quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Eu não sei voar

Ela pisou sem dó no meu meio sorriso, fazendo ele virar um pavor inteiro e verdadeiro.
Eu canso dos meus meio sorrisos tanto, tanto, que prefiro que a vida seja assim mesmo. E aí me pergunto se chorei de tristeza profunda ou alegria libertadora, o que acaba dando no mesmo porque minha profundidade me liberta.
A barata preta, enorme e voadora posou no canto da minha boca. E eu pude chorar todos os meus medos no seu sofá e eu pude ficar curvada do jeito que a minha sombra, que só eu vejo, é. E eu pude borrar todos os meus disfarces e ficar feia sem culpa, porque a dor consegue ser sempre maior do que qualquer culpa, por isso o meu vício em sofrer.
Eu chorei a nossa imperfeição, eu chorei a saudade enganada da nossa perfeição, eu chorei a nossa necessidade de não se largar, eu chorei a nossa necessidade de se largar, a nossa necessidade de fugir do mundo em nós e a nossa necessidade de fugir de nós encontrando amigos.
Eu chorei o nosso ego que sempre tem respostas para tudo e não pode perder, chorei o nosso silêncio cansado de perguntas e desprovido de interesses, a pobreza do mundo que nos impossibilita de sermos felizes sem culpa, a falta de simplicidade que eu tenho para ser feliz e eu chorei o espaço da nossa alma que ainda falta evoluir.
Eu chorei o nosso medo de não sermos o que sonhamos. Eu chorei o medo que eu tenho de não ser quem você quer e o medo que eu tenho de ser exatamente o que você quer.
Eu chorei porque precisava de colo, porque precisava te mostrar a minha fragilidade escondida no meu mau-humor. Eu chorei de birra do meu lado homem.
Eu chorei porque vez ou outra ele ainda bate na minha porta e eu o deixo entrar, e eu sei que isso é medo do tanto que você habita todos os lugares.
Eu chorei porque eu te amo mas eu não sei amar. Eu chorei porque eu sempre canso de tudo e tudo sempre cansa de mim. Chorei de cansaço profundo de sempre cansar de tudo e tudo sempre cansar de mim. Chorei de apego ao cheiro do novo e principalmente de melancolia pelo cheiro do velho. E chorei porque tudo envelhece com novos cheiros e a vida nunca volta. Eu chorei de pavor da rotina, de pavor do fim, de pavor de sair da rotina e começar outros fins.
Eu chorei meu medo de submissão, o meu medo de vomitar, o meu medo de me mostrar pra você tanto, tanto, e não ter mais o que mostrar. Eu chorei minha infinidade de coisas e o medo de você não querer abrir os mais de um milhão de baús que existem escondidos na caixa cerrada que eu guardo embaixo do meu peito. Eu chorei meu fim e o medo do meu infinito.
E eu teria chorado cinco anos se você não me dissesse que já era hora de parar. E eu chorei depois cinco anos escondida, porque eu não sei a hora de parar e não quero que ninguém me diga.
Aliás, eu quero sim. Eu quero que você me diga quando for a hora de parar, de continuar e de não pensar em nada disso.
Eu quero que você me acorde com uma lista de horas e outras lista de anos e outra lista de encarnações. Eu quero que você me dê a mão e me ensine o que é um relacionamento porque eu só sei andar de quatro, cheirando xixis nas ruas e rabos alheios.
Eu quero que você me ensine a ser uma mulher para você.
Ao mesmo tempo eu quero que vocë suma porque eu só quero ser uma mulher para mim. Eu me quero só para mim.
Era minha a dor de ser solitariamente para mim. E você a substituiu pela dor de não querer mais ser solitariamente só para mim. Mas tudo é dor afinal, e eu não sei ser leve, eu não sei voar, mas a barata que vôou para o canto da minha boca, sabe.
Eu carrego o esgoto no meu ventre negro, mas não sei voar como ela. Por isso ela ainda consegue ser melhor do que eu.
E com todos os meus poderes para estragar a vida de alguém, eu ainda tenho medo da barata.
Porque ela sabe ser misteriosa, ela sabe incomodar sem abrir a boca, ela sabe enojar o mundo com sua meleca branca sem ter que mostrá-la a ninguém.
Ela é muito mais misteriosa do que eu.
Em comum temos as chineladas do mundo e todos os seres amedrontados que querem acabar com a nossa raça. Mas o poder dela ainda é muito maior do que o meu, porque ela não ama, ela não se sente traída pelas chineladas do mundo.
Ela não sabe o que é não entender nada desse mundo e ter medo do tempo. Ela não sabe o que é ter nas mãos o poder de construir e destruir e ter tanto medo desse poder.
Ela vive no esgoto e não sabe o que é ter tanto medo dele.
Ela aparece sem ser desejada e não sabe o medo que não ser desejada causa.
Ela é uma barata e nunca vai saber o medo que a gente sente de se sentir uma.
E eu chorei tanto que finalmente transformei meu meio canto de boca num bico inteiro. E chorei porque tenho tanto medo de tudo o que é inteiro, que prefiro viver tudo na cabeça, enquanto o corpo relaxa na minha cama, longe de tudo.
Eu deito na minha cama e imagino tudo o que pode acontecer, enquanto não toco de verdade na vida para não cansar demais e depois não ter forças para viver de verdade. Mas acabo dormindo e deixo pra depois.
Mas eu chorei justamente porque descobri que viver na cabeça também é um tipo de coragem, porque eu não protejo a alma de feridas e nem de descanso.
Mas aí ela, preta, imunda, nojenta, indesejada, um pedaço do esgoto, vôa em minha direção e me coloca em movimento. E eu corro pra bem longe e não penso, só corro.
E isso é tão diferente para mim, estar em movimento de fora para dentro, que eu choro de emoção.
Eu não pensei, eu vivi. Eu corri dela, eu vivi o medo. Eu vivi o nojo. E eu chorei de dor de sair da minha bolha interna.
Ela me fez ter vontade de gritar para o mundo nojento para que ele deixe meu coração em paz. Meu coração que quer amar em paz e esquecer que a vida pode ser nojenta.
E eu corri de tudo o que é nojento, e eu chorei porque com tantas coisas lindas me acontecendo, eu precisei de uma barata para me lembrar de sentir a vida fora da minha bolha.
Ela perfurou minha proteção e saiu da minha rotina. Ela invadiu tudo e me lembrou que as coisas podem dar erradas sim, quando se menos espera, e não adianta nada estar com o chinelo preparado na mão para se defender da vida.
A vida voa na sua cara, esbarra no seu rosto, suja sua vaidade, corrompe suas certezas, e você não pode fazer nada. A não ser lavar o rosto e começar tudo de novo

