sábado, 2 de outubro de 2010

Autógrafo

Estava no café de uma livraria quando Philip Roth entrou e se sentou ao meu lado. Senti um tremor invadir meu corpo, uma coisa maluca, nunca sentida antes. Febre, taquicardia, náusea, vontade de ficar descontroladamente boba, formigamentos nas extremidades. Eu nunca tinha pedido autógrafo na vida mas esse era definitivamente caso para uma exceção.
Eu estava ao lado do homem que escreveu um dos cinco livros da minha vida. Complexo de Portnoy. O livro do cara obcecado por sexo mas também por limpeza. O que torna a vida de qualquer pessoa uma desgraça. O livro do cara obcecado por amar e ser amado mas com verdadeiro pavor de ficar mais do que cinco minutos ao lado de qualquer ser humano. O que torna a vida de qualquer pessoa uma desgraça. Portnoy tinha me feito companhia numa fase em que nem eu mesma conseguia me fazer companhia. Seja lá o que isso quer dizer.
E se eu errasse o inglês? E se eu chorasse? E se eu vomitasse? E se eu não me controlasse e fizesse algo medonho tipo dizer “Ai, Filipe, cara, tipo assim, I love you, meu”. Sempre que fico querendo ser inteligente automaticamente viro uma porta. Pior: uma porta com aquele sotaque insuportável das garotas caçadoras de maridos ricos que por alguma razão desconhecida de meus estudos antropológicos falam como se tivessem um ovo de ouro entalado na faringe, um pregador de diamantes no nariz e uma pós graduação caríssima em alguma feira de rua do sul da Itália. Só faltava eu dar um flyer do Bar Secreto pro Filipe, meu.
Apesar da vergonha e de todo o mal que um comportamento ridículo poderia causar em meu detector de motivos para me culpar por anos sem fim, decidi que pediria o autógrafo. Fui correndo comprar um Complexo de Portnoy. A vendedora comentou que adorava esse livro, adorava o escritor…foi quando eu gritei “ele está aqui, acredita?” A vendedora riu da minha cara. Impossível, garota, ela me disse, certamente se achando melhor do que qualquer mortal só porque tinha carteirinha de biblioteca pública e pelo menos um amigo que já tinha jogado futebol com o Chico Buarque.
Passei rapidamente as agendas culturais literárias na mente e não tinha mesmo nenhuma razão para Philip Roth visitar o Brasil. Ainda assim era ele. Era ele sim. Eu tinha decorado a sua foto de tanto olhar pra ela. Adoro olhar fundos de olhos de fotos de pessoas que têm fundos de olhos. E era ele. Tudo bem que o livro tinha sido escrito na década de 60 e que Philip, hoje em dia, deva ter seus 112, 114 anos. Mas…é…acho que não era ele.
Do caixa, segundos antes de comprar o livro, vejo Philip se levantar e vir em minha direção. Sorrindo. Um pouco acanhado. Ele vem com cautela. Chega perto com vergonha. Para minha surpresa, ele fala em bom (não tão bom) e alto (bem alto) português. E pede um autógrafo para a menina que estava na fila, logo atrás de mim. Ela era atriz do Zorra Total.

Jura que você sonha essas coisas? Juro

Vasculhando o porão da casa do meu pai que não ficava onde sempre foi a casa do meu pai, resgatei minha velha e amada bicicleta azul clara que nunca tive (eu podia sentir o amor melancólico, a saudade, por aquela bicicleta, mesmo sabendo que ela nunca existiu- minha bicicleta era na verdade vermelha). Agora estou guiando em ruas de trânsito intenso, calçadas esburacadas e cheias de desníveis. O trato era não pensar na bicicleta, pois quando eu pensava, caia. Mas se fizesse de conta que era algo natural, extensão de mim, podia até mesmo dar umas voadinhas (mas não podia, nem brincando, pensar nas voadinhas, seria fatal).
Era a rua do meu pai, era a rua do meu avô, era a rua da minha antiga escola, era a rua que morei no Rio de Janeiro. Eram várias ruas distantes que formavam um só trecho e eu podia sobrevoar tudo, ainda que não pensar no medo já era pensar no medo e por isso, eu achei melhor, a certa altura do campeonato, andar guiando a bicicleta pelas mãos, com meus pés bem fincados no chão. Enfim, não era mais a bicicleta que me levava mas eu que levava a bicicleta.
