Blog feito para compartilhar todos os textos da escritora Tati Bernardi, que excluira alguns de seu site. Todos os textos postados aqui são de autoria dela, então, por favor, se for colar em algum lugar, dê seus devidos créditos. Não estou aqui para plagiar ninguém.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
A festa
Na sala a dupla mais improvável do mundo discutia Deus. Ele que não acreditava em quem não acreditava. Ela que a vida era um milagre divino, apesar de não existir divino. Na varanda alguém falava sobre mulheres que ejaculam. Menos de dois metros e o mundo vai de Deus a mulheres que ejaculam. E você quer o quê? Passar impune pela loucura? Quase que vai uma página do Grande Sertão pra enrolar fumo. Ce não vai ler isso tudo mesmo que eu te conheço. Depois da quinta mancha de vinho no tapete levei uma descarga tão forte na boca do estômago que foi como se tivesse me curado pra sempre de controlar tudo. Vai vinho, mancha tudo. Vai pedaço de pão esmigalhado por pisantes dançantes. Que as cinzas maltratem minha rinite nervosa até eu nunca mais ter rinite nervosa. Cansei da minha rinite nervosa. Sujeirinhas pra debaixo de tudo. Nunca mais minha casa seria limpa novamente. E eu nem quero. Eu não quero mais meu aparelho de dentes embaixo do travesseiro, pra evitar que eu me morda. Não quero mais tremer por causa do remédio pra evitar que eu trema. Não quero mais esse monte de caroço nervoso na nuca me avisando que não dou conta do que penso. Meu corpo é menor do que minha imaginação. Não quero mais ter um peso que não me serve pra nada. Só pra destruir ossos e histórias. Eu quero manchas de vinho e pedaços esmigalhados e, principalmente, usar o tempo pra celebrar tudo o que eu não entendo. Ao invés de fritar até ganhar alguma coisa. O que se ganha tentando competir com uma cara que não existe? Não quero mais tentar ser vomitada pelo monstro o tempo todo. Prefiro o quentinho de ser engolida. Sou minúscula. Prefiro ser filha do mistério do que uma mãe lutando pra controlar um filho gigante e livre e longe. Meu apartamento de 40 metros mal conforta meu ego e eram ao todo onze pessoas espalhadas pela casa. Tinha pipoca na pia e maço de cigarro dentro do microondas. Era uma sexta idiota e foi chegando um a um. Cada um querendo morrer ao seu modo. Todos cansados por pensar nisso só por um milésimo de segundo porque, afinal, é todo mundo muito normal aqui. E ser normal, pra quem luta diariamente pra isso, é algo a ser comemorado não pensando nisso. Uns fumam, outros enchem a cara, alguns vão de regulador de humor, outros comem beiradas de dedo. Eu tenho meu aparelho embaixo do travesseiro. Pro cachorro que mora no céu da minha boca não me devorar. Todos ao seu modo, juntos, pra modo nenhum. O coletivo do saco cheio tentando ter alguma vontade. O povo esfolado por brigar tanto com a vida, finalmente derrotado, dançando. Como um velório de certezas. Como uma entrega de corpos descontrolados. Uma dança da chuva pro seco do mundo. Não sabemos mesmo, então vamos dançar. Dai chegou a amiga japonesa da amiga loira da amiga antiga do amigo do meu melhor amigo. Muita gente nem tinha assunto. Eu nem gosto muito da pessoa que cedeu as batatas da perna para meus pés gelados. As pipocas não vão ficar muito tempo embaixo do sofá. É preciso não aumentar mais o som porque o interfone já avisou três vezes que vão chamar a polícia. Todo mundo vai embora. Talvez eu passe mal porque misturei vinho com ansiolítico e remédio pra dor de cabeça e magnésia bisurada e Listerine e uma saliva que não me conta nada. Talvez eu não consiga ter prazer hoje porque já acabou o efeito e já não tô mais aqui. Eu tô no amanhã cedo, limpando a casa, olhando a agenda de novo e, só pra tentar contar do meu jeito e me assustar menos, escrevendo um texto. Vai começar tudo de novo.
Chuva
Eu nunca tinha visto uma chuva tão forte. Não eram gotas, era como se o mundo tivesse desabando em água. Era como estar embaixo de uma cachoeira do tamanho de uma cidade. Todos os bancos e lojas da Paulista tinham sua própria fonte, já que os bueiros não suportavam mais a água e esguichavam pra fora. Tive que, por duas vezes, jogar meu carro em cima da calçada, porque a água em alguns pontos estava atingindo quase um metro de altura. Era impossível não pensar no 2012, por mais que eu ache esse papo maluco e chato.