domingo, 31 de outubro de 2010

Eu preciso saber

A recaída de amor acontece como num daqueles pesadelos que se está caindo. De repente você acorda sentado na cama: Meu Deus, eu preciso saber! Mas se eu já estava tão bem há semanas. Volte a dormir, volte a dormir. Você já tinha decidido lembra? Nada a ver com você, chato, bobo, não deu certo. Mas eu preciso saber. Não, não precisa. Pra quê? Vai te machucar. Não! Eu preciso saber. Então levanto da cama.
Facebook, a desgraça em formato de parquinho virtual. Nome dele, aparece a foto azulada e ele de perfil. É tão bonito. Mas não há mais nada que eu possa ver. Nos deletamos mutuamente pra evitar justamente esse tipo de inspecão noturna.
Mas isso não vai ficar assim. Ligo pra nossa amiga em comum. Ela não atende, afinal, são duas da manhã. Mando mensagem "me manda sua senha do Facebook agora ou vou ficar te ligando até amanhã cedo". Ela manda a senha e um palavrão. Acesso. Vamos ver. Eu preciso saber. Eu preciso. Então vejo que ele não posta nada há cinco semanas. Fotos, fotos. A única foto nova é o flyer de uma festa que eu fui e ele não estava. Nada.
Jogo o nome dele no Google. Aparece uma foto dele alcoolizado dando entrevista em uma festa de mídia. Como é lindo. Tento o Twitter mas ele só escreve piada de político. Tento o Facebook, Twitter e blogs de amigos. Está ficando tarde. Se eu tivesse essa mesma concentração e minuciosidade e empenho e energia para o trabalho estaria rica. Estou retesadamente motivada e atenta. Mas não consegui nenhuma informação e eu ainda preciso saber.
São seis da manhã. Estou cansada. Coloco a música de quando você forçou a porta do quarto e entrou. Black Swan. Não sou boa de inglês como você, mas sei que é a história de algo que já começou fodido porque cresceu demais antes da hora, você que pegue um trem e suma daqui. Que bela música pra começar. Ok, agora estou chorando. Lembrei que eu me sentia tão viva com você me olhando bem sério e bem no fundo dos olhos e machucando meu braço. Sim, é definitivamente uma recaída e eu acabo de decidir que te amo mais que tudo no universo e que amanhã, ou hoje, porque já são sete e meia da manhã, vou resolver isso. Agora preciso dormir só um pouquinho.
Volto pra cama. Coração disparado. Não tem posição na cama. O que eu faço? Não tô a fim de ler, não tô a fim de ver TV. Aquelas outras coisas que se faz pra acalmar tô com preguiça agora, minha imaginação está indo toda para traçar um plano para que eu descubra. Descubra o quê? Não sei, mas sei que algo está acontecendo, ou eu não estaria assim. Porque eu sinto quando ele está com alguém, sabe? Eu sinto. Sim! A cartomante!
Ligo pra Zuleide. Você atende hoje? Mas é domingo, Tati! Atende? Só se for por telefone. Tá bom, então joga aí: ele está com alguém? Mas Tati, você quer mesmo saber isso? Quero, mulher. Eu preciso saber. Joga aí: ele está com alguma puta? Tati, eu não posso perguntar isso pras cartas. Pergunta aí: ele tá com alguma piranhuda desgraçada vagabunda vaca dos infernos? Zuleide pede desculpas e desliga. Preciso do Lexapro mas ele acabou há semanas, igual meu amor. E agora, de repente, preciso tanto dos dois novamente.
Você acha que ele está com alguém? Não sei, Tati, eu ainda tô dormindo, posso te ligar mais tarde? Você acha que ele está com alguém? E se estiver, Tati, quer ir ao cinema mais tarde? Você acha que ele está com alguém? Putz, sei lá, homem sempre tá comendo alguém né? Você acha que ele está com alguém? Tati, do jeito que ele gostava de você? Claro que não!
