pouco troco de novo de agência. Namorar é a calça preta do terninho, o elevador cheio de crachás, a sapa mijada do financeiro, o dupla com cheiro de bola de saco, a teta gorda da metidinha, o bolo da Suélen, o dia do Abrantes pagar a conta, a vontade de explodir a cabeça do chefe.
Tudo começa bem, tudo termina aqui, nesse site chatinho. No amor, o equivalente a largar tudo e escrever é exatamente largar tudo e escrever.

A perigo

Eu tô a fim do meu dentista. Ele me explica que basta usar a plaquinha nos dentes da frente que um ponto alto no centro acaba fazendo três pontos na boca e meu bruxismo vai pro saco. E eu fico muito a fim dele. A cadeira tem massagem e no telão passa o show da Rita Lee. Ele me pergunta de três em três segundos se eu estou bem. E eu fico com vontade de chorar de tanta emoção. Eu tô a fim do meu chefe. Ele devolve meu roteiro todo marcado de vermelho. Noventa por cento do que fiz vai pro lixo. Mas ainda assim ele manda um recadinho no e-mail. Que eu sou ótima. Tenho feito boas piadas. Tenho um lindo futuro e esse tipo de coisa. Me chama de essa é a minha garota. E eu percebo que ele faz isso pra ser delicado, afinal, ele sabe que essa vida é dura e da importância de ser gentil com mocinhas. E sim, ele me trata como uma menina. E sim, eu fico terrivelmente a fim dele. Porque eu já sou mulher noventa por cento do meu dia resolvendo tudo o que cai ou permanece dificilmente de pé. Na frente de um homem, às vezes, quando é possível, eu só quero encostar um pouquinho. Se for pra sentir a dureza da vida, já sinto bem e quase no limite, sozinha. E fico a fim dele. Porque ele sabe que pra engolir seco e refazer noventa por cento do roteiro eu preciso ser mulher. Então não custa ele me dar essa meia coxa de colo. Um descontinho da vida. Todo homem inteligente sabe disso. Ou todo homem gente boa. E eu fico terrivelmente a fim dele. Terrivelmente. Eu tô a fim do Raj. Mesmo ele sendo o fortinho bobo das outras novelas. E mesmo ele dançando que nem uma bichinha o tempo todo pela sala cheia de tapetes. Eu tô a fim do professor do Entre os Muros da Escola. Acaba o filme e fico triste. Eu queria namorar o cara, cuidar dele, fazer massagem nos pés, bater altos papos em francês sobre aquelas crianças feias e mal educadas. Eu diria a ele pra dar aula numa escola particular, com criancinhas cheirosas e sem berebas. Até porque eu tô precisando morar num lugar melhor. E a gente terminaria, dividiria os livros, os discos, as fotos. Porque ele seguiria com seu ideal de dar aulas para aquelas crianças feias. E então eu arrumaria outro namorado. Sem ideais mas super bem humorado e com um emprego mais chique. E esse namoro não duraria uma semana. Porque eu sou mesmo é a fim do meu professor idealista. Esse homem bom que eu tenho no fundo de mim. Culto, intelectual, cheio de vontade de melhorar o mundo, sem frescura. Melhor do que eu. O melhor de mim. E eu voltaria pro nosso apartamentinho pulguento fora do centro de Paris. E treparia com ele no lençol furado com cheiro de livro velho. Os dentes dele tipo os ingleses depressivos. E ele puto porque o marroquino sei lá das quantas mandou ele tomar no cu. E isso tem um charme que supera qualquer glamour. Nossa, como eu sou a fim do meu professor. Eu tô a fim do meu massagista. Eu sei que não é normal ele querer tirar nódulos energéticos dos meus seios. Eu sei. Eu sei. Esse é o meu segredo que eu jamais contarei a alguém. Mas eu tô a fim dele. Muito a fim dele. Eu tô a fim do meu colega do curso de dança. Ele sempre me ajuda nas posturas. Sua bacia, Tati. Sua bacia é estranha. Pobre colega de curso de dança. Se ele soubesse como piora. Eu tô a fim do meu gerente que vai me descolar o empréstimo. Eu fiquei mil horas me explicando pra ele. Veja bem, claro que eu vou pagar, não é porque tem um rombo na minha conta que eu não seja muito rica. Porque na minha imaginação, eu sou muito rica. E segundo a minha psicanalista, tudo o que eu imagino é verdade. E só porque ela disse isso agora tô insuportável. Nunca ninguém me deu razão ou compactuou de minha insanidade de uma maneira tão intelectualizada e séria. E ele acha fofo eu ser pobre mas me trata como rica. É o sonho de toda vagininha andante. Ser acolhida como morta de fome e tratada como princesa de Mônaco. Eu tô a fim do garoto baixinho da livraria com o dedão machucado, do House, do vizinho gay aqui de cima que elogiou minhas pimentinhas e do Thom Yorke que piscou o olho caído pra mim. Será que tô à perigo? Não, não, eu acabei de me salvar.