Preciso de dinheiro e então entro em um banco. Me esperando, deitada em cima do caixa do Itaú (meu banco é o Bradesco!!) está a Marina, minha amiga de infância. Ela está de biquíni e toma sol, apesar do teto cinza e do ar condicionado terrível que está lá dentro. Encosto minha bicicleta na parede (mas ela não para em pé de jeito nenhum) e preciso lembrar minha senha para tirar 150 reais. Meu pai aparece, quer levar nós duas pra almoçar, mas ele é meio criança também, como eu e a Marina somos agora. Eu consigo tirar o dinheiro e vem até um pouquinho a mais, não reclamo. Quando vou sair, estou de frente para o porto de Santos. Com barcos saindo a cada quinze minutos, como os aviões da ponte aérea que tanto me traumatizaram em tempos de pistas sem ranhuras e chuvas e tal. Mas agora era o porto de Santos e os guardas eram loiros e de olhares cruéis como num filme nazista.
Percebo que roubaram minha bicicleta e sinto um alívio. Nunca mais vou ver aquela bicicleta, que alívio! Mas me sinto roubada apesar de tudo e quero ao menos que o ladrão sofra as consequências. Marina e papai sumiram também. Só posso contar com o guarda de olhos azuis e bochechas gordas. Ele vai fazer uma ligação para o guarda que cuida dos barcos pois, segundo ele, os ladrões roubam mas como não têm para onde ir, embarcam. Acho bonito isso “quem não tem para onde ir, embarca”. Me perco alguns segundos nessa frase e quase quero acordar para escrevê-la na minha parede. Mas estou com raiva e quero que esse ladrão pague por ter roubado algo que eu queria tanto que roubassem mesmo.
De repente, vejo o ladrão passar guiando minha bicicleta. Ele a guia tão bem, cabelos ao vento, parece cena de filme do Nanni Moretti. Minha bicicleta vai tão melhor com ele. Mas também, eu penso: agora é fácil! Estamos no plano, temos um mar ao fundo, está sol. Para os outros, ladrões de mim, é sempre plano, bonito e tudo parece tão ridiculamente fácil. Daí que acho que os perigos e feiúras estão mesmo na minha cabeça. E corro, corro, corro, preciso socar esse ladrão até a morte. E resgatar minha velha e amada bicicleta azul clara que nunca tive e nem mesmo quero.
Ao correr, sinto uma dor, como um murro no útero. Vou morrer? Não, deve ser menstruação, alguém me fala, mas não vejo quem. Na vida de uma mulher, sempre que achamos que vamos morrer, alguma voz que nunca sabemos de onde vem, explica: não, é só porque você vai menstruar, querida.
Agora estou na sala de espera da minha ginecologista, uma das melhores e mais caras do Brasil. Eu nunca vi essa mulher na vida (o meu ginecologista na vida real é homem), mas é como se ela tivesse me acompanhado por toda uma vida, tal qual a bicicleta. Ela precisa me examinar nos próximos cinco segundos porque sinto a enxurrada vir. Em cinco segundos terei, segundo me conta uma cólica insuportável, uma menstruação que poderia inundar uma cidade inteira. E ela perde esses segundos examinando meus dentes. Ela é agora minha dentista e a reconheço. A mulher que, quando eu tinha seis anos, tirou um molde dos meus dentes e me apelidou de monstro. Isso aconteceu de verdade e agora, mais de vinte anos depois, em sonho, posso furar o cérebro dessa imbecil com alguma broca. Mas ao invés disso, imploro, me examine, por favor, em alguns segundos ficarei menstruada por dois séculos e nunca mais poderei ser examinada. Me diga que está tudo bem, por favor. Sim, eu sei, faço 90 exames de sangue 90 vezes ao ano, mas, por favor, vamos lá, serão dois séculos sem nenhum exame, então, me diz, está tudo bem?