Chega, chega. Preciso me acalmar. Pra que isso? Se ele estiver com alguém agora, e daí? Terminamos não terminamos? Ele e eu não temos nada a ver, certo? Decidimos que era melhor assim, certo? Eu não tava bem com ele e nem ele comigo, certo? Porque era bom e tal. Aliás, meu Deus, como era bom. Mas não era bom pra ficar junto, certo? Então pronto. Chega. Adulta, adulta. Qual o problema se ele estiver agora, justamente agora, lambendo a virilhazinha de alguma desgraçada? Qual o problema? Ok, eu posso morrer. Eu definitivamente posso morrer. Chega, vou acabar com essa palhaçada agora mesmo.
Tomo banho, me visto, pego a bolsa, entro no carro. Considerando que ele não mora em São Paulo, não sei exatamente o que eu pretendo com isso. Mas me faz bem enganar o cérebro e fazer de conta que estou indo atrás da verdade. Na verdade vou só na casa de outro, preciso fazer qualquer coisa que não seja sofrer, mas não consigo. O outro não conhece Black Swan, não ri da história da Zuleide, não me aperta o braço.
Volto pra casa destruída. Sinto tanto amor dentro de mim que posso explodir e bolhas de corações vermelhos atingiriam o Japão. Quase não consigo respirar. Chega, chega. Ligo pra ele. Ele não atende. Ligo de novo. Ele atende falando baixinho. Você está com alguém? Estou. Desligamos. Pronto, agora eu já sei. Depois de um final de semana inteiro de corações palpitantes, músicas, textos, amigos, danças, gritos, sensações, assuntos, choros, dores. Agora eu já sei.
O que eu nunca vou saber é porque faço tudo isso comigo só porque tenho tanto medo do tédio. Era só isso o que eu precisava saber.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Desamor revisitado

Ele chega com uma de suas novas jaquetas chiques e de longe eu vejo aquele cabelinho de banda suja londrina que eu tanto amei, aquela carinha infantil de “olha, cheguei” que eu tanto amei, aquele olhar de timidez tarada que eu tanto amei… e me pergunto: por que amei tanto e não amo mais?
Ele me aperta como sempre, até que algum ossinho da minha coluna estale, e me diz, como sempre também: “Que é que você tem que eu sempre largo tudo e venho te ver?”
Espreguiço para sugerir desinteresse mas meu coração bagunça tanto que tenho um ataque de tosse. Entramos de mãos dadas no cinema, felizes como se tivéssemos acabado de nos conhecer. Ele me olha sem parar, suspira, a cada movimento que eu faço, cada semblante, cada segundo de raciocínio, ele está lá me observando encantado. Faço um esforço pra tentar me lembrar: por que foi mesmo que eu deixei de amar esse homem? Não faço a menor idéia.
O filme é um lixo, master clichê, mas era o único que tinha e tudo bem: ao lado dele tudo fica divertido. A gente brinca de adivinhar as próximas cenas, adivinhamos o filme todo ao som de “shius” que os humanos limitados fazem, inconformados com aquele casal que tenta boicotar um filme tão supimpa.
Sobra pipoca no dente, colamos pipoca na testa, entra pipoca no sutiã. Cada vez que nossas mãos se encontram salgadas, dentro do saco, a gente brinca de se roçar com os dedos como pernas desesperadas.

Antes da gente chegar ao elevador do seu prédio, ele me oferece as costas e eu subo, o porteiro não entende nada, eu berro de longe: “Sou sobrinha dele.” Adoro essa brincadeira e mais uma vez me pergunto: onde eu estava com a cabeça pra deixar de amar esse homem?