Por causa do trânsito parado, só restavam às pessoas assustadas dentro de seus carros, olhar para as pessoas muito mais assustadas que não estavam dentro de lugar algum. Homens achando graça de dentro de padarias. A típica risada nervosa de quem se culpa por não poder e no fundo nem querer ajudar os outros. Quase carecas protegendo a cabeça com pastas, ao saltar de táxis para suas reuniões (e quem é que pensa em dinheiro quando o mundo pode acabar? Sempre tem alguém que pensa). Pessoas saltando de ônibus e correndo desesperadas. Crianças chorando. Mães carregando filhos já grandes no colo. Mocinhas encharcadas falando ao celular, como se desse pra pedir delivery de tempo bom. Gordinhos correndo como podiam, como dava, causando um misto de vontade de rir e raiva na gente. Não sei explicar a raiva.
Até que uma mulher começou a atravessar o farol na minha frente. Bem devagar pra não cair. A água estava quase nos joelhos dela. Ela olhou séria pra mim, me informando que, caso o farol abrisse, que eu esperasse o final vagaroso de sua travessia porque assim ela queria e, porque sofria tanto, queria do tamanho do mundo. E todo mundo respeitou em silêncio. Fascinado por ela que, sem cara de nojo, atravessava os esgotos da Paulista de chinelinho dourado. Tenho certeza que qualquer doença imunda ficou com medo dos seus pés. Ela usava uma camisa branca que já estava colada no seu corpo. Mas a sem-vergonhice também tinha medo dela. Tanto que não dava pra ver nada. Ou nem pensamos nisso. Com a mão esquerda ela carregava uma bolsa de camurça fajuta toda manchada pela chuva. Com a direita ela tirava uma franja lateral que insistia em cair nos olhos. Bem devagar pra não perder os chinelos dourados ou pra não cair ou, simplesmente, porque não adiantava mais ter nada a não ser essa coisa que, apesar de tudo, nos leva vivos pra casa. Era isso, o mundo que não se controla. A ordem caótica que, de repente, vira apenas caos e pensamos “como é que tinha ordem antes mesmo?”. E ganha quem tem mais desespero no peito. E o dela era tão enorme que a enchia da adrenalina da paz. O ponto máximo do pânico. Se movia como uma iogue. Como crescem as árvores. Era a natureza vencendo do outro lado do rio. Era sobrevivência pura sobrando depois de todos os estágios de socialização. Motoristas de ônibus, se pudessem ou soubessem, teriam assoviado algo bem clássico e feminino pra ela. Ou uma dessas músicas que se compunha para heróis de guerra. Ou esposas de reis. Se ela chegasse do outro lado da avenida Paulista, filhos continuariam nascendo, Natais continuariam sendo celebrados e pães quentinhos continuariam saindo nas primeiras fornadas do dia. Vamos, mulher.
Vamos, minha filha, você não tem a menor ideia de que porra estamos fazendo aqui. Se dói tanto amar, porque continuamos. Se dá tanta solidão pagar contas e impostos, porque continuamos. Se as relações são feitas também de tanta maldade, por quê? Se arranhamos e beliscamos tanto só pra tocar alguém. Se o corpo dói só porque não aceitamos pedir carinho. Mas é preciso se entregar em casa. Depois se pensa a respeito ou, com muita sorte, o cansaço vence querer entender tudo.
E ela chegou do outro lado depois do farol ter aberto e fechado duas vezes. Continuamos olhando pra ela até que as buzinas começaram.
Senti que poderia oferecer uma carona, mas preferi pensar que se ela conseguisse, sozinha e com medo e com frio e com a raiva sempre apaziguada pela sua própria força, eu também ia conseguir.
Por causa do trânsito parado, só restavam às pessoas assustadas dentro de seus carros, olhar para as pessoas muito mais assustadas que não estavam dentro de lugar algum. Homens achando graça de dentro de padarias. A típica risada nervosa de quem se culpa por não poder e no fundo nem querer ajudar os outros. Quase carecas protegendo a cabeça com pastas, ao saltar de táxis para suas reuniões (e quem é que pensa em dinheiro quando o mundo pode acabar? Sempre tem alguém que pensa). Pessoas saltando de ônibus e correndo desesperadas. Crianças chorando. Mães carregando filhos já grandes no colo. Mocinhas encharcadas falando ao celular, como se desse pra pedir delivery de tempo bom. Gordinhos correndo como podiam, como dava, causando um misto de vontade de rir e raiva na gente. Não sei explicar a raiva.
