Do outro lado da rua, mais moreno do que eu lembrava, vinha ele, o garoto mais bonito de alguma festa de meses atrás. Eu estava feia de doer, com uma sapatilha da vovó e o cabelo parecendo um calzone de vento. Quis me enfiar dentro da bolsa mas depois achei que não era nada demais, era o de sempre.
Eu já tinha resolvido comigo, nos poucos e breves dias em que levemente me preocupei com isso, que ele não havia me ligado pelo mesmo motivo que levaram todos os homens que não me ligaram a não me ligar: com tanta mulher no mundo, pra que repetir a mesma? Melhor: com tanta mulher maravilhosa no mundo, pra que repetir a mesma bonitinha?
Ivan, Itan, Ilan, Ivo, Ismar, Igor? Eu não lembrava o nome do rapaz, mas lembrava que começava com “I” porque quando fui até o armário do meu banheiro e vi que não tinha mais camisinha, falei “iiiiiiiiii” e ele apareceu prontamente, achando que se tratava de um chamado íntimo.
“I” me viu e travou. Sua morenice além do que eu lembrava se fez mais branca do que eu jamais poderia imaginar. Nervoso. Começou a estraçalhar com as unhas o saquinho branco que levava na mão esquerda. Eu ia dar coisa de dois beijinhos e um tapinha no omoplata, despretensiosa e de saída, quando percebi que o rapaz, ainda que livre e lindo de doer, tinha acabado de se retesar e atrapalhar todo pelo encontro inesperado com a minha pessoinha mal vestida e pior penteada.
Porque era sábado final da tarde, ia chover, eu estava sozinha de dar medo mas não estava com nenhum, acabei falando. Saiu sem querer ou melhor: querendo mais e além de mim. Porque eu tinha almoçado gostoso com uma amiga engraçadíssima e tinha livros novos me esperando em casa. Porque eu ia dormir tarde, depois de esgotar minha nova luminária de tanto saber coisas boas. Porque, enfim, eu usava meias e grampos e estava completa demais e forte demais pra ter medo de coisa comum a todos, eu acabei perguntando.
Por que você não ligou ,“I”?
Me preparei pro velho e bom ando ocupado, ando estranho, ando esquisito, ando deprê, não ando porque me atropelaram. Mas “I” só olhou para um resto de chiclete estorricado na calçada e suspirou gorda e peludamente.
Porque você disse que eu andava como alguém que esconde que já foi gordo, ria como alguém que precisa ser aceito apesar de ter nascido muito pobre, dava linguadas no ar como um sapo querendo pescar pequenos insights para impressionar mocinhas, espremia os olhos como um míope que não aceita as próprias limitações, estalava os dedos como quem tinha perdido a hora do soco, pegava como um homem que perdia perdão por ser homem, dirigia como um ejaculador precoce, mudava as estações do rádio como um infeliz que tenta até o fim, penteava o cabelo para trás como um estilista histérico, falava devagar como um estudante fritado de tanta maconha, enfiava a mão em você como um inexperiente que odeia a ex namorada, beijava como alguém que queria dormir de tédio assim que conseguisse qualquer coisa, lambia como um peão mal educado e morrendo de calor, gemia como alguém que tenta expulsar algo dos pelos do nariz, dormia como um bebê com tromba de elefante e fazia xixi como um elefante com tromba de bebê.
“I” se foi e me deixou por alguns segundos encarando o mesmo estorricado chiclete velho da calçada. Naquele momento eu aprendi três coisas para o resto da minha vida: eu era bonita, eu era insuportável e eu era uma escritora.
O mais maluco é que fiquei feliz e vitoriosa como se tivesse acabado de ganhar uma aliança de amor eterno, seja lá o que isso quer dizer.
Blog feito para compartilhar todos os textos da escritora Tati Bernardi, que excluira alguns de seu site. Todos os textos postados aqui são de autoria dela, então, por favor, se for colar em algum lugar, dê seus devidos créditos. Não estou aqui para plagiar ninguém.
sábado, 2 de outubro de 2010
A pena sem nome
É entre a curiosidade da minha tristeza e a vontade de ligar para alguém esquecido. Um misto de arrogância primitiva com medo de começar a chorar e não parar nunca mais. Foi quase isso que senti ao vê-lo entrar no café. Não sei exatamente porque quando trata-se de feijoada como só porque é o que me colocam na frente mas não dou conta do prato inteiro.
É um homem gordo vestindo os resto de dois trajes sociais, um antigo dele próprio (sei porque é apertado e marrom) e um mais novo, emprestado, num tom de cinza azulado que aquele homem jamais compraria. Ele odeia habitar seu corpo e odeia habitar sua vida, mas fala decoradinho como um telemarketing que precisa bater metas e mofadamente doce como um pum de bis que fica guardado numa sala fechada por dias.
Em suas mãos, o homem lustrado na testa e descaradamente suado na barriga traz um cestinho rendado com trufas preparadas, imagino eu, pela sua mulher (ou mãe ou irmã, talvez ajudadas pela sua filha) que ao menos está fazendo alguma coisa enquanto ele não arruma nada melhor. Ele que pelo menos se encarregue de vender as tais das coisas. E ele se encarrega, com uma humildade e uma falta de força que, por combinarem tão pouco com sua massa, o atrofia. Ele se esforça tanto pra não ter forças. Ele quer vender descontração mas polui o ar com a dor de uma gordura enjaulada. Nem precisa falar que aquele cestinho é quase o oposto de tudo o que aquele homem poderia ser se ele não estivesse ao menos fazendo alguma coisa.
E então eu sinto e é assim mesmo porque lembro de repente que posso sentir assim. É como se uma onda rasteirinha e quente e quase não onda me passasse uma rasteira só porque eu prefiro cair do que ficar em pé olhando a deformidade de alguém que me esmaga porque não pode nada contra mim. E nem contra a sua mulher e nem contra as trufas e nem contra a vontade de morrer que “fazer pelo menos alguma coisa” dá. O dizer que “nem alguma coisa se quer fazer”, seria renegar sua condição de homem, ele pensa, apesar de sentir que sua condição de humano poderia então ter algum resgate.
Essas tem gotas de chocolate amargo, essas são com menta, essas tem doce de leite, essas e essas e essas. A tentativa de cheiro de cozinha feliz, na casa desse homem, deve azedar todo o bairro, a cidade. Comer aquelas trufas é colaborar com alguma forma de escravidão ou terrorismo ou câncer minimalista que corrói até o fim da vida. E pior: não mata nunca mais.