Ela me leva para uma sala apertada e com carpete onde três homens feios e machistas (isso é uma sensação, porque não os vejo e nem falo com eles) fazem aquele teste de curva glicêmica. Eles precisam de paz, precisam de silêncio, precisam ficar tranquilos. E eu quero gritar de dor e impaciência. A minha dentista finalmente me pede que eu tire a roupa. Mas eu teria de ser examinada com aqueles três seres que odeio, do fundo da minha alma, presentes. E então, é como se todo o meu ódio, que carrego 24 horas por dia no peito, se explicasse pra mim. Tati, isso que você quer tanto entender, de onde vem tanto ódio, está aqui, na sua frente: você tem ódio de tudo e de todos porque você só quer saber se está tudo bem, mas o mundo é formado por uma falsa médica psicopata e três moribundos machistas fazendo exames de curva glicêmica. Tudo isso numa salinha com carpete.
Começo a quebrar tudo, gritar, rosnar, babar. Seguranças entram e me amarram.
Estou agora num sítio, junto com os cachorros. Aqueles cachorros que não souberam se comportar e tem sempre um amigo do amigo que dá um jeito “manda lá pro sítio do fulano”. Estou nesse sítio. Sou tão bonita, meu Deus, se eu pudesse ser metade do que sou nesse segundo, nesse sonho. Estou no jardim do rei Henrique VIII e sou a Bolena preferida. Tenho seios enormes e cabelos enormes e sou realmente a pessoa mais bonita do mundo. Todos me conhecem como a mulher cachorro que entende como ninguém os cachorros. O rei é louco por mim. Eu sou louca por ele. Mas nosso amor é proibido porque um labrador cheio de remelas comeu minha mão, justo a da aliança, e nunca mais poderei casar. E uma mulher sem marido, lá pro século XXI, pode até ser legal, virar escritora, vai saber. Mas agora, no jardim do Henri, fã secreto de Lutero, eu posso ser queimada (penso que agora que faço USP meus sonhos vão ficar metidos que só). Em compensação, com a outra mão, domo um país inteiro. Seja com carinho ou violência. Com a mão que sobra, sou mulher em dobro, pra compensar a outra mão morta (isso faz tanto sentido pra mim que nem quero explicar). Acordo com a mão morta enfiada no meio das minhas pernas. Não no sentido sexual, não quero me dar prazer nenhum porque o que sinto é tão desolador que não tiraria de mim uma gota de alegria nesse momento. Só estou agarrada em mim, só isso. Sempre que tenho medo de cair, me agarro em mim porque círculos nunca caem, só vão e voltam. Pense bem.
Percebo que acordei porque o interfone berra na cozinha, é o porteiro querendo saber “dona Tatiana, a senhora não leu no elevador que ia ter curso da brigada de incêndio? Só ficou a senhora no prédio.”
Ah, essa vida! E não é que morri queimada mesmo!

Os melhores do mundo

Eles estão aos montes por aí. Infestando festas, bares, casas de amigos, redes sociais. Os homens que não prestam para nada. Não sabem até hoje, e já têm seus trinta e poucos ou muitos, o que querem da vida. Se arrastam para a janela, para o banho, para o jornal. Não se interessam por nada que não seja a hora que dá um soninho bom de esquecer a vida. Não sabem ganhar dinheiro mas sabem que dinheiro ajuda a ganhar mulheres e então já desistiram também de ganhar mulheres. Até tentam quando bêbados. Até tentam quando a mulher é ruinzinha. Mas das interessantes e fortes, passam longe. Medo, pavor, de que elas descubram que seu pau, na verdade, está enfiado no meio das pernas. Só que neste caso, como um rabo temeroso. O pouco que ganham, torram em cerveja e em algum analista mais barato. O pai já desistiu, os irmãos. A ex namorada não pode ver o cara pintado na frente. Só a mãe liga, de vez em quando, e tenta uns elogios. Afinal, ele tem a alma boa. Seus relacionamentos não passam de duas semanas. Quem é que vai querer ter um filho com um ser que atrasa o pagamento da luz, não trabalha fixo em nenhum lugar há sete anos e ainda guarda um resto daquela graninha da casa do tio avô? Deu o quê? Quinze mil pra cada neto sobrinho? Mas sobrou 200 paus que ele guarda pra emergências, é um homem que pensa no futuro. Sua melhor camisa é furada, seu ultimo livro foi pro vestibular que ele não passou. Não fez faculdade, mas frequentou os bares de algumas. Não sabe o que é ter chefe, mas gerente de banco ele já teve uns dez, até brigar com todos, por pura vergonha mesmo. Pouco importam os filmes, os livros, as músicas. A bituca de maconha deixada pelo último ex amigo que teve a coragem de morar com ele, queima qualquer lembrança ou desejo. Queima até a vontade de morrer. Pra morrer é preciso um pouco de vontade e de dinheiro. Ele até sabe falar “Truffaut” pra impressionar alguma gordinha japonesa que passou em fisioterapia na Unicamp, mas ele próprio não sabe se isso é diretor de cinema ou marca de lençol. Pra que serve um ser humano desses? Não conto. Mas acho que o fetiche da pobre e perdida empregadinha no tanque ganhou, em tempos modernos com seus papéis trocados, o coração das mulheres em suas mesas de jantares de madeira maciça.