Até que uma mulher começou a atravessar o farol na minha frente. Bem devagar pra não cair. A água estava quase nos joelhos dela. Ela olhou séria pra mim, me informando que, caso o farol abrisse, que eu esperasse o final vagaroso de sua travessia porque assim ela queria e, porque sofria tanto, queria do tamanho do mundo. E todo mundo respeitou em silêncio. Fascinado por ela que, sem cara de nojo, atravessava os esgotos da Paulista de chinelinho dourado. Tenho certeza que qualquer doença imunda ficou com medo dos seus pés. Ela usava uma camisa branca que já estava colada no seu corpo. Mas a sem-vergonhice também tinha medo dela. Tanto que não dava pra ver nada. Ou nem pensamos nisso. Com a mão esquerda ela carregava uma bolsa de camurça fajuta toda manchada pela chuva. Com a direita ela tirava uma franja lateral que insistia em cair nos olhos. Bem devagar pra não perder os chinelos dourados ou pra não cair ou, simplesmente, porque não adiantava mais ter nada a não ser essa coisa que, apesar de tudo, nos leva vivos pra casa. Era isso, o mundo que não se controla. A ordem caótica que, de repente, vira apenas caos e pensamos “como é que tinha ordem antes mesmo?”. E ganha quem tem mais desespero no peito. E o dela era tão enorme que a enchia da adrenalina da paz. O ponto máximo do pânico. Se movia como uma iogue. Como crescem as árvores. Era a natureza vencendo do outro lado do rio. Era sobrevivência pura sobrando depois de todos os estágios de socialização. Motoristas de ônibus, se pudessem ou soubessem, teriam assoviado algo bem clássico e feminino pra ela. Ou uma dessas músicas que se compunha para heróis de guerra. Ou esposas de reis. Se ela chegasse do outro lado da avenida Paulista, filhos continuariam nascendo, Natais continuariam sendo celebrados e pães quentinhos continuariam saindo nas primeiras fornadas do dia. Vamos, mulher.
Vamos, minha filha, você não tem a menor ideia de que porra estamos fazendo aqui. Se dói tanto amar, porque continuamos. Se dá tanta solidão pagar contas e impostos, porque continuamos. Se as relações são feitas também de tanta maldade, por quê? Se arranhamos e beliscamos tanto só pra tocar alguém. Se o corpo dói só porque não aceitamos pedir carinho. Mas é preciso se entregar em casa. Depois se pensa a respeito ou, com muita sorte, o cansaço vence querer entender tudo.
E ela chegou do outro lado depois do farol ter aberto e fechado duas vezes. Continuamos olhando pra ela até que as buzinas começaram.
Senti que poderia oferecer uma carona, mas preferi pensar que se ela conseguisse, sozinha e com medo e com frio e com a raiva sempre apaziguada pela sua própria força, eu também ia conseguir.
Cachorro
Tanto esforço pra andar ereta. Os remédios que refilam minhas gorduras, deixando esse quadradinho que encaixa em todo lugar. Minha bolha pronta pra sair rolando de tudo, agora mutilada. Tanto esforço pra caber nos lugares, um canto no mundo, uma missão na terra, um pedaço de sofá de festa de amigo, uma rebarba de coração alheio, um resto de cama. Tanto esforço para ter dos outros uma água no chão, uma casinha na varanda. Tanto esforço para ser o melhor amigo do homem. Para não ser animal e apenas um humano sociável, ou seja: cachorro dos outros. Permanecer, o mais insustentável dos verbos; e eu dopada, achando que consigo.