De tudo, o que mais me destrói, é que esse homem guardou sua fúria em um país muito distante daquele café. Sua última esperança em destroçar como um animal aquele cestinho e aqueles doces ficou perdida em algum aniversário de sua filha, a mesma que ajuda nos doces e que, mesmo com uma lagriminha querendo pular do olho direito, entendeu, acariciando algum urso barato e abobado, que o jogo que simula alegria ficaria pra próxima data. Algo assim.
É por ser pai, não sei. É por ter mais anos e mais pesos do que o permitido para alguém amado apenas por ser, não sei. É por ser feio e suar demais, talvez. É pelo terno também. É também por ele que jamais conseguiu o jogo que simula alegrias e continua acariciando algum urso vagabundo e abobado mas que, pelo menos, não sei. Pelo menos estamos todos fazendo alguma coisa.
É um homem gordo vestindo os resto de dois trajes sociais, um antigo dele próprio (sei porque é apertado e marrom) e um mais novo, emprestado, num tom de cinza azulado que aquele homem jamais compraria. Ele odeia habitar seu corpo e odeia habitar sua vida, mas fala decoradinho como um telemarketing que precisa bater metas e mofadamente doce como um pum de bis que fica guardado numa sala fechada por dias.
Em suas mãos, o homem lustrado na testa e descaradamente suado na barriga traz um cestinho rendado com trufas preparadas, imagino eu, pela sua mulher (ou mãe ou irmã, talvez ajudadas pela sua filha) que ao menos está fazendo alguma coisa enquanto ele não arruma nada melhor. Ele que pelo menos se encarregue de vender as tais das coisas. E ele se encarrega, com uma humildade e uma falta de força que, por combinarem tão pouco com sua massa, o atrofia. Ele se esforça tanto pra não ter forças. Ele quer vender descontração mas polui o ar com a dor de uma gordura enjaulada. Nem precisa falar que aquele cestinho é quase o oposto de tudo o que aquele homem poderia ser se ele não estivesse ao menos fazendo alguma coisa.
E então eu sinto e é assim mesmo porque lembro de repente que posso sentir assim. É como se uma onda rasteirinha e quente e quase não onda me passasse uma rasteira só porque eu prefiro cair do que ficar em pé olhando a deformidade de alguém que me esmaga porque não pode nada contra mim. E nem contra a sua mulher e nem contra as trufas e nem contra a vontade de morrer que “fazer pelo menos alguma coisa” dá. O dizer que “nem alguma coisa se quer fazer”, seria renegar sua condição de homem, ele pensa, apesar de sentir que sua condição de humano poderia então ter algum resgate.
Essas tem gotas de chocolate amargo, essas são com menta, essas tem doce de leite, essas e essas e essas. A tentativa de cheiro de cozinha feliz, na casa desse homem, deve azedar todo o bairro, a cidade. Comer aquelas trufas é colaborar com alguma forma de escravidão ou terrorismo ou câncer minimalista que corrói até o fim da vida. E pior: não mata nunca mais.
De tudo, o que mais me destrói, é que esse homem guardou sua fúria em um país muito distante daquele café. Sua última esperança em destroçar como um animal aquele cestinho e aqueles doces ficou perdida em algum aniversário de sua filha, a mesma que ajuda nos doces e que, mesmo com uma lagriminha querendo pular do olho direito, entendeu, acariciando algum urso barato e abobado, que o jogo que simula alegria ficaria pra próxima data. Algo assim.
É por ser pai, não sei. É por ter mais anos e mais pesos do que o permitido para alguém amado apenas por ser, não sei. É por ser feio e suar demais, talvez. É pelo terno também. É também por ele que jamais conseguiu o jogo que simula alegrias e continua acariciando algum urso vagabundo e abobado mas que, pelo menos, não sei. Pelo menos estamos todos fazendo alguma coisa.
O novo feliz
Ontem, voltando pra casa cedo porque não tenho mais saco nem pra balada, nem pra papinho de balada, nem pra cigarro, muito menos pra garotinhas que dançam na pista olhando a bunda no espelho e garotos que perguntam “ah, você escreve? Mas trabalha com o quê?”, tive o insight do ano: a pessoa mais chata do mundo é a pessoa “nova feliz”.
Sabe o cara que foi pobre e brega a vida inteira e de repente começa a ganhar grana? Que ele faz? Pagode, churrasco, barulho, compra carro vermelho importado e escurece os vidros, vai pra Paris e faz aquela foto super criativa segurando uma miniatura da Torre Eiffel (mas é a Torre mesmo, num magnífico efeito de ilusão de ótica ), enche a cara na balada e trata o garçom como alguém de uma casta muito distante e inferior, bota sunga branca e faz pose de ladinho em coqueiro torto. Todo mundo sabe e reclama “novo rico é uma merda”.
Mas nada é pior do que o novo feliz, o cara que foi triste a vida inteira e de repente começa a ficar feliz.
O novo feliz, assim como o novo rico, quer que todo mundo veja que agora ele está podendo. A única diferença é que o novo rico chega de Audi e o novo feliz chega acompanhado de seu belo, novo e caro sorriso. Coisa pra poucos.
O novo feliz é o famoso puxa pista. É o cara que não foi feliz aos vinte anos, época que era engraçadinho chamar os outros pra “bombar com aquela música”. O problema é que o novo feliz só conseguiu grana pro psiquiatra e pro Prozac aos trinta. Época em que todos os seus amigos já não querem mais saber de se acabar nas baladas. Mas ele super anima a galera “cara, vamo aê, meu! Cê tá muito velho! Desarma esse corpo!”.
O novo feliz, assim como o novo rico, ainda não sabe lidar com sua nova situação. Por isso tanta alegria lhe sobe à cabeça: só fala na sua felicidade, mostra as gengivas além da conta, esbanja piadas. Sua boa disposição e humor chegam a ser arrogantes.
Ele não tem pressa, está apenas super envolvido com as coisas. Ele não tem ansiedade, está apenas muito empolgado com o mundo. Ele não corre porque está estressado, mas porque quer sentir a vida. Mais um pouco de fluoxetina e ele dá a bunda.
O novo feliz é o cara que te recrimina por estar puto porque o trânsito não anda. É o cara que recrimina seu olhar realista e um pouco cansado pras coisas do mundo que são como são. É o cara que sempre agüenta mais meia hora na noitada, afinal, todo mundo é velho, menos ele. O que ele não entende é que você não está exatamente velho, apenas está maduro em sua alegria, você não precisa mais pular na pista e encher a cara pra ser feliz, com um livrinho embaixo das cobertas (ou um amorzinho legal) você já consegue essa proeza.