Tudo aquilo

Combinei comigo um dia e um horário. Terça, onze e cinquenta da noite. Depois que eu resolvesse o problema do aquecedor que quebrou e depois que eu resolvesse o problema do cara que fez um buraco no teto por conta disso e o problema do pintor que viria depois do cara que arrumaria o buraco no teto. Depois que eu resolvesse o problema da grana alta que tenho que arrumar em uma semana. E eu contando centavo pra pagar nove reais da minha conta do UOL. Para isso só mudando de agência. Minha gerente é o tipinho loira de raiz de pêlo de Poodle que chega pra trabalhar rouca porque foi em alguma micareta fora de hora (e todas não são?). Depois que eu entregasse treze roteiros em um mês. Um milagre que só um ser sem dormir e sem vida seria capaz de cumprir. E eu cumpri. Dormindo e com vida. Terça, onze e cinquenta. Até lá, preciso resolver o problema da produtora que voltou a me encher o saco. O problema da emissora que continua me pagando pro pão com ovo. O problema do escritório de advocacia que resolveu me cobrar honorário até do segurança noturno que bateu punheta e limpou com a xerox rasurada do meu contrato. Tem também o problema da contadora que se confundiu com a minha senha e agora tô há semanas sem receber pelos meus freelas. Preciso entregar aqueles textos pra peça de teatro, ainda que ninguém me diga com clareza o que é pra ser feito. Bota aí alguma coisa de Revolução Francesa. Sei. Posso botar sadismo? Preciso inventar um jeito da minha personagem do filme trepar com um gringo por dinheiro e isso jamais parecer prostituição. Tá fácil.
Combinei comigo um dia e um horário. Terça, onze e cinquenta. Depois que eu resolvesse meus exames pedidos pelo médico há meses. Agora preciso correr, pra aproveitar que o meu plano bom vai pro saco e eu vou ficar com meu plano vagabundo. Depois que eu resolvesse o lance da administradora do prédio ter o CNPJ caçado e meu condomínio ter subido para o equivalente ao que eu gastaria pra visitar minha amiga em Londres. Aliás, ia me dar isso de presente de trinta anos, mas esse ano fico sem presente mesmo. O importante é pagar meu porteiro que dorme na madruga enquanto eu negocio com os sequestradores relâmpago do bairro “ah, vai assaltar em alto de Pinheiros que lá tem velha rica e desocupada, aqui não tenho nem pra jujuba e preciso entregar um roteiro, agora não rola ir até o caixa com você, muito menos passear pelo bairro curtindo o seu cd pirata do Simple Red remixado”.
Combinei comigo um dia e um horário. Terça, onze e cinquenta. Depois que eu resolvesse o lance de passar três dias por semana no Rio para melhorar minha social no trabalho. Não tenho dinheiro e pra falar a verdade (pela milésima vez) não tenho prazer nenhum em passar esses dias no Rio, longe da minha casa, marcando encontros, sempre em pé e com barulho, com gente que te enche de beijo e de festinha e nem dá tchau na hora de ir embora.
A Net me cobrou em duplicidade de novo, eu devo dinheiro pra mais da metade da família, nenhum ser humano do planeta me abraça e sorri antes de perguntar porque ando tão magra ou porque cortei meu cabelo igual cabana de índio depois do vendaval. Minha ressonância da coluna foi usada numa campanha de tobogãs assassinos das noites do terror. Minha psicanalista me mandou aumentar as sessões para três por semana mas eu não tenho tempo ou dinheiro nem para meia. Se bem que todas duram “meia” e quando preciso ir embora, é só gritar algo do tipo “odeio homem” ou “quero trepar comigo” ou “não fui eu, fui ele” ou “não sou eu que to falando, mas eu acho” que ela se levanta num misto de ódio com delírio e me expulsa dali. E eu faço de conta que saiu sem querer. Minha empregada chora porque não tenho dinheiro pra pagar três vezes por semana. E eu que tô chorando pra pagar uma por mês? Escreveram vaca na poeira do meu carro quando eu fui doar umas roupas velhas para um centro espírita. O chá boa noite só aumenta a minha vontade de roçar os dentes alucinadamente e conferir novamente os trincos da porta. As furadeiras do meu prédio cantam sempre em uníssono com os galos, principalmente aos domingos. Meus hormônios me enlouquecem, ora falham, eu seco, não tenho fome de nada e medo de tudo, quero sumir e odeio todo mundo. Ora bombam, faço amor até com geladeira desregulada, quero 567 filhos, amo o que segue. Vai e vem. As estrias se partem e algo dentro de mim o tempo todo.
E terça chegou, são onze e cinquenta da noite. Coloco Radiohead. If I could beeeee, who you wanteeeed. Apago todas as luzes. Vai, Tati, sofre. Você precisa sofrer um pouco. Vai. Você combinou que se daria pelo menos uns instante de luto pelo amor que morreu. Vamos lá. Uma lágrima. Um, dois, três e…e…e…ah, eu tenho mais o que fazer!