Até que, mesmo embaixo da nova química, da avalanche de gente me ensinando a viver, do calhamaço de papel me implorando que eu volte a pagar a fazer e a querer ter algo. Até que ouve-se um latido que começa baixinho. Ainda morde com dentes sem ponta. Arranha com unhas dobráveis. Mas daqui a pouco a natureza vence toda essa merda. E eu vou voltar a correr interesseira pelas ruas atrás de carne e postes e gatos e pernas pra trepar. Com laço e tosa pra disfarçar a feiúra de não suportar isso que todo mundo chama de “saber levar o dia”. Ao menos voltou a latejar o bicho, a única coisa que me cura de ter tanto medo de não ser um humano exemplar. Aos poucos ele me mostra como é fácil só respirar e ter fome e dormir e extravasar e ter raiva e abaixar o rabo quando vale a pena. Só isso. A simplicidade de existir, sem precisar super existir. E ter faro ao invés de desejo. E ter necessidade ao invés de angústia. E uivar ao invés de colocar o remédio embaixo da língua pra dor passar antes do meu cérebro virar um ovo frito. E poder andar de quatro sem a humilhação de não parecer acima das pessoas que me parecem tão inferiores. E não precisar arrumar desculpa para, de repente, cagar em tudo ou dar um tempo longe dali. O cachorro esfaqueado, derretido, empalhado, a massinha de cachorro dentro de uma caixa. A caixa que vai na reunião e sorri. A caixa que paga tantas contas. A caixa que mora e frequenta e tem e compartilha e sustenta e fica. Verbos transformados em substantivos por causa da evolução dos atos. A essência transformada em dureza pra durar mais e eu só querendo, sempre, ir embora logo. Ar, er, ir. Ser no infinitivo, com a brevidade de uma raiz, com a profundidade de um instante. Tirar a coleira que tanta dor me dá no pescoço. E correr num parque atrás de algum brinquedo ou cu alheio. E me roçar nos mijos das paredes dos prédios dos bairros. Qualquer coisa menos precisar tanto parecer uma mulher bem sucedida, trinta e poucos, apartamento próprio, família equilibrada, corpo em ordem, um amor para dormir embaixo das estrelas, uma vagina depilada e feliz, o cabelo das famosas, o cheiro da moda, a última notícia, o plano dos filhos para logo mais, os rendimentos milimetricamente estudados, os jantares com os casais que riem tanto mas preferem nunca tocar nessa coisa que aterroriza todo mundo, os almoços com quem pode me ajudar na roda social, os ciúmes bem escondidos, as dúvidas bem superadas, a desgraça bem disfarçada, o ódio transformado em “deixa pra lá, afinal, triste é ser só”. E sorrir, e salto alto, e jogo de cintura e acordar meia hora antes pra maquiar meu cinza.
Mas ele desperta preguiçoso, arrasta uma remela com a pata suja, lambe o próprio pau como os animais de estimação que odeiam a domesticação mas adoram a mordomia. E olha pra mim, sério e sábio e puro e apenas bicho. E eu escuto: seu erro é usar a única força que te mantém viva pra fazer teatrinho de gente.
Até que, mesmo embaixo da nova química, da avalanche de gente me ensinando a viver, do calhamaço de papel me implorando que eu volte a pagar a fazer e a querer ter algo. Até que ouve-se um latido que começa baixinho. Ainda morde com dentes sem ponta. Arranha com unhas dobráveis. Mas daqui a pouco a natureza vence toda essa merda. E eu vou voltar a correr interesseira pelas ruas atrás de carne e postes e gatos e pernas pra trepar. Com laço e tosa pra disfarçar a feiúra de não suportar isso que todo mundo chama de “saber levar o dia”. Ao menos voltou a latejar o bicho, a única coisa que me cura de ter tanto medo de não ser um humano exemplar. Aos poucos ele me mostra como é fácil só respirar e ter fome e dormir e extravasar e ter raiva e abaixar o rabo quando vale a pena. Só isso. A simplicidade de existir, sem precisar super existir. E ter faro ao invés de desejo. E ter necessidade ao invés de angústia. E uivar ao invés de colocar o remédio embaixo da língua pra dor passar antes do meu cérebro virar um ovo frito. E poder andar de quatro sem a humilhação de não parecer acima das pessoas que me parecem tão inferiores. E não precisar arrumar desculpa para, de repente, cagar em tudo ou dar um tempo longe dali. O cachorro esfaqueado, derretido, empalhado, a massinha de cachorro dentro de uma caixa. A caixa que vai na reunião e sorri. A caixa que paga tantas contas. A caixa que mora e frequenta e tem e compartilha e sustenta e fica. Verbos transformados em substantivos por causa da evolução dos atos. A essência transformada em dureza pra durar mais e eu só querendo, sempre, ir embora logo. Ar, er, ir. Ser no infinitivo, com a brevidade de uma raiz, com a profundidade de um instante. Tirar a coleira que tanta dor me dá no pescoço. E correr num parque atrás de algum brinquedo ou cu alheio. E me roçar nos mijos das paredes dos prédios dos bairros. Qualquer coisa menos precisar tanto parecer uma mulher bem sucedida, trinta e poucos, apartamento próprio, família equilibrada, corpo em ordem, um amor para dormir embaixo das estrelas, uma vagina depilada e feliz, o cabelo das famosas, o cheiro da moda, a última notícia, o plano dos filhos para logo mais, os rendimentos milimetricamente estudados, os jantares com os casais que riem tanto mas preferem nunca tocar nessa coisa que aterroriza todo mundo, os almoços com quem pode me ajudar na roda social, os ciúmes bem escondidos, as dúvidas bem superadas, a desgraça bem disfarçada, o ódio transformado em “deixa pra lá, afinal, triste é ser só”. E sorrir, e salto alto, e jogo de cintura e acordar meia hora antes pra maquiar meu cinza.
Mas ele desperta preguiçoso, arrasta uma remela com a pata suja, lambe o próprio pau como os animais de estimação que odeiam a domesticação mas adoram a mordomia. E olha pra mim, sério e sábio e puro e apenas bicho. E eu escuto: seu erro é usar a única força que te mantém viva pra fazer teatrinho de gente.