O novo feliz, seja porque começou a tomar remédios, seja porque fez imersão em Freud em algum encontro da firma em Hotel Fazenda “liderando com liderança”, seja porque ficou magro ou seja porque é o mais novo seguidor do The Secret, é o dono da razão, das festas, da sapiência e do verdadeiro significado da vida. Coisa que a gente achava que era com quatorze anos e era bonitinho. O novo feliz adquire instantaneamente um cérebro de treze anos.
O novo feliz é cheio de amigos novos felizes (e um ou outro eterno feliz que se comporta eternamente como se isso fosse uma novidade). Juntos, essa galera tão novata na alegria ocupa seu tempo organizando muito sexo, muitas festas, muitas viagens e muita qualquer outra coisa que tenha gente insegura dando soquinhos no ar.
A verdade é que o novo feliz é a coisa mais deprê do mundo.
Sabe o cara que foi pobre e brega a vida inteira e de repente começa a ganhar grana? Que ele faz? Pagode, churrasco, barulho, compra carro vermelho importado e escurece os vidros, vai pra Paris e faz aquela foto super criativa segurando uma miniatura da Torre Eiffel (mas é a Torre mesmo, num magnífico efeito de ilusão de ótica ), enche a cara na balada e trata o garçom como alguém de uma casta muito distante e inferior, bota sunga branca e faz pose de ladinho em coqueiro torto. Todo mundo sabe e reclama “novo rico é uma merda”.
Mas nada é pior do que o novo feliz, o cara que foi triste a vida inteira e de repente começa a ficar feliz.
O novo feliz, assim como o novo rico, quer que todo mundo veja que agora ele está podendo. A única diferença é que o novo rico chega de Audi e o novo feliz chega acompanhado de seu belo, novo e caro sorriso. Coisa pra poucos.
O novo feliz é o famoso puxa pista. É o cara que não foi feliz aos vinte anos, época que era engraçadinho chamar os outros pra “bombar com aquela música”. O problema é que o novo feliz só conseguiu grana pro psiquiatra e pro Prozac aos trinta. Época em que todos os seus amigos já não querem mais saber de se acabar nas baladas. Mas ele super anima a galera “cara, vamo aê, meu! Cê tá muito velho! Desarma esse corpo!”.
O novo feliz, assim como o novo rico, ainda não sabe lidar com sua nova situação. Por isso tanta alegria lhe sobe à cabeça: só fala na sua felicidade, mostra as gengivas além da conta, esbanja piadas. Sua boa disposição e humor chegam a ser arrogantes.
Ele não tem pressa, está apenas super envolvido com as coisas. Ele não tem ansiedade, está apenas muito empolgado com o mundo. Ele não corre porque está estressado, mas porque quer sentir a vida. Mais um pouco de fluoxetina e ele dá a bunda.
O novo feliz é o cara que te recrimina por estar puto porque o trânsito não anda. É o cara que recrimina seu olhar realista e um pouco cansado pras coisas do mundo que são como são. É o cara que sempre agüenta mais meia hora na noitada, afinal, todo mundo é velho, menos ele. O que ele não entende é que você não está exatamente velho, apenas está maduro em sua alegria, você não precisa mais pular na pista e encher a cara pra ser feliz, com um livrinho embaixo das cobertas (ou um amorzinho legal) você já consegue essa proeza.
O novo feliz, seja porque começou a tomar remédios, seja porque fez imersão em Freud em algum encontro da firma em Hotel Fazenda “liderando com liderança”, seja porque ficou magro ou seja porque é o mais novo seguidor do The Secret, é o dono da razão, das festas, da sapiência e do verdadeiro significado da vida. Coisa que a gente achava que era com quatorze anos e era bonitinho. O novo feliz adquire instantaneamente um cérebro de treze anos.
O novo feliz é cheio de amigos novos felizes (e um ou outro eterno feliz que se comporta eternamente como se isso fosse uma novidade). Juntos, essa galera tão novata na alegria ocupa seu tempo organizando muito sexo, muitas festas, muitas viagens e muita qualquer outra coisa que tenha gente insegura dando soquinhos no ar.
A verdade é que o novo feliz é a coisa mais deprê do mundo.
Vai lá
A bordinha do pão, até pouco menos de dois centímetros pra dentro, não esquenta e dá pra pegar da torradeira com a mão mesmo. Daqui a pouco começam os ônibus e britadeiras e infinitos passos. Sempre logo que eu acordo eu penso que nunca mais vou acordar. Nunca mais. Mas a bordinha do pão, os ônibus, as britadeiras, os passinhos. Isso é só o começo, daqui a pouco também tem os passarinhos. Tem também um lance do teto começar a pesar em mim, como se até o estado de não ter estado nenhum fosse insuportável. Estômago não é lugar de se guardar vida, meu estômago explica pra mim já doendo de uma dor sempre nova, como se todo dia eu tomasse um pouquinho de susto por nascer. Eu fico sem saber qual seria a outra saída então. Ou entrada. É tudo a mesma coisa e sempre. E lá vem a anorexia de guardar qualquer que seja a sensação, até a de não ser nenhuma. Pulo logo e me chacoalho, uma tentativa de esvair de mim esse sebo de coisas que me incomodam e grudam em mim e cada vez mais e vou me derrubando pelo dia pra poder, mais tarde, sossegar de novo.
Meu quadrado de ar e silêncio. Pra fora desse quadradinho ainda escuro tem tudo aquilo que já vi ontem e ontem e ontem e ontem e não cheguei a conclusão nenhuma. Eu não vou acordar nunca mais. Vou ficar aqui, onde a pressão não cai, os sinais de procura não gemem, as pessoas não me convidam pra falar em cidades longe daqui, gente não inventa de gostar ou não de mim. Deitada não tem intenção, queda, dor no pescoço, conta bancária, gente que me olha como se já tivesse comido meu cu bêbado numa festa e guardasse esse meu segredo. É contra esse tipo de olhar de corujas escrotas que eu nunca faria nenhuma das coisas acima. Mas por alguma razão, é justamente por levar esses olhares a sério demais que sinto que perco parte do que poderia ser uma história filmada por anjos metidos a documentaristas de meninas quaisquer. Ninguém tem segredo nenhum a respeito de mim mas eu tenho tantos que acabei com tendinite de tanto por pra fora. Meu calo de vômito é no punho. Vomitar pelos dedos. O único jeito de não ter tanta vergonha de ser como sou, ainda que me perguntem “você não tem vergonha de escrever essas coisas?”. Vergonha eu teria de andar de quatro cagada no meio da Paulista. Vergonha eu teria de ser contada por alguém que jamais me contaria tão bem e com tanta verdade. É isso ou isso.