Triunfo

Dirijo com cuidado pra torta de pizza de aliche não cair em cima da torta de bolo de frutas com coco. Minha mãe vai o caminho inteiro elucubrando algo tipo o ovo de Páscoa do Palmeiras sair mais barato que o do São Paulo. Enquanto indaga tão grande problemática, ela aponta as pistas da Marginal que parecem prometer andamento mais rápido. Vai o caminho inteiro falando e apontando pistas. Eu controlo minha síndrome do pânico e a torta de pizza de aliche e a torta de bolo de frutas com coco.
Chegamos na rua Triunfo. É estreitinha e cheia de casinhas, algumas são quase cortiços. As pessoas saem nos portões e encaram. As crianças correm magrelas com pipas e eu acho que as pipas é que as seguram para não saírem voando. Algumas pessoas colocam cadeira de praia em frente de casa e batem papo com um desprendimento de ombros típico de quem tem dinheiro guardado para as próximas cinco gerações. Casaizinhos feios namoram e me lembram meu primeiro amor. Eu com a sobrancelha pintada igual a da Malu Mader esperando o Sandrinho passar de coxa depilada e mobilete verde. Até o dia que meu avô jogou um pneu em cima dele e ele sumiu pra sempre.
Catarina, a anã que aterrorizou minha infância, está lá também. Meu avô me dizia que se eu não comesse, ficaria como a Catarina. Ele também me dizia que se eu não fizesse cocô, o cocô, no meio da aula de geografia, começaria a sair por todos os buracos da minha cara. A todos esses comentários, algum parente por perto sempre emendava “e aí, minha filha, quero ver alguém casar com você”. Nessa época eu deveria ter uns sete anos. É, eu hoje poderia ser fácil fácil uma dessas pessoas bem estranhas. Ainda bem que tudo deu super certo e eu sou um mimo de ser.
Passo em frente a casa do Luizinho, o cara mais odiado do mundo. Dizem que até cachorro vira-lata que faz festinha pra mendigo cachaçado de Zulu foge dele. O cara é tão chato que conseguiu ter cheiro e cor de chato. Não me perguntem o que isso quer dizer. Mas é exatamente isso. O cara, um misto de mister Magoo com Jerry Lewis (depois da falha de sistema) com rifeiro de bicicleta usada, exala e imprime chatice. E Luizinho lá está, na porta também, de papo com o Paco. O Paco, quando eu tinha uns sete anos, era tipo o homem mais velho do mundo. Hoje em dia ele é tipo o avô da Hebe. O tio mais velho do Niemeyer. Eu tenho certeza que ele tem duzentos anos na carteira. Até porque pobre das antigas tem sempre um lance de ser registrado uns dez anos depois que nasce. O Paco tem fácil uns duzentos e dez anos.
E então passo em frente a casa da Claudinha. A Claudinha morava de frente para a casa do meu avô e a casa dela era tão animal de trilhardária que diziam ter até elevador. Um dia, quando eu tinha uns sete anos, escapei do banheiro (meu avô me fazia ficar sentada lá dentro até conseguir algum mérito fecal) e invadi a casa da gordinha sem pedir licença. Fui entrando. Queria acabar com essa palhaçada de uma vez. Tem ou não tem elevador, cazzo? E na época, antes do meu avô me buscar para mais uma rodada solitária de bunda formigando, eu descobri a verdade. Mas pra agora esqueci. E não me perdoo por isso.
Chega a vez da casa da Anelise Amanda Botelha. Anelise Amanda Botelha era a gata mor da Triunfo. Tanto que ela namorava o cantor da banda da igreja. Fico me perguntando se aquela gorda loira de cabelo de Poodle com bermudinha rosa justérrima fazendo o w gigante da vagina sufocada é Anelise Amanda Botelha. Se for, ela, hoje, tem quarenta anos a mais que eu. Na época ela tinha só cinco. O tempo não passa pro Paco, mas pra Anelises Amandas Botelhas, corre. Até porque, se não me engano, ela já tava no aborto doze quando eu, virgem de qualquer contato humano, queimei a minha canela no escapamento da mobilete do Sandrinho.
Passo em frente a casa do menino que morreu com alergia de antiinflamatório. Furaram a goela dele com Caneta Bic mas era tarde demais. Fiquei sem comer uma semana por causa dessa história. Mas na semana anterior eu tinha ficado uma semana sem comer porque meu tio fazia um prato com todas as comidas do mundo e, pra acompanhar, tomava leite morno. E na semana seguinte eu fiquei uma semana sem comer porque o fogão explodiu e minha avó, que estava estendendo a roupa na laje, viu o espírito da mãe dela chamando “o fogão, Maria!”. O fato é que eu não comia muito. E não comer muito numa família meio italiana, meio portuguesa, é uma ofensa inteira. Era colherada de óleo de rícino, passe espírita e pediatra toda semana. Essa menina não come! Eu comia, na época, umas cinco vezes mais do que como hoje. Meu café da tarde era digno do meu avô começar a preparar uma hora antes até tudo ficar pronto. Tinha de uvinhas “em molho” em copo de vinagre pra tirar as sujeiras à pão francês com a casca raspada para eu não comer a parte que encostou na mão do padeiro. É, eu poderia ser fácil fácil uma pessoinha bem estranha hoje em dia. Mas sou só um chuchuzinho de ser. Mais normal impossível.
Chego finalmente na casa da minha tia. A torta salgada de pizza de aliche está inteirona assim como a torta doce de bolo de frutas com coco. O cachorro fez cocô no meio da sala mas alguém já jogou perfume no ventilador pra espantar o cheiro. Enquanto a galera ataca a comida (ao meu ver, suficiente para matar a fome de um país inteiro em meses) não deixando nada para o jantar, uma tia recebe o espírito de algum preto velho. Ela sacode as mãos tipo rock and roll. O que seria motivo de atenção caso o camarão não estivesse acabando. Quando a quinta pessoa vem me dizer que eu estou muito magra, minha mãe já está na décima pessoa que veio lhe dizer que ela está muito gorda. Meu primo, que só tem nove anos, é eleito o robusto do mês, com especial mérito ao fato de que ele come tão bem que começa a ter um pouco de mamas. Alguém solta, orgulhoso e genial: “tem mais teta que a Tati!”.
Em cinco minutos preciso ir embora como se não houvesse amanhã. Levo de vaias a tapas na bunda. Me despeço já sabendo que, agora, outro encontro desses demora pelo menos mais uns cinco anos. Até alguém morrer ou minha mãe me ganhar no drama da cardíaca que nunca me pede nada. Proíbo minha mãe de abrir a boca no carro ou apontar qualquer direção. A volta é sempre mais tensa e rápida que a ida. Desovo minha mãe e corro pra casa. Chego aliviada, feliz, longe, outro mundo, passou, nem foi comigo. Ufa. Acabou. E choro. Sempre choro. No fundo, bem no fundo, eu tenho é tanta saudade de tudo.