Um banheiro é pra escovar o dente, outro é pra tomar banho e o outro é pra fazer cocô, ele explica. Sinto pena dele sozinho naquele apartamento gigante, quase quero ficar ali pra sempre. Ele mostra que tem todas as minhas músicas prediletas (que eu ensinei a ele) no seu iPod última versão, anda esbarrando pela casa em seus milhares de brinquedinhos e insiste para que eu assista a alguns dos seus vídeos caseiros cheios de bobagens. Ele é um super-homem quando a gente precisa e uma criancinha fofa quando a gente também precisa. Meu Deus, agora faço o maior dos esforços do ano: por que cacete deixei de gostar desse cara?

Chocolatinhos, vinho, som ambiente, escurinhos. Ele pára o mundo todo, se ajoelha no sofá deixando as mãos no meu colo: “Você não sabe a saudade que eu senti todo esse tempo.”

Seus olhos se enchem de lágrima, a música se torna instrumental matando qualquer outra palavra, a cidade não respira, o tempo não existe, a solidão é coisa de gente que mora muito longe dali, minha mente aquieta todos os monstros, as mulheres lindas nas capas das revistas são empilhadas descartavelmente e viram nada, a poluição vira oxigênio puro e cor-de-rosa, o outro homem que é dono sem merecer do meu corpo magoado explode no ar deixando apenas estrelas para iluminar meu recomeço, as dúvidas todas do que fazer pelos próximos mil anos se simplificam porque eu só desejo viver aquele momento, sim, sim, sim, eu quero zerar tudo de antes e de depois e amar esse homem agora, como antes, como nunca. Por que não?
Deitada sem forças e coragem para existir, eu quero tomar o banho mais urgente e demorado do mundo.

Ele agora está na sacada, olhando a cidade e coçando o saco, tentando pegar algum recado no celular, querendo marcar alguma coisa com algum amigo, fala alto, os carros buzinam e se xingam lá embaixo, talvez ele deseje mais do que tudo se virar e não me ver mais ali. A vida idiota voltou e me fez lembrar novamente que continuo uma idiota.

Sua enorme sala inteira chora, todas as plantas, todas as luzes apagadas, todos os CDs empilhados, o carpete caro e fofo, os cantos, o teto, o chão, o ar. Os feixes de luz da cidade entram como espada pela janela e guilhotinam qualquer razão, todo mundo está deitado e decapitado comigo. Todos estão sujos, todos estão ultrapassados e velhos, todos choram a intenção de amor que nunca dura.

A exploração do meu corpo me dá uma sensação mundana de morte pobre e simples, nada de espiritual e eterno ronda minha alma neste momento. Seus restos grudam em mim como tudo de ruim que gruda na nossa memória e nos faz viver cheios de medos e traumas.

Ele me observa frio e concluído da sacada, não se preocupa com o meu frio, com o vazio gigante que me toma novamente e me deixa assim, palidamente assustada e infantil. Ele até tem pena, mas me considera demais para ter pena de mim.

Ele anda mais completo, mais solitariamente feliz, mais homem, mais ereto, mais macho. Eu, corcunda, me enrolo na manta, corro para o banheiro como um bicho cagado, me ajoelho no chão do boxe e deixo a água quente me dizer que tudo bem: não é a primeira vez que você se sente tão perdida, usada, burra e sozinha.
Uso o banheiro do cocô para tomar banho, o banheiro do banho para vestir minha roupa que era feliz até duas horas atrás e agora parece escolhida para velar o defunto, e finalmente, o banheiro de escovar os dentes para mirar meus olhos traídos e esquecidos. Peço desculpas não aceitas a mim.

Antes de chegar à minha casa vejo que ele deixou dois chocolatinhos na minha bolsa, arremesso um deles com ódio na valeta da rua, o outro eu como, afinal, é sempre com a metade de tudo que eu fico porque ninguém nessa merda de vida consegue se dar e ser por inteiro.

Agora me lembro porque deixei de amar você, lembro exatamente porque deixei de amar todo mundo. Lembro que mais uma vez deixei de me amar.

Vai, Lemão!