Vai. A bordinha do pão pra pegar com os dedos sem queimar. Depois tomar chá gelado no gargalo da garrafa sem saber se está certo fazer ou dizer assim. Depois os e-mails todos. Vai lá. O jornal. Saber um pouco de política só pra não fazer feio em jantares e ir a jantares só pra não fazer feio com amigos e ter amigos só pra não fazer feio com a vida. Mas no fundo, uma vontade imensa de não fazer porra nenhuma dessas. Mas vai, dura tão pouco e quando acabar, não gosto nem de imaginar a saudade que vou ter de mim. Porque no fundo, no fundo, isso que pode soar como tristeza é só uma constatação corajosa de que dói sentir tudo e inclusive (ou principalmente) a nós mesmos.
Logo cedo, ainda que seja meu horário estranho, vem ainda mais seco e cortante.
Daqui a pouco, nem bem o sol foi da planta à direita do meu sofá para a planta à esquerda, já estou vivinha até demais. As maldades e ironias e desconfianças e ódios tomaram seu lugar. Chegou o sargento que mora na minha pele, analisando com cara de cabeleireiro gay da Oscar Freire qualquer ser ou alimento que me seja oferecido. Comer é o símbolo de qualquer coisa que queira entrar dentro de mim e tenho horror a todas mas a maior ironia da vida é que morremos se não nos cedemos à boca aberta. Pra proteger o que somos precisamos não proteger o que somos. Agora diz se não tem alguém rindo da nossa cara? Mãe, traz uma sonda e enfia na minha jugular, não quero mais que esses dias sejam culpa minha.
O Sol já está quase na minha porta. Já endureci o suficiente pra dizer que tenho horror aos escravos de palavras bonitas e ideias chatas. Aquele povo que não sabe o que falar do próprio nariz e diz apenas algo cabeçudo tipo “ele é adunco”. Tá, já sei que você decorou o dicionário, agora me explica o que você acha da porra do seu nariz?
Já estou armada dos pés à cabeça e já posso sair às ruas com minha metralhadora e feiúra. Me arrumar bonita ou com pouca roupa também acontece, mas só eu sei depois a bronca que levo. Ser feia e enjaulada nos meus ferros me possibilita não ganhar nada com isso, até porque o que se ganha é pura tiração de onda com a nossa cara. Ah, a vida sorriu pra você? Ele te ama? Espere um pouquinho, querida. Tão te enganando. Até estar aqui, até ser você, tudo uma ilusão. Até desistir. Tudo ilusão. Os anjos documentaristas escreveram isso no seu roteiro mas daqui a pouco vem a merda toda porque filme sem dar tudo errado nem a Disney faz. Nem a Globo. Ainda que eles enganem a gente no final. Agora vai saber, se no nosso final, não acaba alguma coisa mesmo dando certo, tipo brinde do cosmos. Mas daí é o fim e você já está tão cansado que só uma cama já pode ser um final feliz. A morte é o final feliz.
Só dançar é de verdade, nem sei direito, mas sinto assim. Então me escondo em algum momento do dia e danço um pouco. Pra falar a verdade eu danço muito. Daí já é quase fim de tarde. Falta pouco. Eu nunca sei exatamente para o quê, mas me acalmo com a sensação. As sensações sempre sabem mais do que a gente pode saber. Talvez por isso elas sejam terríveis. Talvez por isso doam tanto meu estômago que se renega a acolher o impossível de digerir e classificar. Talvez por isso eu escreva. Talvez por isso eu não vá acordar nunca mais. Nunca mais. Até que eu descubro, quando o teto pesa e tudo aquilo, que o hoje só passa porque acordamos e assim se vai. Amanhã, amanhã. Pão e tudo. E passinhos e ônibus e passarinhos. Armaduras e belezas. E pensar que se você lê, meu amor, eu escrevo. E se você lê, meu amor, eu como. E se você lê, meu amor, eu continuo viva. É triste, mas se a gente pensar com carinho, é bem bonito.
Meu quadrado de ar e silêncio. Pra fora desse quadradinho ainda escuro tem tudo aquilo que já vi ontem e ontem e ontem e ontem e não cheguei a conclusão nenhuma. Eu não vou acordar nunca mais. Vou ficar aqui, onde a pressão não cai, os sinais de procura não gemem, as pessoas não me convidam pra falar em cidades longe daqui, gente não inventa de gostar ou não de mim. Deitada não tem intenção, queda, dor no pescoço, conta bancária, gente que me olha como se já tivesse comido meu cu bêbado numa festa e guardasse esse meu segredo. É contra esse tipo de olhar de corujas escrotas que eu nunca faria nenhuma das coisas acima. Mas por alguma razão, é justamente por levar esses olhares a sério demais que sinto que perco parte do que poderia ser uma história filmada por anjos metidos a documentaristas de meninas quaisquer. Ninguém tem segredo nenhum a respeito de mim mas eu tenho tantos que acabei com tendinite de tanto por pra fora. Meu calo de vômito é no punho. Vomitar pelos dedos. O único jeito de não ter tanta vergonha de ser como sou, ainda que me perguntem “você não tem vergonha de escrever essas coisas?”. Vergonha eu teria de andar de quatro cagada no meio da Paulista. Vergonha eu teria de ser contada por alguém que jamais me contaria tão bem e com tanta verdade. É isso ou isso.
Vai. A bordinha do pão pra pegar com os dedos sem queimar. Depois tomar chá gelado no gargalo da garrafa sem saber se está certo fazer ou dizer assim. Depois os e-mails todos. Vai lá. O jornal. Saber um pouco de política só pra não fazer feio em jantares e ir a jantares só pra não fazer feio com amigos e ter amigos só pra não fazer feio com a vida. Mas no fundo, uma vontade imensa de não fazer porra nenhuma dessas. Mas vai, dura tão pouco e quando acabar, não gosto nem de imaginar a saudade que vou ter de mim. Porque no fundo, no fundo, isso que pode soar como tristeza é só uma constatação corajosa de que dói sentir tudo e inclusive (ou principalmente) a nós mesmos.
Logo cedo, ainda que seja meu horário estranho, vem ainda mais seco e cortante.