Os traidores de poesia de mundo

Ela era a minha melhor e mais adorada amiga. Mas ela tinha ou não me tratado mal na festa? Ela nunca me mandava tomar no cu pelo microfone, por exemplo. Nunca virava uma bacia de bosta na minha cabeça. Eram micro coisinhas, eram nuances de desdém, olhares que nunca ninguém no mundo poderia ver, eu mesma duvidava se tinha visto. Aquilo foi ou não uma frase arrogante? Ela quis ou não me ofender? Não era óbvio. Ela vinha em fumaças. Eu não entendia as intenções, até porque tudo vinha meio fanho, meio dito, meio baixo, meio com a cabeça virada pro outro lado. Nada era claro. Dito de olhos para olhos. Quando eu percebia, estavam todos rindo de mim ou vendo minha dificuldade em sair de alguma situação que ela tinha causado. Dentro de mim crescia uma defesa, um ataque, uma raiva. Vou matar essa vaca, meter a mão na cara dela. Mas eu me sentia louca em sentir tudo isso. Por que eu bati a porta do carro com força? Por que eu não dei bom dia pra ela? Ela não me fez nada! Será que fantasio maldades? Gosto de ser maltratada? Eu tenho mania de perseguição? E passava noites em claro me odiando. Será que eu sou louca? Por que tenho raiva dessa pobre garota que tanto gosta de mim e me atura e me adora e me ajuda? Será que não sei ser amada? Ou amar? Será que tenho inveja dela? Será e será e será…? Ela nunca levantou a voz, nunca fez uma crítica mais cruel, nunca me disse o que realmente pensava, nunca brigou pra valer pra fazer as pazes pra valer. Sempre fina, educada e preservada. Sempre correta, fazendo pose. Sempre do alto de suas boas intenções e equilíbrios, com piedade da amiga que se perdia e se descabelava. Ela era um prato cheio pra minha cabeça. Não existe nada mais apetitoso para alguém que pensa muito como a boa e velha tortura mental. Dissimulação é a pós graduação da punhalada nas costas.
Fiquei nessa, sem saber e mesmo pedindo desculpas, por anos. A maldade ou sacanagem ou fraqueza escancarada é fácil de afastar. Mas o que fazer com as pessoas que te dão colo e carinho e poesia? Eu acho que a vi, no lançamento do meu primeiro livro, paquerando meu ex namorado. Mas disse pra mim mesma “ela está apenas olhando pra ver se ele está me olhando, como uma boa amiga que é”. Eu achei, numa festa estranha, que ela ia toda hora no banheiro chorar, porque é o que eu queria naquela festa estranha: chorar. E ela me olhou macabra e sorriu da maneira mais muda possível. Não como uma amiga que não pode contar uma coisa pra outra porque há limites tristes para tudo, mas como alguém mau, que carrega o submundo da alma como taça para você jamais ser convidado para o esgoto. Para você se sentir um rato renegado e só por isso ainda mais rato do que os soterrados na merda.
Ela seria só mais um amor que acabou não fosse o ódio especial e insuperável que carrego pelas pessoas traidoras de poesia de mundo. Pessoas que de alguma maneira e em algum momento, me mostraram que era possível apegar, aconchegar, relaxar num mundo eterno. Pessoas que pareciam entender e entendiam essa coisa toda que me lambuza e rebusca o peito. Não preciso do que é igual e nem parecido. Falo dessa coisa, essa necessidade de poesia de mundo, essa comemoração boba e quase impossível que duas pessoas pra valer sentem pra valer quando é pra valer.
Eu fico aqui na boa, na minha casa. Acho mesmo que a vida é isso, almoçar lá na minha mãe com a Lolita lambendo meu dedão. E meu pai chega todo cheiroso. E a tarde uma boa amiga me liga pra gente ir ao cinema e nada demais. A noite alguém carinhoso passa aqui só porque fico muito mal humorada e seca sem isso. E tudo bem. Nasci com um troço aqui que ninguém entenderia mesmo e que algumas músicas e filmes e livros e crianças e bichos e cores e madrugadas e bem cedinhos, às vezes, me trazem a tona pra mim e vivo num misto de egoísmo solitário pra caramba. Uma coisa que cabe o mundo todo mas que não preenche justamente por isso. E tudo bem. Estou sempre entre o conformismo em sentir tudo isso sozinha cada dia com menos impaciência e dor e a espera gigantesca cada dia maior. Mas aí algumas pessoas aparecem e me tiram daqui e me dizem e me provam que sentem tudo isso também e que é possível que eu saia da toca aceita e quentinha. E por alguns dias ou anos, eu vislumbro atravessar uma rua de braços abertos como a gente faz só quando está muito feliz porque não é só no mundo. E alguns amigos e amores, são como o mundo dizendo que tem eco pra existir. Ser você existe! Vai com tudo!
E essa minha amiga, a irmã que não tive, era a amiga de poesia de mundo. Era com ela que eu sonhava pegar trens em algum lugar mais longe que tudo e ir pra outro ainda mais longe. Era com ela que eu sonhava, no dia que minha mãe ou meu pai morresse, tomar um café em algum lugar legal e estar tão miserável a ponto de fazer uma piada que só ela entenderia como aquilo era humano demais. E no show do Radiohead, a gente ficaria num espaço que desse pra girar tanto que o mundo pararia. E quando um amor acabasse, ainda que cada uma tenha a sua vida, a gente iria, nem que por alguns minutos, fazer um chá pra outra e dizer que existe sim algo que dê certo. Burlamos o inferno, querida, nos escondemos aqui, como irmãs pequenas, atrás do caldeirão que fode tudo, tudo vira um caldo de merda que corrói, mas nós, nós burlamos o mundo e demos certo porque o amor de verdade nada mais é que brincar de esconde-esconde levando a pureza bem a sério.
Essas pessoas me fazem tanta falta, elas não existem, mas tenho saudade delas como se todas tivessem explodido em alguma guerra terrível que dizimou o meu tipo de gente.

Talvez eu vá, depois

A gorda do “Vocês, os vivos”. Ela dizia “talvez eu vá, depois”. Ou algo parecido com isso. A cada vez que o namorado ameaçava ir embora. O filme é uma loucura. Tem cor de hospital mas é tudo tão mal enquadrado que não passa sensação de doença, sabe? Você vai gostar do discurso do psiquiatra. E do sonho da menina do bar. Ou talvez eu que goste de tudo isso. Você tem que ver. Tá me ouvindo? Acorda, vai. Conversa comigo. Não capota. Eu quero te contar que fui a pé comprar ingresso pra gente. Pra gente ver “Só” lá no Sesc da Paulista. Vamos comigo, vai? Você pode? Eu te contei do filme da boba alegre? Fui ver “Simplesmente feliz” e desde então tô querendo ser ela. Nunca quis tanto ser uma personagem de filme. Agora eu puxo papo com gente em livraria só porque queria ficar triste que roubaram minha bicicleta e eu não me despedi. Tá ouvindo? Daqui a pouco a gente pode transar ou ficar quieto uma eternidade. Mas agora, eu queria te contar. Do meu dia. Te contar do cara do Pilates que me manda sentir o períneo e o úmero. Eu tenho tanto tesão por ele. Tá me ouvindo? Ri comigo. Porque é engraçado. Quando ele fala do úmero eu penso no úmido. E quando ele fala do períneo. Nossa. Ele me “encoxa” para eu não sentar na bacia enquanto ando. Sabia que eu ando sentada? E fala no meu ouvido, com a voz mais grossa do mundo “pe-rí-ne-o”. Quanto nome o mundo inventa. Pra quê? É tudo pinto. Absolutamente tudo. E o que não é, é a falta dele. O que não é sexo, é o oposto do sexo. E aí volta duas vezes mais forte. Tipo nosso não estar. O castrado da vida. Vixi. Vai mijar? Então deixa a porta aberta pra me ouvir. Tô com formiga no peito e pior é que fui sentar em cima. Vamos, vai. Colocar bem alto. Jigsaw falling into place? Tô tão obcecada. É tão foda porque vai calminho, calminho. De repente esse filha da puta canta tanto. Divide isso comigo, só isso. E hoje no House ele falou sobre neurônios espelho. De quando alguém boceja e daqui a pouco todo mundo boceja. Aí fiquei me perguntando quem é que começa. Eu não sei. Mas eu sei quem acaba. Quer dizer. Eu não sei também. Quer goiabinha? Escuta. Aperta minha mão. Tá me dando aquela pena de mundo, sabe? Vem a imagem de um tappeware com um pedacinho de bolo. Minha mãe preparou e eu fiquei com preguiça de trazer. Isso nunca aconteceu, mas eu fico sofrendo como se tivesse. E passo o dia levando sustos como se todos os carinhos simples, que esqueci de reparar, fossem bonecos de mola macabros que saltam do nada. Não sei o que isso quer dizer, amor. Mas você sabe. Então, aperta minha mão e me diz que eu posso deixar tudo isso pra trás sem tanta dor. Eu preciso ser adulta sem achar que tô matando o principal. Entende? Você pode? Me amar quando eu não posso ser adulta? Pra que eu seja sabendo que se eu não puder tudo bem e isso me dá forças pra ser mais e mais? Eu já sou. Você pode? Entrei no tal do Facebook aconselhada por uma amiga “ajuda a vender livro”. E vi tanta gente que eu não queria. O mundo é cheio de gente. Tantas, tantas, tantas. De amigas falsas, você não sabe. Mulher é uma raça nojenta, amor. Quer água? Deixa eu te explicar minha teoria da seleta e maravilhosa turma fechada? Eu tenho uma teoria que é assim. Existe uma seleta e maravilhosa turma fechada. Pessoas incríveis e jamais solitárias e muito bem colocadas no mundo e que sabem tudo. Nessa turma tem louco mas também tem algo mais bizarro tipo advogado. E eles são tão legais. Sabe quando você recebe um vídeo incrível e quer contar pra alguém? Coitado da gente. Porque o pessoal da turma mais legal do mundo e mais fechada e mais foda já viu tem uns dois anos. E só agora essa merda chegou pra você. E esse é o meu grande sofrimento. Porque eu acho que preciso ler muito e escrever muito e malhar muito e saber muito. Pra um dia. Um dia. As portas do paraíso. Gente de primeira. Mas nunca achei. Os grupinhos, espera aí, não me aperta, deixa eu acabar de falar. Os grupinhos quando não se juntam pra cheirar se juntam pra esperar a casa cair. Quem é que não é sozinho? Me abraça, pelo amor de Deus. Me abraça. Ainda bem que eu tenho você. Me abraça. O mundo é tão bom e tão terrível e o tão bom também é tão terrível. Que bom. Que eu tenho você. Que bom. Meu amor. Que bom. Puft. Puft. Acordo. E você não existe. Você não existe. Ele não existe! Talvez eu vá, depois.