Música
As pessoas seguram uma risada quase de pena. Mas se ele nem morava aqui, mas se ele não ficou mais do que uma semana com você, mas se já faz tempo que ele se foi, sem nunca ter sido.
Então o quê? Nem eu sei. Mas sei da minha enxaqueca que já dura uma semana. Latejando sem parar. O coração que subiu nos meus ouvidos. Gritando que sente falta e pronto.
Eu sinto falta de ligar o celular, depois do avião aterrissar, e ter uma mensagem sua dizendo que vai dar tudo certo. E sorrir mesmo estando numa fila gigantesca para o táxi, embaixo daqueles 78 graus do Rio de Janeiro. Não tem poesia nem palavra difícil e nem construção sofisticada. O amor é simples como sorrir numa droga de fila. E não se sentir mais sozinho e nem esperando e nem desesperado e nem morrendo e nem com tanto medo.
Eu sinto falta de querer fazer amigos em qualquer festa, só pra conhecer gente estranha e te contar depois. Agora, eu fico pelos cantos das festas. Voltei a achar todo mundo feio e bobo e sem nada a dizer. Porque eu acho que estava gostando mais das pessoas só porque te via em tudo. Agora as pessoas voltaram a me irritar. E eu voltei a ter que fazer muita força pra sair de casa.
Quando alguém não entende o meu amor, eu lembro daquele dia que você não queria tocar violão pra mim. Até que dedilhou reclamando que não era o seu violão. Daí tentou uma música conhecida. Tentou uma menos conhecida. Daí tocou uma sua, com a voz baixinha e olhando pro nada. E então me encarou e cantou com a voz alta. E então largou o violão, me encarou e cantou bem alto a sua dor, de pé, na minha frente, e eu achei que meu peito ia explodir. E ri achando que você ia sair correndo e dar um show na padoca da frente. E naquele momento eu pensei que poderíamos ser infinitos se fossemos música. E isso explica tudo, mas ninguém entende. Você entende. Mas cadê você?
Quando vai dando assim, tipo umas onze da noite, o horário que a gente se procurava só pra saber que dá pra terminar o dia sentindo algum conforto. Quando vai chegando esse horário, eu nem sei. É tão estranho ter algo pra fugir de tudo e, de repente, precisar principalmente fugir desse algo.
E daí se vai pra onde?
Então o quê? Nem eu sei. Mas sei da minha enxaqueca que já dura uma semana. Latejando sem parar. O coração que subiu nos meus ouvidos. Gritando que sente falta e pronto.
Eu sinto falta de ligar o celular, depois do avião aterrissar, e ter uma mensagem sua dizendo que vai dar tudo certo. E sorrir mesmo estando numa fila gigantesca para o táxi, embaixo daqueles 78 graus do Rio de Janeiro. Não tem poesia nem palavra difícil e nem construção sofisticada. O amor é simples como sorrir numa droga de fila. E não se sentir mais sozinho e nem esperando e nem desesperado e nem morrendo e nem com tanto medo.
Eu sinto falta de querer fazer amigos em qualquer festa, só pra conhecer gente estranha e te contar depois. Agora, eu fico pelos cantos das festas. Voltei a achar todo mundo feio e bobo e sem nada a dizer. Porque eu acho que estava gostando mais das pessoas só porque te via em tudo. Agora as pessoas voltaram a me irritar. E eu voltei a ter que fazer muita força pra sair de casa.
Quando alguém não entende o meu amor, eu lembro daquele dia que você não queria tocar violão pra mim. Até que dedilhou reclamando que não era o seu violão. Daí tentou uma música conhecida. Tentou uma menos conhecida. Daí tocou uma sua, com a voz baixinha e olhando pro nada. E então me encarou e cantou com a voz alta. E então largou o violão, me encarou e cantou bem alto a sua dor, de pé, na minha frente, e eu achei que meu peito ia explodir. E ri achando que você ia sair correndo e dar um show na padoca da frente. E naquele momento eu pensei que poderíamos ser infinitos se fossemos música. E isso explica tudo, mas ninguém entende. Você entende. Mas cadê você?
Quando vai dando assim, tipo umas onze da noite, o horário que a gente se procurava só pra saber que dá pra terminar o dia sentindo algum conforto. Quando vai chegando esse horário, eu nem sei. É tão estranho ter algo pra fugir de tudo e, de repente, precisar principalmente fugir desse algo.
E daí se vai pra onde?