Ana Bolena e meu momento nerd do final de semana

Ontem cheguei ao último capítulo da segunda temporada de The Tudors. Meu vício nessas séries “históricas” começou com Roma, que assisti (as únicas duas temporadas) em menos de uma semana. As primeiras duas temporadas do Henri VIII bonito de doer a alma eu matei em menos de cinco dias (sim, eu fico sem dormir, por exemplo, não é muito normal, mas é assim que sei gostar de qualquer que seja a coisa, até que a temporada acaba e (ufa!) tudo fica bem de novo).
Depois de fazer o rei terminar seu casamento com a espanhola Catarina, brigando assim com o imperador Carlos V e com seu próprio povo, Ana Bolena seguiu conseguindo muitas coisas com sua beleza e inteligência. O rei brigou com o papa mudando pra sempre a história da Igreja Católica, brigou com a França, renegou a própria filha e, por fim, começou até mesmo a mandar matar todos (até os amigos mais queridos) que não considerassem Ana a rainha da Inglaterra.
Pouco tempo depois de casados, quando Ana já não era mais novidade, não embuchava de jeito nenhum de um menino macho herdeiro e andava chata e deprimida porque não se sentia mais amada, Henrique já não aguentava mais ver a beldade caminhando pelo palácio e decidiu mandar decapitá-la com a desculpa de que ela, uma bruxa promíscua, precisava morrer para que ele “renascesse” e pudesse reaver, para si e para o mundo à sua volta, a paz e a pureza.
Na manhã de 19 de maio de 1536 (juro que não olhei no Google, eu decorei mesmo, tô falando, não é normal, eu vicio mesmo nas coisas) Ana teve seu pescoço cortado em praça pública. Antes (e essa parte é verdade porque agora sim pesquisei na Internet) ela se ajoelhou e pediu às pessoas que, assim como ela, não deixassem nunca de amar o rei. Apesar de tudo.
Tudo isso seria apenas uma história contada de milhares de maneiras diferentes (e, para mim, em um DVD que tenho que devolver até terça meia noite) não fosse a bizarrice ocorrida com a minha pessoa na noite de ontem.
Conforme Ana caminhava para a morte, sem nem mesmo poder se despedir de seu amado, eu comecei a me contorcer inteira de uma dor poucas vezes experimentada na vida. Um rio de lágrimas, com direito a tremedeiras, espasmos, murros no peito, suores frios e olhadas significativas para a janela, me fez pensar seriamente em internação. Definitivamente não era normal sofrer assim por um capítulo de série inglesa que, além de ser pura encenação, era de uma temporada que já acabou faz tempo.
Ana não era nenhuma santa. Fazia tudo pensando em manter-se no poder, seduziu o rei pouco se importando com a desgraça da rainha Catarina (que morreu infeliz, solitária e sem poder jamais reencontrar sua filha Mary), arrumava encrenca com parentes e amigos do rei, dava suas afiadas opiniões mesmo numa época em que mulher boa era mulher que dizia amém pra tudo (mudou muito?) e era chegada em música alta com bebidas alcoólicas… Enfim, as pessoas a odiavam porque Ana era de verdade (eu sei gente, tá meio ridículo esse texto, mas eu precisava escrever isso, desculpa). Intensa, passional, louca. Amália, da música, era uma submissa imbecil passadora de cueca de malandro brocha. Ana é que era mulher de verdade.