Dancinha

Há dias que é assim. Eu toco a campainha e a porta grande de vidro da sala se abre. Meus ombros se lançam mais rápidos que a pernas e eu já começo a rir porque não tem nada mais engraçado do que eu fazendo pose em cima do meu destrambelhamento. Você pede ajuda pra me levantar e me coloca na mesinha amarela de ferro da cozinha. Não vai acontecer nada ali, mas a gente adora o ritual da mesinha amarela de ferro da cozinha. Tanto que você já aprendeu a tirar os livros e os remédios para a dor nas costas de cima.
Seu cachorro fica olhando e se perguntando, tenho certeza. O que leva duas pessoas a se relacionarem como cachorros com tanta capacidade para serem humanos. Você deve ter histórias maravilhosas da sua adolescência na França e o seu dia deve ter sido bom, já que você está novamente moído das costas e deprimido daquele jeito que você só fica, imagino eu, quando arruma um trabalho bem divertido pra fazer. E eu, nossa, não se aproveita metade, mas posso falar por horas ininterruptas e te levar a todos os extremos do universo com o que tenho a dizer. Mas a gente está cansado, tão cansado. E algo em nós, que se dá loucamente bem, escolheu assim. Não vamos jamais saber um do outro.
Agora eu sei que é a parte que você bate minha canela na curvinha do corredor. Agora eu sei que é a parte que você treme um pouco os dedos para acertar a agulha no disco que eu nunca ouvi na vida. Agora eu sei que é a parte que a gente se beija com tanto ódio do resto do mundo e com uma cumplicidade bonita de não estar tentando nada. Não estamos tentando absolutamente nada. E por isso mesmo, vem devagar. Agora eu sei que é a parte que você se desnuda como uma "striper", tão rápido e simples. E eu dou um pouco mais de trabalho. Mas não falamos disso e nem de nada. Eu não sei o que você fez hoje ou ontem e nem imagino o que fará amanhã. Como é bom não ouvirmos minha voz, eu tenho tanto bode de mim. Como é bom não ser eu e muito menos ser você. Seu cachorro está tão tranquilo que pode durar mil anos. Eu não sou nada e por isso mesmo entendo que ele está bem assim.
Agora é a hora, a única que falamos. Você diz que gosta da dancinha. Eu digo que não sei do que você está falando. E esse é o limite da gente. Chegamos até aí pro mundo. Mas vamos muito mais longe em algum outro universo que não sabemos e nem queremos saber.

Muito e porra nenhuma

Eu gosto de como você se empresta para a minha vontade de sentir de novo. Saio da sua casa feliz porque estava frio e roubei uma blusa com duas respingadas velhas e já lavadas de óleo.
Eu gosto da sua barriga porque você consegue a santíssima trindade da barriga perfeita: velho, intelectual, sarado. Você tem aquela pele já meio descolada dos ossos e isso me enlouquece. É o vão de quem viveu mais. É o labirinto onde eu fico quando você acha que eu não estou ali. Entre seus ossos e músculos.
Você é um preguiçoso, espalhado tão elegantemente com as cuecas largas, em seu sofá com almofadas de mocinha. Absurdamente animado com milhões de coisas maravilhosas que você lê ou escuta pela metade, querendo saber tudo ao mesmo tempo pra esquecer mais rápido e de uma vez. Querendo não saciar das coisas, pra caber mais do resto todo que nunca chega. Você tem a noção mais bonita de insuficiência e exagero que já vi. Você tem o desapego pós empolgação menos levado a sério que já vi. Mas isso tudo é escondido pelos seus olhos de desligamento. É quase desinteressante o seu funcionamento, não fosse tão digno de me emprestar um pouco de umidade pra secura que trago da rua.
Você tem todos os gominhos no lugar como se fosse um garoto de academia. Isso me faz rir embaixo do edredom, olhando a tirinha suicida do meu sutiã que se jogou solitária e antes da hora. Você fez a escolha da vida dos homens desgastados e pra dentro, mas é como se os deuses te mandassem, ainda assim, doses diárias de uma beleza que me surpreende a cada vez que tento te transformar em qualquer coisa da minha tarde. Não precisa pente, banho, esteira, sol, peso, gilete. Você acorda naturalmente com a beleza que eu só tenho, ao acordar, se acordar duas horas antes.
Eu gosto de você porque são tantos milhões de coisas que você sabe, mas você fritou e não diz nada. Você sabe tanto que tem preguiça. Eu percebi que minha ansiedade é a típica da garota boba que leu nove livros, sabe de sete músicas, viu quatro filmes, conhece dois lugares e acha que ainda ama um homem. Quem sabe mesmo, nem começa a dizer. É tanto que dá preguiça. Seria uma vida a dizer mas você já esqueceu ou dormiu no meio. Você precisa sim da sua biblioteca que dá cinco voltas no teto pra ser amado. Mas precisar disso te enche da vontade deliciosa de deixar o que a gente precisa pra lá.
Você faz com você o que faz com todos os livros. Para na metade. Assim sobra tempo de assassinar minha roupa e depois dormir enquanto eu conto os pedaços pela casa. Meus e das minhas histórias.
Então eu gosto de você, de novo, porque não falamos nada. Você porque dormiu de novo ou quer demais. Eu porque quero de novo ou dormi demais. Você porque sabe muito. Eu porque não sei porra nenhuma.
E o portão enorme de vidro se fecha com você meio curvado, malditas costas. Faz minha vigília até o carro como um pai e isso me dá vontade de voltar. Parece errado, mas pra mim, pros defeitos que me formaram e por isso mesmo é só o que posso sentir quando sinto sem script, sinto que as plantas estão onde deveriam. E meu carro, e tudo. Se encaixa. Eu sou o senhor cabeça de batata esperando seu bigode encaixar em mim pelas mãos das crianças que nunca deixam de brincar com os velhos brinquedos de verdade. De novo, levando a pureza bem a sério pra pelo menos existir um pouquinho em meio a tudo isso. E eu, você não sabe como te agradeço, vou escutar música alta no carro e nem reparar que o sinal abriu.