É errado ter um programa idiota na televisão que arrecada mais dinheiro (da audiência, dos intervalos, dos “merchans”…) que qualquer programa educativo, informativo ou sócio-ambiental? É.
É errado pensar que o Zé pode não ter dinheiro suficiente para o arroz, mas gasta lá seu mísero dinheirinho suado numa ligação para votar no BBB 7? Opa se é.
E ficar vendo o alemão ensinar um argentino a falar “posso te encoxar” enquanto o mundo se esvai em violência, caos nos aeroportos e aquecimento? Erradíssimo.
Mas sabe o quê? Por isso é que é tão bom. Porque é errado. Porque está todo mundo com o saco cheio do que é certo. Porque está todo mundo com o saco cheio de ser certo se o mundo é tão errado. Viva o alemão!
Na próxima noite de terça eu não saio de casa nem que o Clive Owen queira me levar ao DOM (tem tv no DOM?). Torcer pelo alemão, ainda que seja óbvia a sua vitória esmagadora, me anima mais que a Copa do Mundo, o Manhattam Connection (o Mainardi não gosta de música!), o novo filme do Woody Allen, a nova Piauí (muita coisa pra ler, né?) ou qualquer visita de um macho alpha de primeiríssima linha (dá pro macho alpha chegar depois que acabar o programa?).
Sim, é errado torcer assim por um bombado com sotaque de paulista “forgado” e que nos presenteou com nada mais, nada menos, que banalidade: a velha fórmula de gostar da mocinha do interior difícil e apenas “usar” a urbaninha que vai lá e faz o que está com vontade de fazer. Ainda assim, terça que vem vou estar colada na tv, torcendo pelo meu querido Diego.
É errado perder tempo com um programa que paga uma torcida falsa, explora a população e em troca não dá nenhum segundo de conteúdo inteligente. Mas eu fico me perguntando, então, o que seria o certo. Continuar aqui lendo o meu Sartre e com vontade de cortar os pulsos? Continuar todas as manhãs lendo o meu jornal e me dizendo em mantra “mundo de merda, mundo de merda, mundo de merda”? Os jovens já morreram por dias melhores, em que os trabalhadores chegariam ao poder. Adiantou? Agora fica essa sensação de que não tem mais nada pra fazer. Aliás, tem: torcer pelo alemão.
Que bom que existe banalidade. Que bom que eu posso ter um dia de merda entre trânsitos, enchentes, ar podre, chefes escrotos, homens fracos, mais notícias de balas perdidas, colegas de trabalho falsos, pagamentos atrasados, trombadinhas de rádio (é o quinto que me roubam em menos de um ano), novas estrias, vizinhos folgados, parentes malucos e… chegar em casa e ver o alemão passando perfume no pinto. O alemão dizendo que vai pegar um por um. O alemão malhando de sunga branca. O alemão dizendo que fez o que o pai dele ensinou. O alemão dormindo de conchinha. Vai lemão!
O Diego exerce em mim o mesmo poder de uma promoção de sapatos. Não é a coisa mais importante da minha vida, é um prazer fugaz, não vai me tornar uma pessoa melhor, mas como me relaxa e me faz feliz naquele curto espaço de tempo. E ser feliz em um curto espaço de tempo já é muita coisa nessa nossa vidazinha chata, não?
Vai Diego! Vai Lemão! Sim, é muito errado torcer para você, mas a vida é errada mesmo. É errada essa casa toda bagunçada e a lasanha fedendo lá na pia suja. É errado ficar recebendo essas visitas aqui, de pessoas que só querem levar pedaços da minha alma, mas não me dão em troca sequer um grãozinho de coração. É errado inventar paixões semanais só para não encarar que tudo ficou sério e adulto e chato pra cacete. É errado ter 345 projetos para entregar amanhã e nenhuma idéia de como começar.
É tudo tão errado. Aqui dentro da minha casa, aqui dentro do meu peito. E lá fora, no mundo, vixi, nem se fala. É tudo tão chato, tão fraco, tão pouco.
Mas o alemão é forte, é engraçado e agora tem um milhão de reais. Ele deu certo! Ele eliminou mal humorado por mal humorado com seu bom humor. Ele pega a mulher que quiser. Ele seduz até os inimigos. Ele deu porrada em alguém lá no Guarujá, mas eu aposto que esse cara que apanhou adora ele. Ele dormia com duas mulheres e isso pegava bem. Inclusive para elas. Ele falou que ia abaixar a calcinha da Carol e ela não mandou ele para o paredão. Preferiu mandar o outro que estava apaixonado por ela, mas jamais o alemão. E sabe qual é a fórmula para o Brasil amar tanto uma pessoa que nem parece brasileira? Ele é feliz.
No fundo, mesmo lendo tanto, pensando tanto e filosofando tanto, a gente gosta mesmo é de quem é simples e feliz. A gente não se apaixona por ninguém que vive reclamando e amassando jornais contra a parede. A gente se apaixona por esses tipinhos banais que vivem rindo. E a gente se pergunta: que é que ele tem que brilha tanto? Que é que ele tem que quando chega ofusca todo o resto? Como é que dá pra ser feliz nesse mundo?
Vence quem passa por essa vida rindo. E se o preço que se paga por ser um pouco feliz é ser um pouco idiota, dane-se. Eu vou ser bem idiota na terça-feira. Se bobear vou até dar uns “dois real” pro Boninho. Tadinho, deve estar precisando. Lemão! Lemão! Lemão! Vai lemãããão!!!!(Mas se um dia ele for trabalhar no Zorra Total nego até a morte que escrevi esse texto em sua defesa.)
 