Segundo o Google também me informa, as cartas do rei Henrique VIII para Ana Bolena chegavam a ser infantilizadas, tamanho era o seu amor. Iniciais formando coraçõezinhos e daí pra pior. Como, meu Deus, como um amor desses SIMPLESMENTE ACABA? E o pior, com que alívio Henrique fica sabendo que o pequeno pescocinho de sua amada já rolou! Ele chega até mesmo a comemorar (o Google, na forma de mestrados de estudiosos ingleses, confirma isso também) o fim desse tormento chamado gostar de alguém de verdade. Ele estava livre da bruxaria do amor!
Henri era uma dessas pessoas que não sabem amar. O amor é uma doença e seu fim uma promessa de equilíbrio e bons tempos. Estamos livres da bruxaria! Pior: ele, como tantos que conhecemos pela vida (e que duramente reconhecemos o tempo todo dentro da gente) era um viciado em decepar cabeças, um incapacitado na arte de continuar sentindo. Enjoei, não quero mais, ficou chato, está atrapalhando meu trabalho, falou o que não devia, não fez o que eu esperava, foi tão intenso que acabou rápido (e não foi isso que eu fiz assistindo mais de vinte episódio em uma semana?), qual a próxima novidade da lojinha de brinquedos?
Com o fim de Ana Bolena, não só Henrique estava curado de sua instabilidade emocional como não precisaria nunca mais cruzar, pelos corredores do seu castelinho, com os restos usados e desgastados da mulher que, não fazia muito tempo, tinha sido razão e inspiração para que ele revolucionasse a história da Inglaterra e do mundo.
Nos próximos capítulos, o incansável Henrique VIII terá outras tantas mulheres, as quais me recusarei a assistir. Todas serão infelizes em algum momento, mas todas, em algum momento também, pensarão o estúpido e tão comum “comigo vai ser diferente”. Se ele já não estivesse enterrado há séculos, ia desejar do fundo do meu coração que alguém cortasse sua cabeça. As duas.

Sobre o que estou esperando

Imagine um cookie de Diabo Verde. É horrível de mastigar, quase impossível de digerir, às vezes você vomita pra não morrer e o pacotinho com quatro custa uma fortuna. Isso se chama análise lacaniana.
Numa reunião de psicanalistas, psicólogos e psiquiatras, fica fácil identificar cada um deles. Os psiquiatras dizem não beber mas, o tempo todo, pedem uma pequena dose de qualquer coisa antes de, com olhos dilatados demais para alguém que não quer parecer bobo, começarem algum discurso científico (e parecem sentir certa vergonha arrogante disfarçada de diploma de medicina), os psicólogos são ternos, encostam nas pessoas e se vestem mal (se forem cognitivos, são os que sorriem o tempo todo e sobram sozinhos na mesa), os psicanalistas freudianos prestam atenção a tudo com um misto de sarcasmo com tristeza mas sabem, no fundo de suas almas, que a tristeza é uma desculpa falsa humilde que deram para poderem continuar sendo sarcásticos. Os lacanianos não foram. Ou, se foram, estão rindo porque os cognitivos sobraram justo na mesa onde eles passaram melecas de nariz.
Tô nessa de Lacan há quase um ano e o único motivo que ainda me leva a degustar desse docinho desentupidor de merda é justamente sentir, por uma das primeiras vezes na vida, a minha merda desentupindo. Ele corrói sem dó mas resolve, tal qual o líquido dos infernos que tenho na minha despensa.
Pra quem não conhece o método, é a psicanálise em seu estado mais cruel (ainda que aqui a palavra cruel esteja mais no sentido de cru do que de crueldade- e não me perguntem o que eu quero dizer com isso porque apenas sinto que é assim e já percebi que quando digo essa frase “só sei que sinto” minha analista se chacoalha inteira no sofá de couro causando um imenso barulho que aprendi a chamar de um lugar no coração da Hitler dos subterfúgios da alegria cerebral). Tem o lance do divã, tem o lance do terapeuta sentar atrás de você (nos meus acessos de precisar de amor eu quase quebro o pescoço em busca de um olhar de aprovação “olha, o que ela está falando é muito bom!"), tem o lance do “não tem panos quentes não, filha de Deus, até porque ele não existe”. E tem também os silêncios terríveis...para os outros, porque eu nunca fiquei em silêncio em toda a minha existência.