Mulherzinha

Ligo antes das cinco pra não parecer que ele é a última opção da minha agenda. Dou três opções de restaurante e ele escolhe logo a primeira. Combino de passar umas oito e meia, mando uma mensagem quando estiver na esquina. Aviso que vou atrasar dez minutos. Embico na garagem pra ele não tomar chuva. Pergunto se o ar condicionado está muito forte. Dirijo com uma mão no volante e outra na perna dele. Elogio que ele aparou um pouco a barba, coisa que ele adora pois fui a única a reparar. O manobrista do restaurante abre primeiro a porta dele. Se assusta que é um homem onde eu deveria estar sentada. Entrega o papel do estacionamento pra mim, contrariado, enquanto meu parceiro já está bem distante. Escolho fumante pra agradá-lo mas por sorte sou informada que essas mesas não existem mais. Digo a ele que tudo bem, podemos ficar no frio, na parte de fora. Ele diz que ELE não está a fim de sentir frio e topa não fumar. Eu chamo o garçom e digo que para mim carne e para ele salmão. Eu escolho a taça de vinho dele, eu não vou beber porque estou dirigindo. Eu pego na mão dele, depois da taça estar quase no final, e pergunto se ele não quer ver a linda vista da minha sacada. Ele sufoca um bocejo charmoso e diz que sim. O garçom entrega a conta pra ele, que aperta os olhos pra enxergar com a lente embaçada. Eu ofereço ajuda pra ver os números e numa agilidade impressionante enfio meu cartão ali dentro e faço a carteira de couro desaparecer da mesa. Incluindo o ticket do estacionamento. Ele está com frio e ofereço meu cachecol novo. Ele elogia o perfume e continua com frio. Entendo que são duas aberturas para o abraço. O carro chega e a porta dele já está aberta pelo manobrista, a minha eu mesmo abro com dificuldade porque os carros tiram a maior fina do meu corpinho congelado. Morro de vergonha que o carro está com cheiro ruim, pra variar, o manobrista sacaneou. Abro os vidros e não digo nada pra não ser rude. Coloco música baixinha pra gente falar baixinho. Paro na farmácia pra comprar camisinha mas dou a desculpa que é um antigripal qualquer. Ele faz que acredita e espera dentro do carro comportadinho e sorrindo. O cara do caixa quer me lançar um olhar mas na hora tem medo de me encarar. Acendo as velas novas que ganhei. Coloco minha estrela azul na tomada que dá o clima perfeito. O cd novo do Beck. Ele está nervoso, comentando sem parar das minhas fotos e livros e cortinas. Eu faço ele parar de falar finalmente. Depois de tudo, ofereço levá-lo e me faço de ofendida quando ele cogita um taxi. Ele pergunta se pode dormir comigo, eu apenas sorrio e apago a luz. Ele acende a luz e pergunta se pode ligar pra avisar uma pessoa. Ele liga pra mãe, que não gosta muito. Ele volta envergonhado pra cama. Mas eu, educada, finjo que já estou dormindo. No dia seguinte eu ligo pra dar bom dia. Ele me avisa que vai viajar no feriado. Eu pergunto com quem e ele diz que aí já estou querendo saber demais. Ele volta a ser homem. Eu desligo e, aliviada, choro como uma mulherzinha.