Daqui a pouco, nem bem o sol foi da planta à direita do meu sofá para a planta à esquerda, já estou vivinha até demais. As maldades e ironias e desconfianças e ódios tomaram seu lugar. Chegou o sargento que mora na minha pele, analisando com cara de cabeleireiro gay da Oscar Freire qualquer ser ou alimento que me seja oferecido. Comer é o símbolo de qualquer coisa que queira entrar dentro de mim e tenho horror a todas mas a maior ironia da vida é que morremos se não nos cedemos à boca aberta. Pra proteger o que somos precisamos não proteger o que somos. Agora diz se não tem alguém rindo da nossa cara? Mãe, traz uma sonda e enfia na minha jugular, não quero mais que esses dias sejam culpa minha.
O Sol já está quase na minha porta. Já endureci o suficiente pra dizer que tenho horror aos escravos de palavras bonitas e ideias chatas. Aquele povo que não sabe o que falar do próprio nariz e diz apenas algo cabeçudo tipo “ele é adunco”. Tá, já sei que você decorou o dicionário, agora me explica o que você acha da porra do seu nariz?
Já estou armada dos pés à cabeça e já posso sair às ruas com minha metralhadora e feiúra. Me arrumar bonita ou com pouca roupa também acontece, mas só eu sei depois a bronca que levo. Ser feia e enjaulada nos meus ferros me possibilita não ganhar nada com isso, até porque o que se ganha é pura tiração de onda com a nossa cara. Ah, a vida sorriu pra você? Ele te ama? Espere um pouquinho, querida. Tão te enganando. Até estar aqui, até ser você, tudo uma ilusão. Até desistir. Tudo ilusão. Os anjos documentaristas escreveram isso no seu roteiro mas daqui a pouco vem a merda toda porque filme sem dar tudo errado nem a Disney faz. Nem a Globo. Ainda que eles enganem a gente no final. Agora vai saber, se no nosso final, não acaba alguma coisa mesmo dando certo, tipo brinde do cosmos. Mas daí é o fim e você já está tão cansado que só uma cama já pode ser um final feliz. A morte é o final feliz.
Só dançar é de verdade, nem sei direito, mas sinto assim. Então me escondo em algum momento do dia e danço um pouco. Pra falar a verdade eu danço muito. Daí já é quase fim de tarde. Falta pouco. Eu nunca sei exatamente para o quê, mas me acalmo com a sensação. As sensações sempre sabem mais do que a gente pode saber. Talvez por isso elas sejam terríveis. Talvez por isso doam tanto meu estômago que se renega a acolher o impossível de digerir e classificar. Talvez por isso eu escreva. Talvez por isso eu não vá acordar nunca mais. Nunca mais. Até que eu descubro, quando o teto pesa e tudo aquilo, que o hoje só passa porque acordamos e assim se vai. Amanhã, amanhã. Pão e tudo. E passinhos e ônibus e passarinhos. Armaduras e belezas. E pensar que se você lê, meu amor, eu escrevo. E se você lê, meu amor, eu como. E se você lê, meu amor, eu continuo viva. É triste, mas se a gente pensar com carinho, é bem bonito.
Angústia
Como sempre se chacoalhando além do normal no sofá de couro atrás de mim (e fazendo um barulho que sempre me soa como raiva, apesar de ser um dos poucos e raros momentos em que eu não mereço a raiva de ninguém- justamente porque não apenas causo distraída mas fico ali pra sentir junto), minha analista exclamou alto, abismada como senhoras rotineiras em frente a um novo preço da banana: crueldade?
É! Crueldade! A pessoa ficar sentada na sua frente, sorrindo, sem dizer nada, sorrindo, sentada, na sua frente, sorrindo, que mais poderia ser isso?
Então ela suspirou profundo, um misto de "cansaços" de mim e ao mesmo tempo um apreço pelos bichinhos mais difíceis e ignorantes do mundo, e disse: admiração? Não pode ser admiração?
Já fui em cardiologista pra saber se é do sopro. Em gastro pra saber se é do fígado (eu continuo insistindo que não é meu estômago que dói), em psiquiatra pra saber se é falta de alguma química, vitamina, deslocamento de massa. Já fui em benzedeira. Oftalmo pra acertar o mundo. Dentista pra encaixar meu desequilíbrio em devorar e relaxar e falar e deixar. Já fui em tantos médicos. Procurar engana o tempo e talvez seja só isso.
Mas naquele segundo, quando ela disse “admiração” não consegui enganar nada e senti, com talvez um peito mais velho e mais duro (porque a dor dessa hora permitiu que eu fosse emancipada e uma vez, pra sempre) que talvez tanta coisa ruim fosse só porque era boa. E eu, querendo tanto dar conta do mundo, fui incapaz de algumas horas fáceis e bonitas. Pior: talvez minhas por um merecimento que nem tinha mais pra onde ir.
Mas depois, porque sempre volto pra casa atrás de respostas pra tudo, pensei o seguinte. Que é crueldade sim, senhora. Você gostar de alguém e só. Você se sentar na frente, sorrindo, sem dizer nada, sorrindo, na frente, e gostar. Como se dissesse: eu, daqui de onde não preciso de nada além de ser alegrado e dar a mim mesmo esses momentos de ternura e arrepios e capacidades. Gosto de você. Vá, continue passando as mãos pelo cabelo, olhe pra baixo não dando conta dessas lantejoulas todas que tenho para abrilhantar seus estados. Vá, marionete do que planejei pra essa tarde. Eu gosto de você. Eu posso sentir isso. Então, por favor, não estrague e capriche e dê valor. Porque não é sempre e quase nunca. Então, por favor, olha só, eu g.o.s.t.o de você. Tem noção do tamanho dessa plateia para cada sua pequenice? Vamos. Seja.
Estava zapeando o mundo, preguiçoso, desistente e triste. Quando...você! Vá, me alegre, vá, passe as mãos pelo cabelo.
E agradecem, eles sempre agradecem, porque sabem a arrogância que é se servir de mundo sem ter nada pra dar a não ser suas falsas capacidades de gostar. E sabem que jajá partem e, então, não custa ter essa pena benevolente e esse sorriso já menos certeza mas ainda admirando ao longe.
Apesar de soar isso sim egoísmo, não deixo de me ouvir dizendo que quem gosta sente é o desespero pra agradar e ser gostado. A urgência de mostrar ao invés de assistir. A pressa em dar ao invés dessa receptividade toda tão corajosa em acomodar.
Ao invés de sorrir tanto, não são os que choram escondidos os que mais gostam? O resto não são experimentadores de mundo, enganando a gente com espaços que não se emprestam e nem se dão e nem se são desocupados?
Olhando como se fossemos aquelas crianças no farol tentando de tudo. Num dia de não mesmice apesar da obviedade.
Então, então, as bolinhas quase caem, os olhos dele que gosta tanto de mim, caem junto. E o farol abre e vai cada desgraçado prum canto.