Minha meta na vida, desde que desmamei e/ou minha mãe se distraiu dois segundos em me adular sobre todas as coisas, é ser incondicionalmente amada. Para isso, adquiri língua afiada, olhares jocosos e pés prontos para chutar e/ou sair correndo. Resumindo: criei e alimentei tudo em mim para justamente nunca mais ser amada ou ser amada apenas incondicionalmente. O que eu sei que não existe mas continuo sofrendo por não existir. Isso já está identificado desde meus seis anos, quando análise não era pra mim e sim para os filhos de muito ricos que estouravam restos de biribinhas em gatos de marca. Mas eu já sabia. A respeito de mim, eu sempre soube de tudo. Desde sempre. Mas saber não é exatamente desentupir a merda, daí que toda quinta bato cartão (ou ela bate minha carteira, nunca sei) no consultório perfumado e de paredes com isolamento acústico de minha analista. Aliás, isolamento que não funciona: eu sei, por exemplo, que o cara antes de mim se sente culpado porque o filho tira notas ruins e o cara depois de mim sabe, pela cara de pavor com a qual me olha na saída, que eu já aumentei pra dez o número de homens que sonham que estão sem pau quando saem comigo.
A coisa está indo super bem (o que significa que está terrível, insuportável e péssima) até que, nessa última quinta, melhorou ainda mais (o que significa que piorou muito). Quando eu já estava praticamente do lado de fora do seu consultório, chamando o elevador, já me recuperando de meu estado de lixo orgânico, de chorume existencial, ela abriu a porta mais uma vez, olhou pra mim daquele jeito que você só perdoa que uma pessoa te olhe se ela tiver, nitidamente, 20 anos a mais de estudo que você, e me disse “você está esperando o quê?”.
Eu quis responder que era o elevador, mas dada a sua frieza e seriedade, era óbvio que ela se referia à sessão que tinha acabado de acabar. Eu quis responder qualquer coisa, mas ela mandou a bomba e correu sem nem dar tempo do meu desvio de septo voltar pro seu lugar errado. Agora, como dizem por aí, era comigo “mermo”.
Passei a quinta inteira catatônica, tentando adivinhar o que eu deveria fazer para que não esperasse mais o que eu estava esperando. Eu deveria resolver alguma coisa, de certo, mas o quê? Sim, eu deveria parar de esperar, mas para parar de esperar, antes, eu deveria saber o que cazzo eu estava esperando. Que que eu tava esperando?
Passei e repassei a sessão um milhão de vezes na minha mente. Eu tinha falado de tararã, eu tinha falado de tarará, eu tinha falado também que tarará tinha o tararã maior que o do tarararão mas que o tarararão era muito mais tatataratatá que o tararinho. Mas nada disso me deu a pista que eu precisava para saber o que eu esperava até porque, disso tudo o que eu falei, eu não esperava absolutamente nada. Como sempre.
Você está esperando o quê? A voz dela me perseguiu pela sexta também, pela madrugada, pelo sábado. Ah, tantas coisas. Tô esperando ficar rica pra comprar uma casa maior. Tô esperando o último capítulo da novela pra ligar pra Gabi. Tô esperando meu chefe voltar pra pedir um aumento. Tô esperando a grana do freela entrar pra pagar o cartão de crédito. Estou esperando esquentar o tempo pra ir na depilação. Estou esperando os quarenta pra declarar estado de calamidade pública pra minha bunda. Tô esperando a minha vizinha reclamar do Radiohead de novo pra poder reclamar que ela toca tuba as quatro da manhã. Tô esperando a próxima temporada do House. Tô esperando a próxima quinta pra socar você, querida analista.
Quando a mente naufraga pesada demais, vou pro teatrinho infantil que mora lá pelas bandas do meu coração. Encenar minhas sensações pra ver se descubro algo que está difícil de se explicar sem figurinhas. E meu teatrinho infantil me botou em cima de um cavalo branco, com uma varinha de condão. Podia ser uma espada, mas acredito que uma “vara” que transforma o mundo é ainda mais pau que o pau que simplesmente luta, fura e mata, então lá tava eu de varinha mágica, toda me achando a princesinha ainda que a princesinha espere e não aja e eu, como boa pessoa que não deveria esperar por mais nada segundo a minha analista, estivesse agindo. Tá, agora faço o quê? Vou pra onde vestida de besta desse jeito? Eu tenho medo de cavalo, vara com estrela na ponta não me serve de nada. De que me serve meu potencial de macho se ele só me enfraquece? De que me serve a vontade de ir se o lugar não existe? De que me serve, afinal, esse amor?