Paixão não dá jeitinho brasileiro

" Ando de um lado para o outro, minha meia fica suja mesmo a casa estando limpinha. Não sei o que sentir, não sei o que pensar. Vamos! Alguma coisa! Nada e o turbilhão que me dá tanta vida que desisto e fico sem nenhuma. Desabo e choro que é o que resta a fazer. E então, eu escuto o sopro. Ele me explica tudo. E diz que é como os dias de pressão muito alta em que desmaio com a pressão quase a zero. É pra equilibrar o corpo. É pra não explodir. A desistência que se instala tão improvável nada mais é que um respiro pro querer demais não morrer na largada.
E então eu peço uma concessão dentro de mim. Quero resgatar carinhos e larguras de peito. Quero amolecer couros e músculos que dão mil voltas pra disfarçar a frouxidão. Tudo pra te dar a amizade que você me pede. E assim, quem sabe, ter você pelo menos um pouquinho. E exercitar minha melhor e mais entregue missão no mundo que é, vez ou outra, nos intervalos da merda da vida como ela é, fazer você sorrir. E o sopro chega. E me diz. Paixão não dá jeitinho brasileiro. Paixão não dá jeitinho brasileiro. Tem essa de “o que dá pra fazer” não. Só tem o que daria pra fazer que não dá mais. E isso é terrível mas é tão especial. E eu espero que você entenda. E eu espero, do fundo do meu coração, que você jamais entenda.
Agora quero saber porque raios é na paixão que fiquei. Porque se fosse amor, se eu amasse você realmente, eu poderia te dar qualquer coisa que já seria amor. Porque amor é cada pedacinho sem ser, por isso, menos amor. Só a paixão exige o mundo todo dessa forma tão indecente. E então o sopro chega e me explica. Paixão é uma doença que se pega. Dá febre, dor no peito, taquicardia, insanidade. Se você tiver a sorte de sentir isso por alguém capaz de lhe dar as mãos pra atravessar a lama, você se cura e pode amar. Se ele for capaz de dormir ao seu lado enquanto você sente tudo doer e a fome que te abandona. Se ele puder sentir junto ou ao menos te deixar ver que é assim mesmo para os dois. O peso dissipa um pouco e vai mais rápido. Mas se você conhecer alguém que tenha, no fundo da alma, um prazer cruel em dizer que sua loucura é problema seu. Sinto muito. É o sopro que me diz. Sinto muito. O sopro me diz que deixar alguém apaixonado é uma crueldade bonita. O sopro me diz que não cuidar do doente é uma crueldade feia. O sopro me diz que ter medo do apaixonado é ter medo, sobretudo, que o apaixonado se cure. E eu digo que chega, já entendi tudo. Chega sopro, agora me deixe quieta aqui, esperando isso tudo sair do meu sangue e já saiu mais do que eu imaginava.
Como um vírus eu te expulso a cada segundo de mim. Não é exatamente com água e repouso, mas com um maravilhoso descanso da sua existência. Daqui a pouco não sobra nada e então poderemos ter uma linda amizade cheia de jantares e concertos e confidências. Pena que você não vai querer. O sopro me diz. Ele sabe, querida, ele sabe que você nunca será mais uma daquelas mulheres sem nome, com quem ele janta ou come, pra sentir de dentro da redoma de vidro um sol artificial. "

Enfim, nós. E a Claudinha.