Portanto, agora, quando eles sorriem pra mim, sentados de frente, quietos, eu apenas pergunto, já me tirando do lugar de ser gostada: e o que você tem pra mim, afinal? E eu sei futuramente que a resposta é avassaladora, passa por coisas alheias do tipo “nada” e por coisas lindas do tipo “e nada é a boa resposta, garota”. Mas por enquanto, ainda acho tudo assim mesmo. Uma grande e triste e quase intolerável maldade. Um dia, é só o que eu quero, eu vou ficar quieta e entender tudo. Quer dizer: eu vou é querer abrir mão de entender tudo.
É! Crueldade! A pessoa ficar sentada na sua frente, sorrindo, sem dizer nada, sorrindo, sentada, na sua frente, sorrindo, que mais poderia ser isso?
Então ela suspirou profundo, um misto de "cansaços" de mim e ao mesmo tempo um apreço pelos bichinhos mais difíceis e ignorantes do mundo, e disse: admiração? Não pode ser admiração?
Já fui em cardiologista pra saber se é do sopro. Em gastro pra saber se é do fígado (eu continuo insistindo que não é meu estômago que dói), em psiquiatra pra saber se é falta de alguma química, vitamina, deslocamento de massa. Já fui em benzedeira. Oftalmo pra acertar o mundo. Dentista pra encaixar meu desequilíbrio em devorar e relaxar e falar e deixar. Já fui em tantos médicos. Procurar engana o tempo e talvez seja só isso.
Mas naquele segundo, quando ela disse “admiração” não consegui enganar nada e senti, com talvez um peito mais velho e mais duro (porque a dor dessa hora permitiu que eu fosse emancipada e uma vez, pra sempre) que talvez tanta coisa ruim fosse só porque era boa. E eu, querendo tanto dar conta do mundo, fui incapaz de algumas horas fáceis e bonitas. Pior: talvez minhas por um merecimento que nem tinha mais pra onde ir.
Mas depois, porque sempre volto pra casa atrás de respostas pra tudo, pensei o seguinte. Que é crueldade sim, senhora. Você gostar de alguém e só. Você se sentar na frente, sorrindo, sem dizer nada, sorrindo, na frente, e gostar. Como se dissesse: eu, daqui de onde não preciso de nada além de ser alegrado e dar a mim mesmo esses momentos de ternura e arrepios e capacidades. Gosto de você. Vá, continue passando as mãos pelo cabelo, olhe pra baixo não dando conta dessas lantejoulas todas que tenho para abrilhantar seus estados. Vá, marionete do que planejei pra essa tarde. Eu gosto de você. Eu posso sentir isso. Então, por favor, não estrague e capriche e dê valor. Porque não é sempre e quase nunca. Então, por favor, olha só, eu g.o.s.t.o de você. Tem noção do tamanho dessa plateia para cada sua pequenice? Vamos. Seja.
Estava zapeando o mundo, preguiçoso, desistente e triste. Quando...você! Vá, me alegre, vá, passe as mãos pelo cabelo.
E agradecem, eles sempre agradecem, porque sabem a arrogância que é se servir de mundo sem ter nada pra dar a não ser suas falsas capacidades de gostar. E sabem que jajá partem e, então, não custa ter essa pena benevolente e esse sorriso já menos certeza mas ainda admirando ao longe.
Apesar de soar isso sim egoísmo, não deixo de me ouvir dizendo que quem gosta sente é o desespero pra agradar e ser gostado. A urgência de mostrar ao invés de assistir. A pressa em dar ao invés dessa receptividade toda tão corajosa em acomodar.
Ao invés de sorrir tanto, não são os que choram escondidos os que mais gostam? O resto não são experimentadores de mundo, enganando a gente com espaços que não se emprestam e nem se dão e nem se são desocupados?
Olhando como se fossemos aquelas crianças no farol tentando de tudo. Num dia de não mesmice apesar da obviedade.
Então, então, as bolinhas quase caem, os olhos dele que gosta tanto de mim, caem junto. E o farol abre e vai cada desgraçado prum canto.
Portanto, agora, quando eles sorriem pra mim, sentados de frente, quietos, eu apenas pergunto, já me tirando do lugar de ser gostada: e o que você tem pra mim, afinal? E eu sei futuramente que a resposta é avassaladora, passa por coisas alheias do tipo “nada” e por coisas lindas do tipo “e nada é a boa resposta, garota”. Mas por enquanto, ainda acho tudo assim mesmo. Uma grande e triste e quase intolerável maldade. Um dia, é só o que eu quero, eu vou ficar quieta e entender tudo. Quer dizer: eu vou é querer abrir mão de entender tudo.
A primeira vez sem camisinha
Tenho mais de trinta anos e nunca comprei camisinha na vida. Morro de vergonha. Não sei nem por onde começar. Se falo baixinho, se vou de óculos escuros, quantas peço, de qual marca. Tem mesmo esse lance de pedir pelo tamanho?
Não que eu ache que camisinha seja coisa de homem. Até é, se você estiver na casa dele. Mas se você estiver na sua casa, é coisa sua. E é bom que ela esteja por perto, assim, no calor das coisas, você só dá aquela esticada no braço e pronto. Não precisa falar, perguntar, filosofar. Só os interessados em casamento e pagamento combinam o sexo. O resto simplesmente faz.
Nunca comprei mas sempre tive um bom estoque em casa. Herança de alguns ex namorados e casos que me enjoaram ou se enjoaram antes delas acabarem. Até os mais pessimistas, céticos e pão duros exageram quando estão apaixonados. E até os mais otimistas, esperançosos e desapegados sabem que poucos amores duram cinco pacotes de doze unidades (até porque se durar, provavelmente, a coisa ficou séria e eu já estarei tomando pílula).
Mas numa bela manhã me vi sem elas e sabia que o dia tinha chegado. Eu precisava comprar. Uma amiga minha deu a dica “compra no supermercado, no meio das coisas, que é mais fácil”. E foi o que tentei fazer.
Peguei pão, peguei sucrilhos, peguei pilha palito, peguei tomate, peguei banana e fui pegando geral até chegar na seção de perfumaria e descobrir que não tinha camisinha. Como assim? Ligo pra minha amiga “vou ter que encarar uma farmácia mesmo” e ela séria, no meio de uma reunião “você tá no Pão de Açúcar da Apinagés? É que justo nesse tem que pedir num balcão separado que fica bem na entrada, vai logo que você não é criança, aliás...”.