Amor, é de amor que você fala? É. Tudo em mim respondeu, fazendo o som do recuo já sem forças de uma onda que explodiu na minha cara. Ééééééééééééééééééééé. O uníssono da concordância, como é bonito o equilíbrio único de uma constatação puramente verdadeira. O sopro do que cala fundo inundando, trazendo a resposta para as partes mais esquecidas e longínquas do que somos. Ééééééééééééééééééééééééééé.
Tô esperando o dia que isso vai passar. Isso aqui, que falo descarada e cifradamente, mas sempre. Isso que espalho em cada linha, o tempo todo, o muito peneirado ao longo desses dias todos, soando pouco mas sem parar, nos intervalos dos reais intervalos. Tô esperando acabar, passar, morrer, sangrar até o fim. Esperando o tempo que acalma chamas com seus ventos de mil pés distantes. Esperando alguém que ocupe, distraia, desacorrente, solte, substitua, torne nada demais. Esperando não sentir mais ódio e nem tesão e nem ciúme e nem saudade. Esperando porque é o que resta mesmo, não é falta de coragem, não é de se fazer, é de se sentir e só. Nem sempre a força de um amor é pra sair às ruas, pra viver histórias. No meu caso, sozinha mesmo, preciso ninar esse enjôo de um filho sem pai, esperar que ele nasça morto e enterrá-lo já sem dor. A gravidez do coração dura mais do que deveria e só expulsa seus filhos quando esses já nem existem mais.
Tá, analista dos infernos, eu entendi. Mas você erra quando acha que alguém resolve um amor. O amor é que, se tivermos coragem pra deixar, resolve aos poucos a gente.

Ainda não

Às vezes cansa e entristece tanto, o mundo com os mutilados todos. Enxergar os pedaços, pegar um cinema com um tronco, tomar um café com meio rosto, apertar as mãos de uma canela, sentir o abraço idiota de um joelho com aquele cheiro de pele lixada pela continuidade.
Não é arrogância, se fosse, eu a usaria pra me sentir menos assustada e sozinha. É só mesmo a busca de me formar pelos outros ou me ver neles, nunca sei o peso da troca, e nem se é justa. Mas é tão de verdade que não se pode dizer arrogância ou loucura.
Na pressa de juntar tudo pra ver de uma vez só e me enojar menos, na pressa de juntar tudo pra ser de uma vez só e sentir menor o silêncio de ser uma parte que nem em si tem companhia, o mundo é como os desenhinhos que fazemos no cantinho de um bloco. Corra, corra, e todos terão tudo, todos se movimentarão tanto, o mundo rola, role com ele, basta o dedão percorrer rápido os cantinhos e a vida vai.
Dar certo é questão de segundos, sentir é questão de segundos, sempre a um passo de ser melhor e sentir pra valer. E a sensação deliciosa de dormir só e em silêncio mas junto com o mundo inteiro. Ser sem gente pra encher o saco, mas ser junto com todo mundo que é. Se isso ocorrer, esse segundo antes de dormir, isso sim é dormir. O resto é desculpa pra continuar mais tarde, varrendo o chão do inferno, o chuá, chuá do cérebro que brinca de lixeiro mas é só o chuá, chuá da repetição. A poeira fica, só nos enganamos chutando o que somos cada hora para um lado.
Como assusta o instante em que qualquer enrolação não é suportável e vemos, da janela, do carro, da mesa, da porta, de nós, as pernas correndo sem cabeça, as cabeças se dando sem mãos, os pés chutando sem estômago, as tripas acariciando sem pulso.
Quando cansa e entristece, os amigos dedos com anel, os amigos cintura com cinto, os amigos orelha com cabelo liso atrás, os amigos calça antes de encostar no calcanhar. O que me mantém em pé apesar da falta de corpo é a saudade de algo encaixável e inteiriço, é a curiosidade e a fé em algo encaixável e inteiriço. O que me mantém em pé é perseguir um corpo, pra ser igual ou pra que seja. O que me mantém em pé é, justamente, o quase tudo isso, o quase que sempre foi e o quase de daqui a pouco. É o gosto da lembrança e da iminência. A promessa sempre atual do há ou daqui a. Mas nunca, nunca, nunca, foi. Será?