Foram quatro horas e cinqüenta minutos ao meu lado. E ele vai embora feliz da vida achando que conheceu alguém legal. Foram menos de cinco horas e me dá certa pena pensar nos próximos dias, meses. Talvez anos, se ele for algum tipo de corajoso, algum tipo de masoquista.
Eu consegui, por hoje deu tudo certo. Fui inteligente e carinhosa durante o cinema. Depois fui engraçada e um pouco mais carinhosa durante o jantar. Na minha casa eu segui conseguindo, conseguindo ser alguém com quem se quer passar um feriado em Buenos Aires.
Mas tenho certa pena do dia de hoje, tenho certa pena de como esse dia corretinho, linear e brilhante pode ser corroído pelas chuvas, calores e sujeiras. E acabar como algo disforme, fosco e fraco.
Eu queria que você soubesse, meu amor, que sou dessas loucas. Dessas loucas que vai te chamar de meu amor, mesmo você estando na minha vida há apenas uma semana. Dessas loucas que vai querer te matar só de pensar que, talvez, daqui cinco anos, você me troque pela Claudinha, uma menina mais nova e sem as minhas manias insuportáveis que você ainda não conhece.
E aí, mesmo eu te conhecendo há apenas uma semana, vou te odiar pelo que vou sofrer daqui a cinco anos. E vou te odiar, sobretudo, porque daqui uma semana, quando você se apaixonar pelas minhas manias insuportáveis, eu vou acreditar que você nunca vai enjoar delas.
Eu sou dessas malas sem alça que vai ter ciúme dos seus amigos, dessas pessoas maravilhosas que te conhecem há muito mais tempo que eu. Essas pessoas maravilhosas que serão as primeiras a saber, daqui cinco anos, que você está comendo a vaca da Claudinha. Aliás, eles que vão te apresentar a vaca da Claudinha.
Só de pensar nessa puta da Claudinha, sabe o que eu fiz assim que você saiu da minha casa ontem? Eu liguei para o Pedro. Depois para o Ricardo. Depois para o Fábio. E deixei todos de sobreaviso: ando super carinhosa, gatos.
No fundo, no fundo, não tenho a menor vontade de ser carinhosa com nenhum deles. Mas sou dessas idiotas covardes que quando percebem que estão gostando de alguém, resolvem gostar de vários. Só para banalizar o sentimento. Só para descentralizar a renda. Olha eu, fazendo piadinha meio de esquerda... olha eu, escrevendo meio parecido com você e dando nomes para personagens. Eu sei que gosto de alguém quando esqueço de não gostar tanto de mim. E eu gosto de você, mesmo sabendo que você gosta de mim por pouco tempo.
Ai amor, amorzinho, amoreco, moreco. Eu odeio esses carinhos, odeio. Mas falo todos eles baixinho antes de dormir, para o espaço ao lado da cama que ninguém ocupa. E eu sou um pouco mais estranha do que ser estranha permite. Sou estranha além do charme de ser estranha. Eu sou daquele tipo bizarro, que eu nem sei direito se existe, que vai te acordar, daqui a algumas semanas, chorando como se tivesse te perdido para sempre, ainda que você nem saiba direito se fez bem ou não em dormir, logo assim de cara, na minha casa.
Eu sou sempre cinco anos na frente, eu já começo sofrendo com o fim, eu já tiro a roupa com o gosto meio vazio de resgatar as peças pelos cantos depois. Eu vivo o luto de tudo, antes mesmo de comprar uma roupa colorida pra curtir que você foi embora ontem, lá de casa, querendo voltar. Eu sei que você quer voltar. E eu sei que serei muito feliz por cinco anos, até a puta da Claudinha aparecer. Aquela vaca.
Pensa bem, meu amor, pensa bem. Eu sou daquele tipinho baixo de mulher. Daquele tipinho que rouba o seu celular enquanto você faz seu xixi feliz da vida, achando que conheceu alguém legal. Eu sou daquele tipinho raso, que vai xeretar seu orkut, tentando descobrir o que sua ex tinha que te fez demorar tanto para aparecer na minha vida. E vou odiar toda a sua história, e vou odiar que seus amigos sejam amigos da sua ex, e vou odiar que seus amigos vão adorar contar suas histórias do passado. E vou ficar quietinha, perdida, no canto da mesa. Querendo ligar pro Ricardo, pro Fábio e pro Pedro.
Não que eles sejam melhores do que você, porque não são. Mas eu preciso fugir de você ser tão legal. Porque você é definitivamente muito legal, tão legal que não vai agüentar e me largar daqui cinco anos. Inebriado pela mente menos complexa, pelo peito menos angustiado e pela bunda mais dura. Da Claudinha, claro. Sempre ela.
Ainda dá tempo. Ainda dá tempo de você se libertar do meu cheiro de manga, que você gosta tanto. Ainda dá tempo de se libertar da minha neura de contar as coisas e de não encontrar razão para haver um pão pullman na fruteira. Agora tem graça, mas imagina esse mesmo cheiro de manga e essa mesma conta que soma o mundo sem nunca subtrair nenhuma tristeza daqui cinco anos? Cai fora, irmão. Cai fora.
Não demora muito para eu começar a competir com você. E querer ser melhor que você. E querer isso justamente para que você nunca deixe de me admirar. Mas eu, mais uma vez, sem ter medida de nada, vou te sufocar com meu saquinho furado. Meu saquinho onde todo e qualquer amor ainda é pouco. Porque meu vazio é imenso.
Já imaginou só? Já imaginou quando algum amigo seu apontar e falar: quem é aquela louca ali, berrando no meio da festa e pegando um táxi? E você vai ter de voltar sem graça, e explicar: ela se irritou porque eu peguei a última água com gás sem perguntar se ela queria.
É isso o que você quer para a sua vida? É isso? Uma mulher que bebe refrigerante quente em pleno verão do Nordeste receosa pela procedência do gelo? Uma mulher que tem mais medo de vomitar do que de paraglider? Uma namoradinha meiga que a qualquer momento pode soltar 345 palavrões no seu ouvido só porque você tem mais coisa pra fazer da vida do que me idolatrar?
Combinado, então? Você vai ler agora esse texto, ficar meio tristinho, afinal de contas não é todo dia que se perde uma mulher como eu, mas vai ser forte e terminar tudo. Terminar tudo e ir logo de uma vez conhecer a puta da Claudinha. Essa vaca.
E aí, daqui uns cinco anos, quando você descobrir que mulher é tudo a mesma coisa, quando você estiver enjoado das manias insuportáveis da Claudinha, quem sabe algum amigo seu não me apresente a você. E quem sabe a gente não é feliz pra sempre?