Agora era uma questão de honra. Chego no caixa. Cartão +, senhora? Não. CPF na nota, senhora? Não. Alguma coisa que a senhora não tenha encontrado? Sim. O quê? Caiiinha. Como? Ca-i-i-nha! Não entendi, senhora. Claro que não, eu estou murmurando fanha e com a voz mais baixa do universo. Me aproximo do ouvido de Rosemeire e digo “camisinha”. Ela fecha a cara e aponta o tal do balcão separado na entrada do supermercado.
Antes de me arrastar até a forca e repetir o meu pedido (só que agora, para o garoto do açougue que por alguma razão da desgraça humana está cuidando do balcão de apetrechos de farmácia...ou seja: era melhor ter ido logo a uma farmácia que pelo menos era algum senhorzinho acostumado a vender de pomada pra corrimento a cauterizador de frieira e não um jovem açougueiro com o sorriso indecente que só os carnívoros passionais têm no lábio inferior), fico imóvel tentando entender a cara fechada de Rosemeire.
Qual é? Posso transar não, bigoduda? Tá com inveja? Sua religião não permite? Qual é a sua, Rô? Virou minha mãe agora? Você devia era estar feliz que eu me cuido. Qual é seu problema? Mas como nada disso tem muito cabimento, desencano de entender e percebo que Rosemeire não está com a cara feia, ela só é feia mesmo. Eu é que estou inventando história complicada pra algo tão simples quanto: comprar um troço que serve pra botar em um pau que vai ficar furunfando em mim até gozar. Veja bem: tem que ser muito cara de pau pra comprar um troço desses sozinha, a luz do dia e ainda no supermercado que mamy freqüenta há anos.
Gerson, o açougueiro, pergunta qual o fator do protetor solar. Eu digo 15. Não. 30. Não. 60. Tem bloqueador? Tem protetor labial? Que mais que eu preciso...que mais que eu preciso...deixa eu ver...Ah... Tem...ah...tem amiinha? Oi? A-mi-i-nha. Como? Ca-mi-si-nha! Falo alto. Gerson, o açougueiro, fecha a cara e aponta para pacotinhos de várias marcas e quantidades. Qual pacote? Quero entender a cara feia dele mas lalalalalalalalalala. Eu digo. “Eu quero esse pretinho aqui de quatro”. E aí começa o festival de atos falhos. Digo, apontando o caixa no qual Rosemeire pesa as bananas “me dá tudo que eu quero levar”.
Paro alguns segundos pra resolver o que me parecem ser a únicas perguntas que realmente importam na vida de uma mulher: compro um monte pra nunca mais passar essa vergonha ou vão achar que sou uma vadia? O que Gerson e Rosemeire pensam realmente me importa? Quantas camisinhas são o suficiente pra eu não ter que voltar aqui até o próximo namoradinho mais sério que vai fazer todos os exames e merecer as pílulas?
Volto para o caixa e uma fila gigante se formou. Pela cara das pessoas, tenho certeza que Rosemeire falou “galera, segura aí que aquela piranha foi pegar cinco pacotes de doze camisinhas e já volta, se é que ela ainda anda”. Estou obcecada pela cara feia das pessoas apesar de ninguém estar realmente de cara feia. Para a minha felicidade, Rô ainda não acabou de passar todas as compras e, num passe de agilidade e mágica, enfio os pacotinhos misturados com a comida e os cremes e as pilhas palitos.
Acabou. Agora acabou. Eu mesma só vou ter que olhar pra essas desgraças de pacote a hora que estiver em casa, arrumando tudo. Em alguns segundos, elas sumirão pra dentro de algum saquinho vagabundo e eu poderei voltar a ser só uma simples garota que compra pilhas palito para o controle remoto do Ipod e não uma devassa loira que, acompanhada por sua vagina, faz compras descaradas enquanto senhorinhas comparam o preço do desnatado. Seria, enfim, o fim do alarme barulhento e muito vermelho que não parava de disparar no meio das minhas pernas. Olhem! Todos! Eu tenho vagina and faço uso da mesma. Olhem todos! Eu tenho uma árvore de natal em minha vagina!
Mas não, não, não. Rosemeire deixa, por último, e agora sim tenho certeza que algumas pessoas riem, os pacotes de camisinha ao lado do meu cacho avantajado de bananas nanicas que (quem entende de banana sabe) quase nunca fazem jus ao nome.
Num ato de desespero e exaustão, decido acabar logo com isso. É, minha gente, eu trepo mesmo. Tenho trinta anos e gosto de alguém. E sacola de fruta é sacola de fruta e sacola de perfumaria é sacola de perfumaria e vamo acabar logo com isso que ninguém aqui é criança. Eu mesma embalo, separadamente, as bananas. Tudo me parece ridículo, impróprio e sensual. Já que acho que sou agora o ser mais sexual do mundo, empino um pouco os peitos. Mas está acabando.
Ufa! Estou em casa. Para meu desespero vejo que esqueci as pilhas palitos em algum lugar. Freud explica.
Não que eu ache que camisinha seja coisa de homem. Até é, se você estiver na casa dele. Mas se você estiver na sua casa, é coisa sua. E é bom que ela esteja por perto, assim, no calor das coisas, você só dá aquela esticada no braço e pronto. Não precisa falar, perguntar, filosofar. Só os interessados em casamento e pagamento combinam o sexo. O resto simplesmente faz.
Nunca comprei mas sempre tive um bom estoque em casa. Herança de alguns ex namorados e casos que me enjoaram ou se enjoaram antes delas acabarem. Até os mais pessimistas, céticos e pão duros exageram quando estão apaixonados. E até os mais otimistas, esperançosos e desapegados sabem que poucos amores duram cinco pacotes de doze unidades (até porque se durar, provavelmente, a coisa ficou séria e eu já estarei tomando pílula).
Mas numa bela manhã me vi sem elas e sabia que o dia tinha chegado. Eu precisava comprar. Uma amiga minha deu a dica “compra no supermercado, no meio das coisas, que é mais fácil”. E foi o que tentei fazer.
Peguei pão, peguei sucrilhos, peguei pilha palito, peguei tomate, peguei banana e fui pegando geral até chegar na seção de perfumaria e descobrir que não tinha camisinha. Como assim? Ligo pra minha amiga “vou ter que encarar uma farmácia mesmo” e ela séria, no meio de uma reunião “você tá no Pão de Açúcar da Apinagés? É que justo nesse tem que pedir num balcão separado que fica bem na entrada, vai logo que você não é criança, aliás...”.