O excesso da falta

Foco no lugar vazio da mesa. A pessoa que não veio. Pior ainda: a que não existe. É ali que fico, sempre, apaixonada, doendo, esperando. O lugar vazio da mesa, da cama, do planeta. Minha sorte é um bilhete desses de raspar só que o segredo não sai com nada. Meu amor é a cadeira com pé quebrado que tiraram do salão antes que alguém se machucasse. Então me recuso a sentar em outras e vivo entre o cansaço e o medo de cair de mim mesma.
Eu funciono assim, não sei se você já percebeu. Consigo não te amar, e isso significa passar ótimos dias em paz, quando te trato bem, quando te amo. O que sobra em mim, o que eu guardo no peito, é sempre o negativo do que expeli para o mundo. Por isso o e-mail, carinhoso, um jeito de te expulsar mais uma vez, porque é só isso que sei fazer quando o assunto é sentir além de mim. E quando te trato mal, são dias te amando aqui, nos espaços vazios que você jamais preencheria e que são absolutamente você. O mundo todo que não tem você é ainda mais você. E assim me relaciono. Com o risco de giz branco em torno do corpo que já foi levado do chão. Sempre me apaixono depois que acaba a paixão. Sempre namoro quando acaba o namoro. Só assim sei amar. E então te carrego no peito e em tudo, ao ir sozinha ou mal acompanhada ao cinema. E então janto com você e como bem e até bebo. E passamos sem perceber uma vida inteira. Só porque agora você se foi, é que sinto que você chegou de verdade. E assim namoramos tão bem e sou tão agradável. E é com você que vou até a esquina e o fim do mundo, porque posso tudo agora. Agora que não posso nada.
Daqui vejo milhares de pessoas e boas intenções e motivos pra ser feliz. Mas onde eu estou? Adivinhe? Estou em casa, sozinha, como se não houvesse nada. Como se tudo isso fosse cruel justamente por ser bom. O bom acaba. Mas isso aqui, o refúgio da ansiedade e da alegria, essas duas coisas do demônio, isso aqui é verdadeiro e é daqui que estou, na verdade, no meio de todas essas pessoas boas e os motivos pra ser feliz. É só daqui. Então, quero ir embora. Ir embora pra chegar logo. Porque enquanto estou é insuportável, mas depois, quieta, deitada, o mundo inteiro se encaixa aos poucos até eu pegar no sono e sentir a matéria de estar viva. Não evaporo mais pois estou me apertando até ficar quieta nessa caixinha minúscula que trago tão bem guardada apesar do desespero em ser aberta.
É sempre na falta que vivo. É sempre em cima da altura que não tenho que olho o mundo. E das coisas que eu não sei que falo melhor. E dos sentimentos que eu não poderia sentir que me abasteço pra ser alguma coisa além do que me faz mais uma. E da incapacidade de ser mais uma que me agarro, pra poder participar de algo e esquecer como é maluco tudo isso. É na alegria extremada que sinto o tamanho do sofrimento que posso aturar.
É a loucura que sai antes quando preciso rapidamente ser normal. É porrada que dou quando a mão vai rápida para um carinho urgente. É de onde não se pode estar que tenho saudades. É para o lugar do qual fugi que vou quando corro. É no lugar insuportável que fico quando descanso de algo que não aguentei. É na falta que vivo. O tempo todo sendo a mulher pra você que nem você quer. O tempo todo sendo a mulher que você não vê mais e só por isso, agora, te vejo o tempo todo. É te amando tão infinitamente que me liberto de gostar pelo menos um pouco de você.
Quando preciso de açúcar sinto ânsia só de ver doce. E na hora de ir embora, ganho o viço e a frescura de algo novo. Não lido bem com a fome, pois ela me sacia, me enche, de algo que me faz além do bicho. É do meu auge que caio feio. Na paz de fechar um arquivo que volto a pensar na página em branco e em tudo que não sou capaz. No fundo do gostosinho da alma mora o que dispara meu incômodo mais terrível. Quando tento ser homem, meu Deus, sou mais garota do que aquelas colegiais cheirando a floral com bola de basquete.
Você reclamava que eu não dizia seu nome e isso era só porque eu o estava dizendo o tempo todo. Meu cérebro martelava o som das suas referências e imprimia tanto você que eu precisava falar de mim daquele jeito pra tentar existir além do que eu me tornava. Você era tudo quando reclamava que eu andava estranha ao telefone, sem dar importância. Quando eu não parecia te ouvir, eu estava ouvindo suas milhares de vozes e tentando dar conta de gostar de tanta gente diferente que era gostar de você. Mas agora, assim, dizendo João, eu consigo continuar. Mas não uso a palavra anular porque seria dar rabisco aberto para as asas que não quero desenhar.
O tempo todo o abismo gigantesco quanto mais desço. O tempo todo a calma mais incrível nos momentos de real desespero. E o pânico do que é simples de resolver. E se não tem ninguém pra chegar é aí que verdadeiramente espero. E se não tem ninguém pra me tocar, sinto tesão em encostar no ar. Você não está e me olha como nunca. Você merecia ser amado assim, do jeito que acaba pra começar. Uma covardia só pra quem aguenta firme. Sempre no oco me preencho tanto que explodo. É no nada que está tudo aqui. E quando me perguntam de onde vem essa pressa, esse desespero, essa corrida, o sopro no coração, essa ânsia, a força, essa agressividade. De onde vem? Eu digo que vem de uma preguiça enorme. E tantas artimanhas e rezas bravas para permanecer? É só o mais completo desejo em acabar logo com tudo isso. Que tanto eu quero porque estou sempre pedindo socorro? Nada. E principalmente: nunca. E morrer de novo como faço todas as vezes que me sinto viva demais. E vai começar tudo de novo só porque acabou. Ponto final é tanta continuação que vira três pontos finais. Eu não aguento mais e nem toquei na vida ainda. Consigo ser vista de verdade só quando as pernas e todo o resto que me move imploram para eu desaparecer.