Tereza e um milésimo de segundo

O tempo todo escuto das mais variadas pessoas uma mesma observação: você é, você é... diferente.

Algumas dizem isso com a cara assustada, como se não soubessem lidar com alguém que escreve com tanta transparência sobre a própria vida. Será que, se eu der bom dia para essa menina, ela vai escrever um conto sobre mim?

Me olham como se eu fosse perigosa, louca, estranha.

Outras me olham como se tirassem sarro de mim, como se dissessem, sem dizer, que, já que eu resolvi deixar minha alma pelada por aí, eu mereço mais é que riam mesmo dos meus defeitos. E no fundo, essas pessoas, eu sempre soube, morrem de medo de ver alguém tão parecido com elas exposto ao mundo da maneira mais humana possível. Com celulites, manias, medo de não ser amada, fracassos, vitórias alarmadas sem medo do egocentrismo e desejos estranhos.
Tem também um ou outro mais limitado que não entende absolutamente nada do que eu escrevo e me pergunta "Mas e aí? Quando você casar, tiver filhos... vai escrever sobre o quê?", achando que a busca ou a angústia por algo inexplicável (e basta estar vivo para sentir tudo isso) acabam com alguma decisão como assinar um papel.

E minha família, mais especificamente minha mãe, sempre teve muito medo que eu sofresse com minha personalidade, escolha profissional ou seja lá o que for essa coisa que me faz escrever tanto sobre mim e sobre tudo o que me acontece.

Medo de eu me preservar menos que as outras pessoas e encher de armas os inimigos para ser bombardeada depois. Medo de eu não ser compreendida ou respeitada justamente porque tem sempre algum desavisado machista que acha que eu escrevo pura e simplesmente sobre sacanagem. Ela, e meu pai deve tb conversar assim lá com São Pedro, sempre me diz, quando reclamo que não existe homem para mim, "com seu jeito, você deve assustar 98% dos pretendentes".

A única que sempre esteve muito bem resolvida em relação a esse assunto e nunca teve um segundo de dúvida quanto ao caminho escolhido fui eu mesma. Eu, do fundo do meu coração, tenho um orgulho absurdo de ser quem eu sou. Tenho um orgulho absurdo de transformar tudo o que dói em mim em poesia, ao invés de sair transando com o primeiro babaca (não que eu já não tenha feito isso e escrito sobre isso e blá-blá- blá...), encher a cara, me drogar ou simplesmente fazer de conta que nada está acontecendo, nada me atinge e eu sou superior a dor. Dói mesmo, eu me apaixono mesmo, eu sou intensa mesmo, eu me ferro mesmo, às vezes eu ferro as pessoas mesmo. Tudo é bom, tudo é vazio, tudo é bom de novo. Viver é um absurdo e não dá pra passar por isso tão ileso.
 
Mas do que tenho orgulho mesmo é de ter construído um mundo onde qualquer pessoa, da mais incrível à mais idiota, possa virar personagem. E de ter construído um mundo onde todos os sentimentos viram enredos com trilhas e a direção de arte certa. Dos sentimentos mais banais àqueles que nos fazem querer se rasgar inteira ou abraçar o mundo. Um mundo onde o por acaso, o cotidiano, o qualquer, o cinza, tudo pode ser motivo para gostar mais ou sentir mais a vida.

E nesse mundo, onde as pessoas acham que eu vivo nua para quem quiser me ver de todos os ângulos e me explorar e me sentir e me provar e me sacanear. Nesse mundo, eu vivo bem escondida e protegida. Ou você achou mesmo que eu construiria um castelo tão escancarado sem ter pensando na fortaleza perfeita para mantê-lo intacto?