Sala de espera
Hoje eu fui ao ginecologista. Cheguei atrasada, perdi meu horário, esperei uma hora pra ser atendida. A sala de espera estava lotada. Tinha uma perua falando alto com a filha adolescente acima do peso, tinha uma moça com luzes bem grossas e amarelas no cabelo. Tinha uma adolescente cheia de espinha com uniforme e um olhar perdido. Tinha um casal com a filha de uns quatorze anos. O pai arranhando uma maleta de couro. Tinha um cara de terno esperando. Tinha uma mulher grávida sozinha. Tinha uma mulher sozinha e mais velha que eu.
De repente começou um filme na sessão da tarde. A moça prendeu o sapato num bueiro e um homem correu para salvá-la de não ser atropelada por um caminhão de lixo. Eles rolaram por uma avenida movimentada de Nova Iorque e todo mundo sabia o que ia acontecer. Naquele momento, revistas foram deixadas de lado. Celulares. Bolsas. Cantinhos de unha. Salgadinhos de gengiva. Cabelos que deveriam morar atrás de orelhas. Por um segundo, rolamos todos juntos colados na cena. Depois, porque a vida continua, as secretárias atenderam o telefone nos seus últimos gritos. A menina de quatorze anos olhou o pai rapidamente pra depois olhar seus sapatos. A menina de uniforme coçou o nariz nervosa. O homem de terno olhou para a porta do consultório apertando os olhos e estalando os dedos. A perua calou a boca aproveitando a paz do seu próprio silêncio e a filha dela mordeu as costas da mãe direita. A moça das luzes sorriu pra mulher grávida. A mulher grávida pegou um copo de água só pra poder dividir um pouco seu peso com o chão. A mulher sozinha alongou o pescoço fazendo cara de pressa. Eu alisei com a língua o cortinho seco do meu lábio inferior torcendo pro dia acabar logo e eu poder colocar o outro travesseiro no meio das pernas e endireitar minha coluna e dormir com menos dor.
De repente começou um filme na sessão da tarde. A moça prendeu o sapato num bueiro e um homem correu para salvá-la de não ser atropelada por um caminhão de lixo. Eles rolaram por uma avenida movimentada de Nova Iorque e todo mundo sabia o que ia acontecer. Naquele momento, revistas foram deixadas de lado. Celulares. Bolsas. Cantinhos de unha. Salgadinhos de gengiva. Cabelos que deveriam morar atrás de orelhas. Por um segundo, rolamos todos juntos colados na cena. Depois, porque a vida continua, as secretárias atenderam o telefone nos seus últimos gritos. A menina de quatorze anos olhou o pai rapidamente pra depois olhar seus sapatos. A menina de uniforme coçou o nariz nervosa. O homem de terno olhou para a porta do consultório apertando os olhos e estalando os dedos. A perua calou a boca aproveitando a paz do seu próprio silêncio e a filha dela mordeu as costas da mãe direita. A moça das luzes sorriu pra mulher grávida. A mulher grávida pegou um copo de água só pra poder dividir um pouco seu peso com o chão. A mulher sozinha alongou o pescoço fazendo cara de pressa. Eu alisei com a língua o cortinho seco do meu lábio inferior torcendo pro dia acabar logo e eu poder colocar o outro travesseiro no meio das pernas e endireitar minha coluna e dormir com menos dor.
Todas as paroxetinas são acentuadas
Um mês de antidepressivo e volto ao consultório da psiquiatra. Preciso contar o que mudou. Bom, antes, quando fechavam a porta do avião, eu pensava “quando eu vou começar a morrer?” e agora eu penso “quando é que vão servir o lanchinho de pernil vencido?”. É, substituir a morte por um lanche por apenas 48 reais a caixinha com 10 comprimidos de 20 mg me parece bem interessante. Acho que estou bem.
Ela tinha avisado que eu sentiria fome, só não imaginei que seria de meia em meia hora. Só nunca me imaginei comendo banana com pão de queijo às quatros da manhã. E pior: com gemidos musicalizados. Do tipo: cara, como a vida é boa.
Acho que tô bem. Quando o trânsito para eu não penso mais que meu miocárdio vai explodir junto com uma veia da testa e eu, tão bonitinha, vou me dissipar pelo mundo entre tripas, bostas e sangues. Penso apenas “hmmm, olha só, se o trânsito não tivesse parado, eu não teria visto que abriu uma franquia do “amor aos pedaços” nessa avenida. Hmmmmm.
Acho que tô bem. Não me mordo mais dormindo, tensa, tipo “de onde viemos e para onde vamos” ou pior “se Deus não existe, como faz?”. Eu acordo pra morder, quer dizer, comer. E Deus deve existir, caso contrário, não existiria a banana com pão de queijo às quatro da manhã. E eu não sei de onde eu vim, mas iria fácil, agora, a uma pizzaria.