Onde estão os amigos? Devagar, com paradas, com amor, são restos de algo, são quase, tudo é quase, tudo é resto, tudo é ainda não, mas quase. Nunca sei se serão ou se sobraram. Então, o desespero, o desespero é justamente não existir um corpo inteiro que se abrace. O desespero é, principalmente, não se ser um corpo inteiro para abraçar. É nunca aprender porque não ensinamos. É nunca copiar porque não estamos. A queda que ninguém segura e nem a gente mesmo. O desespero é, sobretudo, não desistir, não acabar, sequer ser queda. Sequer ser desespero. Desespero é nem isso. Ainda não ser, ainda não ter, ainda não não.

A tosse

Impecável é palavra perigosíssima e em mim causa dessas coisas de mania e corretices. Por exemplo o cabelo que tive a paciência de ajeitar e que abre precedentes pra tudo que está embaixo. Daí vou ver já gastei fortunas pra ter a depilação da Risolina que não sossega até tirar o menor dos pelos que ainda nem era pra ser nascido.
Esse raciocínio é sem passar pela frente da testa, ocorre lá pelos limbos das costas de orelhas que nunca viram sol mas hastes de óculos. E por isso mesmo não é muito de se saber históricos, horários e tempos. Então nem sei porque chamo de raciocínio, mas como é quase prático e bastante bobo, também não acho justo chamar de inconsciente porque por esse tenho apreço intelectual temeroso. É só de ser mulher e isso não é instinto e nem neurônio, é só insuportável mesmo.
É simples porque já que tenho então a pele mais lisa e o cabelo mais ajeitado, não me custa dar um pinguinho de vermelho no único minúsculo borrão da única unha de todas as unhas que não está completa.
Assim, num desses dias de impecável, que é mais bolha que todas as bolhas do mundo, dia de tô de máscara e nave e peles e litros e camadas e tudo, foi que uma menina feia, com pigarro de cachorro velho e sapato imundo com beirinha de calça varrendo ruas pigarreadas, resolveu, porque tava distraída com um pacotinho de bolacha Bono, tossir sem colocar a mão na boca, bem na minha nuca. E eu senti respingar a violência do mundo que não controlamos em mim, um tiro covarde, sem defesa, sem aviso, enquanto eu estava de costas e realmente muito bonita e bem vestida e cheirando tão bem que disfarçava pra me lamber um pouquinho, fingindo coçar a boca com o braço.
Primeiro pensei mesmo em morrer. Não que eu fosse me matar ou desejar uma desgraça. Mas é desses milésimos de segundo que pensamos que era melhor mesmo estar tão longe que nem é mais desse mundo. Depois pensei em estratégias para não encostar em nada meu até que me fosse permitido o contato com a água maravilhosa e salvadora do meu chuveiro. Esfregaria bastante, passaria bons dias deprimida e me resguardando de melhorias. O mínimo de tentativa de ser bonita me fazia entrar no vício sem fim de tentar tudo pra ser perfeita que me fazia entrar na neurose do impecável e, então, era sofrido andar na rua, respirar, tocar. Viver sempre macula a moça de massinha irreal que esculpimos sabe-se lá pra alegria ou vislumbre de quem ou de quê.
Tosse maldita, broca, martelo, furadeira, relaxou meus pés, descascou minhas unhas, os pelos sem chances de nascer, alguns, colocaram seus comecinhos, cabecinhas, pra fora, eu suei um pouco na dobrinha do cotovelo, enrolou um pouco as pontas do cabelo, coçou no meio das minhas costas, ruas com barata, copos com marcas de batom, sola de lixos passando pelo meu tapetinho fofo que leva do banho quente pra caminha.
Eu não era mais impecável e foi nesse segundo que meu coração saiu desse romance frígido comigo, do alto de mim que nem é pele e nem é gente e nem se lembra mais, e voltou a pulsar no meio, bem lá onde tudo e todos se encontram porque também é preciso de errados, perigosos e sujos pra se manter boa, limpa e digna. O batimento no meio das pernas, essa coisa que quando pega ritmo me faz esquecer de arrumar tanto a mim e à casa, os intervalos de morte que nos impulsionam pra gastar o sangue arredondando nossos cantinhos.