Bicho Grilo

Começou quando vi um filme dele há uns seis anos. Ele falava de mansinho e vesguinho no ouvido da mulher. E na cena 38 transava com ela. As costas dele me deixaram sabendo que um dia aquilo aconteceria comigo. Ele tem a coisa mais sexy que um homem pode ter que é aquela canaleta definida dividindo lado direito e lado esquerdo das costas. Cismei com o homem. Assim como cismei certa vez com um roqueiro francês que tocava gaita ininterruptamente durante um show de três horas e só sosseguei quando ele saiu da minha casa com o maxilar quase paralisado e a língua do tamanho do seu amor pelo Sergie Gainsbourg. Ah, quando eu quero, tem jeito não.
Depois daquilo, quando ele já tinha sido eleito o homem do ano no festival de cinema do Rio, o encontrei no Bar Balcão. Ele pra variar nem olhou na minha cara. E nem poderia, considerando que não fazia a mais puta ideia de quem era a minha pessoa. Mas uma amiga em comum era sua amiga de infância, e ofereceu carona na hora de ir embora. Eu prontamente me ofereci pra ir junto. Mas você não tá de carro, Tati? Não, roubaram. Acabaram de roubar. E fui junto. Sem conseguir dizer uma única frase que se salvasse no carro. Eu automaticamente me tornei burra, fútil e com voz e interjeições de uma gralha desesperada. Ainda assim, quando chegou na porta da casa dele, ele se despediu de mim e apertou tanto a minha cintura que eu achei que ia cuspir minha pedra no rim pela orelha. E fiquei semanas com aquela dor. Amando aquele homem rude e vesgo como amei poucas coisas na vida. Ou muitas, pra falar a verdade.
E então ele sumiu no mundo e eu amei outros tantos rapazes por aí. Até que ele voltou a aparecer e começou a aparecer em todos os lugares. Ele frequenta absolutamente todos os mesmos lugares que eu. Vou tomar chá da tarde com o Sidão maluco no Paris, lá está ele tomando vinho de cachecol na mesinha ao lado. Sozinho. Sempre sozinho, quando sozinho, de um jeito que poderíamos estar todos num filme pseudo cabeçudo bom de ver quando se quer sentir inteligente mas não muito. E nem por isso pedante, arrogante ou fazendo tipo. Ou sim, fazendo tudo isso. Mas ele tem a canaleta nas costas e apertou minha cintura daquele jeito de ver estrelas. Então, eu decidi que ele é o máximo.
Vou comer croissant no Deli da Vila e lá está ele. Lendo o jornal. Sempre sem olhar na minha cara. Sempre. E ele bate cartão no cinema da Gazeta. Sempre acompanhado daquele povo meio igual e completamente diferente. O povo de teatro. E sempre fazendo rir meninas monstruosas. E super camarada de caras com muita cara de loser. E pra mim, nadinha. Eu me acabo de olhar, fica até chato. Já me acabei de olhar pra ele estando ele, ou eu mesma, acompanhado. Porque é mais forte do que eu. É o homem da canaleta com a apertada de cintura mais alucinante do sistema solar. E nada. Ele simplesmente não me vê. E isso. Ah, e isso me deixa mais a fim ainda desse sujeito. Como eu curto um ser desgraçado que caga pra mim. Que faz rir mulheres medonhas e ignora a existência daquela mocinha tão cheirosa e dadivosa. Com capacidade e intenção de tratá-lo como um rei espanhol e suas mil súditas. E eu fazendo o papel de mil. Sem cansar jamais. Ou cansando assim que ele me olhar.
Aí fiquei amiga da irmã do camarada. Adivinhem como a vida é boa! A irmã do cara deu de ler umas coisas minhas e gostar. E então, eu resolvi falar pra ela que minha missão nessa terra é deslizar meus dedinhos minúsculos e não refilados naquelas costas com a canaleta. E me deixar apertar na cintura por aquelas mãos. Nossa. Só de falar. Pois é.
E a irmã, tão gente boa, me ensinou o caminho das pedras. Ele curte bicho grilo, Tati. Que é isso, cunhada? Ele curte esse povo bicho grilo, sabe? Sei. Sem saber. Mas resolvi me tornar um. Tudo por ele. Tudo. Absolutamente tudo. Tirando cheirar ou engolir, duas das coisas que eu jamais farei em vida, tudo por esse homem. E olha que são tantas outras milhares de coisas terríveis que não incluí na lista das negações. Tais como comer balas com anilina, ir a um motel com promoção de camarões na moranga ou viajar pra Maresias em feriado prolongado.
E foi então que fui ver o monólogo do cara na Virada Cultural. Enfrentei filas e multidões com a coragem e a sabedoria do amor. Ou melhor dizendo, com o comando mais forte da vida de uma fêmea que é a voz da estupidez que vem de baixo. Lutei bravamente contra meu terrível pânico de lugares cheios e com casaizinhos feios dividindo berebas e cheiro de Bozzano e lutei, sobretudo, contra o meu maior e mais absoluto pavor: ser vista por algum amigo publicitário numa fila do SESC vestida tal qual a noiva cadáver do Chuck depois do curso de sociologia na USP (não, eu não me humilhei ao ponto de usar meia Hering com papete chulezenta). Se aquilo não era ser bicho grilo, eu estava, no mínimo, apta a modernizar o real conceito do ser bicho grilo.
Me sentei na primeira fileira. Eu e minha meia arrastão com All Star sujo. Abri minha jaqueta verde guerra pra deixar a camiseta vermelha luta de classes mostrar meu decote vem aqui que vou te mostrar minha virada cultural. E assim pensei estar super dentro das expectativas bizarras do homem que havia se tornado minha mais recente e intensa obsessão sexual da vida inteira.
E ele começou a peça. E fazia o papel de um gay psicopata. Mas vamos em frente. Foco na canaleta e na pegada de cintura que perfura rins. E então. No final da peça. Ele falou sobre o ódio de amar. Como amar dá raiva. E de como ele queria que seu amado morresse. Morresse. Morresse. E foi falando e as luzes apagando. E ele gritava tanto. E nossa. Eu bati palmas pra ele com todos os membros do meu corpo físico. E foi então que eu resolvi que iria atrás desse ser humano até o inferno. E foi o que eu fiz, quando soube que ele jantava quase sempre na Mercearia da Rodézia. O bar dos wanna be Jonh Fante. E olha que eu amo o John Fante. E olha que eu sou uma wanna be John Fante. Mas cara, não consigo. Eu simplesmente não consigo ver aquele povo atormentado escrevendo em guardanapo e fazendo cara de tuberculoso beatnik. Meu filho, quem escreve, escreve. Não monta circo de escritor no meio da praça pública pra falar que escreve. E sim, dá pra escrever e ganhar uns trocos também. Apego a pobreza saiu de moda faz tempo. Ainda mais agora que até banqueiro já tá conseguindo ficar pobre. Não é mais difícil pra ninguém. Entende? Enfim, mas fui até lá.
E então. E então. Ele me viu. Ele estava em pé, esperando uma mesa. Ao lado de uma garota que parecia aquela gorda de cabelo ruim do comercial de cola pra dentadura que diz “agora eu já posso comer carne!”. E ele me viu. E eu fui chegando perto. É agora, Tati! É agora! E fui chegando perto. E ele sorrindo. Pra mim. Com seus olhos vesguinhos. E eu fui chegando perto. Mas o que eu vou dizer quando estiver bem perto? Que quero transar com ele até os olhos dele, tão espremidos e centralizados, pularem vivos pra fora? O que eu quero dizer a ele? Que adorei a peça? E que dediquei meus últimos meses a sonhar com esse momento só porque o vi pelado num filme e me apaixonei pela sua canaleta? E fui chegando perto. Mas o que dizer? Dizer que não tenho nexo mas tenho umas coisas que ficam lindas à meia luz? E então. E então. O filho da puta do garçom chamou meu amado. A mesa estava pronta. Ele sorriu novamente, como que se despedindo daquela maluca mal vestida que andava em sua direção, e virou de costas pra mim. Sim, elas, as malditas costas as quais homenageio semanalmente embaixo de meu edredom. Malditas. E foi se sentar com a colega Corega. Ignorando com todo o esplendor de sua bem dividida coluna vertebral a minha arrasada existência.
E eu. E eu? Bom, mais tarde devo dar um pulo no Reserva Cultural. Ou no Deli Paris. Ou no bar Balcão. Ou mesmo no SESC. Se não for hoje, um dia será. Algumas coisas, por mais impossíveis e malucas que pareçam, a gente sabe, bem no fundo, foram feitas pra um dia dar errado.