Eu acho que estou bem. Não tenho mais pânico de atravessar a rua, de lugar fechado, de compromisso, de túnel, de trovão, de ficar doente, de cair dura, de enfartar, de calor. Mas, pra falar a verdade, tá me dando muita fome e eu queria ir embora agora. Eu tô bem. Tá tudo bem. Ah, sim, a receita, obrigada. Hmmmm receita! Vou pedir pra minha mãe fazer aquele bolo de…Voltar daqui um mês? Claro, se eu ainda passar pela porta.
Ela tinha avisado que eu sentiria fome, só não imaginei que seria de meia em meia hora. Só nunca me imaginei comendo banana com pão de queijo às quatros da manhã. E pior: com gemidos musicalizados. Do tipo: cara, como a vida é boa.
Acho que tô bem. Quando o trânsito para eu não penso mais que meu miocárdio vai explodir junto com uma veia da testa e eu, tão bonitinha, vou me dissipar pelo mundo entre tripas, bostas e sangues. Penso apenas “hmmm, olha só, se o trânsito não tivesse parado, eu não teria visto que abriu uma franquia do “amor aos pedaços” nessa avenida. Hmmmmm.
Acho que tô bem. Não me mordo mais dormindo, tensa, tipo “de onde viemos e para onde vamos” ou pior “se Deus não existe, como faz?”. Eu acordo pra morder, quer dizer, comer. E Deus deve existir, caso contrário, não existiria a banana com pão de queijo às quatro da manhã. E eu não sei de onde eu vim, mas iria fácil, agora, a uma pizzaria.
Eu acho que estou bem. Não tenho mais pânico de atravessar a rua, de lugar fechado, de compromisso, de túnel, de trovão, de ficar doente, de cair dura, de enfartar, de calor. Mas, pra falar a verdade, tá me dando muita fome e eu queria ir embora agora. Eu tô bem. Tá tudo bem. Ah, sim, a receita, obrigada. Hmmmm receita! Vou pedir pra minha mãe fazer aquele bolo de…Voltar daqui um mês? Claro, se eu ainda passar pela porta.
Parada
Eu vivo no banheiro da estação molhando a nuca quando está calor. No meio de centenas de esperas que não são minhas mas me esquentam. A moça que vende bilhetes é minha mãe. O cara da catraca meu amor. Sempre muda o cara da catraca. Mas eles se parecem justamente porque sempre mudam e porque são apenas o cara da catraca. Meu pai vende coisas coloridas de brincar e de sujar a língua aqui em frente e as crianças se distraem e sobrevivem. Meus amigos são os do vagão de antes e de depois. Os mais amigos, agora, são sempre os que acabaram de chegar. Tem gente feia, gente bonita, gente assustada, gente com sono, gente no meio de gente. Eu só olho e tento tocar nessas sensações, mas nunca sou exatamente nenhuma delas porque há muitos anos eu não tinha tamanho para ser e assim acostumei.
Eu olho sempre pro relógio gigante que fica bem no centro do meu quarto. E sei que todo dia ele passa, sempre às cinco da tarde. O trem pra sempre. Eu corro junto, ao lado, por um tempo, mas canso já morrendo de rir. E fico feliz que não foi dessa vez. E fico feliz de ter chegado perto. Já senti como é o cheiro de dentro. Já experimentei sentar na janelinha com ele parado. Já me imaginei embaixo, esmagada. Em cima, surfando antes de pegar fogo. Sei todos os ângulos de ir, mas vivo no lugar de quem fica.
Estou na estação há tanto tempo. E sempre tem gente chegando e indo. E sempre tem amor e bala e dinheiro e cama e água e fins de tarde bonitos e brinquedos e catracas com a segurança de uma novidade de sempre. Em alguns momentos fica o equilíbrio terrível de nunca ir. Fica a dor terrível de todo mundo que foi. Fica a ansiedade terrível de todo mundo que tem pra chegar. Agora. Agora. A cada volta de uma piscada eu tenho minha esperança renovada. Mas nenhum desses silêncios chega perto do som que é viver ouvindo o mundo se locomovendo enquanto só tento enxergar de olhos bem abertos sem me mexer. Estar no centro do barulho nunca foi realmente uma solidão. A troca é tão bonita porque sorrio achando todos tão corajosos com seus ternos e pastas e pressas e chegadas e “que mais”. E eles sorriem de volta, me achando corajosa também em ficar. E só olhar. E poder amar esse trecho de vida deles ainda mais do que eles próprios que nem se percebem em trechos.