Agora era uma questão de honra. Chego no caixa. Cartão +, senhora? Não. CPF na nota, senhora? Não. Alguma coisa que a senhora não tenha encontrado? Sim. O quê? Caiiinha. Como? Ca-i-i-nha! Não entendi, senhora. Claro que não, eu estou murmurando fanha e com a voz mais baixa do universo. Me aproximo do ouvido de Rosemeire e digo “camisinha”. Ela fecha a cara e aponta o tal do balcão separado na entrada do supermercado.
Antes de me arrastar até a forca e repetir o meu pedido (só que agora, para o garoto do açougue que por alguma razão da desgraça humana está cuidando do balcão de apetrechos de farmácia...ou seja: era melhor ter ido logo a uma farmácia que pelo menos era algum senhorzinho acostumado a vender de pomada pra corrimento a cauterizador de frieira e não um jovem açougueiro com o sorriso indecente que só os carnívoros passionais têm no lábio inferior), fico imóvel tentando entender a cara fechada de Rosemeire.
Qual é? Posso transar não, bigoduda? Tá com inveja? Sua religião não permite? Qual é a sua, Rô? Virou minha mãe agora? Você devia era estar feliz que eu me cuido. Qual é seu problema? Mas como nada disso tem muito cabimento, desencano de entender e percebo que Rosemeire não está com a cara feia, ela só é feia mesmo. Eu é que estou inventando história complicada pra algo tão simples quanto: comprar um troço que serve pra botar em um pau que vai ficar furunfando em mim até gozar. Veja bem: tem que ser muito cara de pau pra comprar um troço desses sozinha, a luz do dia e ainda no supermercado que mamy freqüenta há anos.
Gerson, o açougueiro, pergunta qual o fator do protetor solar. Eu digo 15. Não. 30. Não. 60. Tem bloqueador? Tem protetor labial? Que mais que eu preciso...que mais que eu preciso...deixa eu ver...Ah... Tem...ah...tem amiinha? Oi? A-mi-i-nha. Como? Ca-mi-si-nha! Falo alto. Gerson, o açougueiro, fecha a cara e aponta para pacotinhos de várias marcas e quantidades. Qual pacote? Quero entender a cara feia dele mas lalalalalalalalalala. Eu digo. “Eu quero esse pretinho aqui de quatro”. E aí começa o festival de atos falhos. Digo, apontando o caixa no qual Rosemeire pesa as bananas “me dá tudo que eu quero levar”.
Paro alguns segundos pra resolver o que me parecem ser a únicas perguntas que realmente importam na vida de uma mulher: compro um monte pra nunca mais passar essa vergonha ou vão achar que sou uma vadia? O que Gerson e Rosemeire pensam realmente me importa? Quantas camisinhas são o suficiente pra eu não ter que voltar aqui até o próximo namoradinho mais sério que vai fazer todos os exames e merecer as pílulas?
Volto para o caixa e uma fila gigante se formou. Pela cara das pessoas, tenho certeza que Rosemeire falou “galera, segura aí que aquela piranha foi pegar cinco pacotes de doze camisinhas e já volta, se é que ela ainda anda”. Estou obcecada pela cara feia das pessoas apesar de ninguém estar realmente de cara feia. Para a minha felicidade, Rô ainda não acabou de passar todas as compras e, num passe de agilidade e mágica, enfio os pacotinhos misturados com a comida e os cremes e as pilhas palitos.
Acabou. Agora acabou. Eu mesma só vou ter que olhar pra essas desgraças de pacote a hora que estiver em casa, arrumando tudo. Em alguns segundos, elas sumirão pra dentro de algum saquinho vagabundo e eu poderei voltar a ser só uma simples garota que compra pilhas palito para o controle remoto do Ipod e não uma devassa loira que, acompanhada por sua vagina, faz compras descaradas enquanto senhorinhas comparam o preço do desnatado. Seria, enfim, o fim do alarme barulhento e muito vermelho que não parava de disparar no meio das minhas pernas. Olhem! Todos! Eu tenho vagina and faço uso da mesma. Olhem todos! Eu tenho uma árvore de natal em minha vagina!
Mas não, não, não. Rosemeire deixa, por último, e agora sim tenho certeza que algumas pessoas riem, os pacotes de camisinha ao lado do meu cacho avantajado de bananas nanicas que (quem entende de banana sabe) quase nunca fazem jus ao nome.
Num ato de desespero e exaustão, decido acabar logo com isso. É, minha gente, eu trepo mesmo. Tenho trinta anos e gosto de alguém. E sacola de fruta é sacola de fruta e sacola de perfumaria é sacola de perfumaria e vamo acabar logo com isso que ninguém aqui é criança. Eu mesma embalo, separadamente, as bananas. Tudo me parece ridículo, impróprio e sensual. Já que acho que sou agora o ser mais sexual do mundo, empino um pouco os peitos. Mas está acabando.
Ufa! Estou em casa. Para meu desespero vejo que esqueci as pilhas palitos em algum lugar. Freud explica.
Menos
Ontem estava uma noite bonita na pracinha em frente ao restaurante. Eu tenho uma amiga que é tão morena e bonita e brilha. E fiquei emocionada vendo uma mulher como ela. E quando percebi, estava agarrada ao seu cabelo grande, perguntando dez vezes por segundo, como já fiz tantas outras vezes: e se eu não puder, de novo? Quando eu vou poder? Será que um dia…
E ela, com mil anos a menos de perguntas do que eu, me disse como quem diz “então vou indo”. Ela disse: goste menos. Por favor, já está na hora, goste menos.
E então cada uma das amigas foi devolvida ao seu carro. Sobrou o meu lá no fim da pracinha. Medo de ter barata na rua e eu de sandalinha aberta. Estava tudo tão iluminado na volta pra casa. Estava um silêncio de todo mundo e então não dava aquele oco no meio da cabeça. Estava um quentinho de condomínio de crianças que se penduram protegidas. E eu me ensinando, me encaixando, me acomodando. Só dessa vez, goste menos. Já está na hora. Menos. Por favor. Já está na hora. E pensei tanto em menos que nunca será.
E ela, com mil anos a menos de perguntas do que eu, me disse como quem diz “então vou indo”. Ela disse: goste menos. Por favor, já está na hora, goste menos.
E então cada uma das amigas foi devolvida ao seu carro. Sobrou o meu lá no fim da pracinha. Medo de ter barata na rua e eu de sandalinha aberta. Estava tudo tão iluminado na volta pra casa. Estava um silêncio de todo mundo e então não dava aquele oco no meio da cabeça. Estava um quentinho de condomínio de crianças que se penduram protegidas. E eu me ensinando, me encaixando, me acomodando. Só dessa vez, goste menos. Já está na hora. Menos. Por favor. Já está na hora. E pensei tanto em menos que nunca será.
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