Eu vivo na estação porque peguei carinho pelas placas e sujeiras e as faxineiras cedinho tirando os estragos do mundo na minha casa de passagem. Acho tão bonita a sensação de estar no único lugar onde se pode estar com todos e esperar por mais um trecho de todos. Sei que não escolho nada, não sigo com ninguém, não conheço outras idades e lugares e gastrites e ventos.
Eu sou uma estação, é isso. Assim não dói além porque eu sei, desde o começo, que sou passagem. Então, vão, mas logo apita de novo. E é sempre movimentado, mesmo quando apagam as luzes e a vida dos outros descansa da minha parada. Existe o movimento que fica atrasado no ar e durmo embalada por tanta coisa que quase parece coragem.
Até que hoje, não sei se porque enjoei dessa casa da infância, não sei se porque às vezes o amor é mesmo mais forte que mil anos de segurança. Eu pisei tremendo na escada e o homem da catraca era tão diferente de todo mundo e, pela primeira vez, as placas e mulheres do caixa e bilhetes e pessoas e brinquedos coloridos e apitos e fins de tarde e moças da limpeza. Ninguém tentou me agarrar porque era como se o mundo dissesse “acho que são cinco da tarde e uma hora você precisa ser mulher”. E eu pedi socorro. Eu não sei sair daqui mas quero ir com você. Eu tenho cinco anos de idade mas quero ir com você. Tudo me dói tanto e eu tenho tanto medo mas tudo bem, vamos lá. Na próxima parada só me lembra que é bom eu fazer xixi e comer alguma coisa porque tô te achando tão bonito que talvez eu esqueça.
Eu olho sempre pro relógio gigante que fica bem no centro do meu quarto. E sei que todo dia ele passa, sempre às cinco da tarde. O trem pra sempre. Eu corro junto, ao lado, por um tempo, mas canso já morrendo de rir. E fico feliz que não foi dessa vez. E fico feliz de ter chegado perto. Já senti como é o cheiro de dentro. Já experimentei sentar na janelinha com ele parado. Já me imaginei embaixo, esmagada. Em cima, surfando antes de pegar fogo. Sei todos os ângulos de ir, mas vivo no lugar de quem fica.
Estou na estação há tanto tempo. E sempre tem gente chegando e indo. E sempre tem amor e bala e dinheiro e cama e água e fins de tarde bonitos e brinquedos e catracas com a segurança de uma novidade de sempre. Em alguns momentos fica o equilíbrio terrível de nunca ir. Fica a dor terrível de todo mundo que foi. Fica a ansiedade terrível de todo mundo que tem pra chegar. Agora. Agora. A cada volta de uma piscada eu tenho minha esperança renovada. Mas nenhum desses silêncios chega perto do som que é viver ouvindo o mundo se locomovendo enquanto só tento enxergar de olhos bem abertos sem me mexer. Estar no centro do barulho nunca foi realmente uma solidão. A troca é tão bonita porque sorrio achando todos tão corajosos com seus ternos e pastas e pressas e chegadas e “que mais”. E eles sorriem de volta, me achando corajosa também em ficar. E só olhar. E poder amar esse trecho de vida deles ainda mais do que eles próprios que nem se percebem em trechos.
Eu vivo na estação porque peguei carinho pelas placas e sujeiras e as faxineiras cedinho tirando os estragos do mundo na minha casa de passagem. Acho tão bonita a sensação de estar no único lugar onde se pode estar com todos e esperar por mais um trecho de todos. Sei que não escolho nada, não sigo com ninguém, não conheço outras idades e lugares e gastrites e ventos.
Eu sou uma estação, é isso. Assim não dói além porque eu sei, desde o começo, que sou passagem. Então, vão, mas logo apita de novo. E é sempre movimentado, mesmo quando apagam as luzes e a vida dos outros descansa da minha parada. Existe o movimento que fica atrasado no ar e durmo embalada por tanta coisa que quase parece coragem.
Até que hoje, não sei se porque enjoei dessa casa da infância, não sei se porque às vezes o amor é mesmo mais forte que mil anos de segurança. Eu pisei tremendo na escada e o homem da catraca era tão diferente de todo mundo e, pela primeira vez, as placas e mulheres do caixa e bilhetes e pessoas e brinquedos coloridos e apitos e fins de tarde e moças da limpeza. Ninguém tentou me agarrar porque era como se o mundo dissesse “acho que são cinco da tarde e uma hora você precisa ser mulher”. E eu pedi socorro. Eu não sei sair daqui mas quero ir com você. Eu tenho cinco anos de idade mas quero ir com você. Tudo me dói tanto e eu tenho tanto medo mas tudo bem, vamos lá. Na próxima parada só me lembra que é bom eu fazer xixi e comer alguma coisa porque tô te achando tão bonito que talvez eu esqueça.
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