Talvez na infância fosse diferente, não lembro agora. Só sei que, até onde vai a minha memória, não me recordo de nenhuma meia-noite de réveillon em que eu não tenha me acabado de chorar.
Não existe um motivo específico nem uma dor absurda. A verdade é que tento segurar as lágrimas o máximo que posso, afinal, é até pecado chorar numa situação tão vantajosa. Veja bem, apesar de morar em um país que elege um presidente por causa de uns trocados para amenizar a situação miserável, nunca passei fome, nunca passei frio, nunca me faltou acesso à educação e à cultura, nunca fiquei desempregada e nunca tive nenhum parente ou amigo próximo vítima de alguma violência significativa. Minha vida é boa, muito boa. Então, por que raios choro tanto?
Talvez seja justamente essa constatação: de que sou uma exceção. Talvez eu chore a dor dos outros, a fome dos outros, o frio dos outros, a estupidez dos outros, o presidente e os ladrões de todos. Mas será mesmo que eu penso em tudo isso na praia da moda? Com o vestidinho da moda, o champanhe da moda e a companhia do momento? Grandes chances de eu chorar minha futilidade.
Outra opção seria a saudade que sinto dos entes queridos que já se foram. Mas “entes queridos que já se foram” é uma frase muito brega, não é? Vovô e vovó fazem falta, sem dúvida nenhuma, mas todo netinho cresce sabendo que, se tudo der certo, eles serão os primeiros a partir. Portanto, não considero tais perdas nenhuma dor absurda ou motivo de inconformismo. Tenho mãe, pai, cachorro, amigos, emprego, saúde, paquerinhas, dinheiro. Por que o rio de lágrimas?
MEDO DO FIM?
Tá, este ano talvez eu tenha um bom motivo pra tentar borrar o rímel à prova d’água: perdi um grande amor, talvez o maior deles até hoje. Com certeza o maior deles. Mas quem nunca sofreu desse mal? Tenho até que agradecer ao dito-cujo, sofrer por amor é o grande presente que uma alma arrogante pode ganhar.
Começo 2007 muito mais humana, inteira, madura e... realista.
Será que é isso? Choro a perda da infância e da pureza? Choro a saudade da adolescência, quando eu ainda acreditava que tudo sairia exatamente como eu imaginava? Será que é a constatação de que a cada ano perco mais um ano? Será que é o medo da morte? O medo do meu fim, do fim dos meus pais, do fim dos meus amigos, do fim da minha cachorra, do fim dos meus amores? Será, afinal, que choro a certeza de que nada é eterno?
Ou será que a coisa não chega nessa profundidade toda e choro apenas a drenagem e a musculação que não deram certo, e eu continuo sem o corpo dos meus sonhos? Choro a falta que me faz mais dinheiro, mais amigos, mais amores, mais conquistas, mais viagens, mais, mais, mais, mais. Grandes chances de eu chorar a falta de mais espiritualidade.
Quer saber? Choro por tudo isso e por nada disso. Choro pela minha bunda caída e pela fome do mundo. Choro pelo meu cabelo desajeitado e pelas crianças descalças pedindo esmolas. Choro porque chorei de emoção quando o Lula ganhou pela primeira vez e de raiva quando ganhou pela segunda. Choro de saudade do meu amor e de esperança de encontrar o próximo, certamente muito melhor. Choro pela minha intensidade do tamanho do mundo e pela minha superficialidade que quase não cabe em mim. Choro de medo de morrer e de alegria por estar viva. Choro de saudade da minha criança que não chorava tanto e, sobretudo, de curiosidade pela minha mulher que um dia vai conseguir ser mais feliz. Choro porque sou a pessoa mais sozinha do mundo e, ao mesmo tempo, só mais uma, em meio a tantos, que chora só porque é lindo começar tudo de novo. Feliz 2007 pra vocês.
Blog feito para compartilhar todos os textos da escritora Tati Bernardi, que excluira alguns de seu site. Todos os textos postados aqui são de autoria dela, então, por favor, se for colar em algum lugar, dê seus devidos créditos. Não estou aqui para plagiar ninguém.
domingo, 6 de fevereiro de 2011
53 dias normais
O trânsito de uma hora e meia da Zona Leste, onde moro, até a porta da W/Brasil, onde trabalho, não mudou nada nos últimos dois meses. O Ano Novo, o Natal e o aniversário do meu pai, em dezembro, chegaram como chegam todos os anos - eu mais uma vez me perguntei se era mais um Natal com minha família ou se era menos um.
Ansioso, como sempre, mais um verão chegou na agência. Como era de se esperar, começaram as brigas por causa do ar condicionado. Os homens tiveram que escolher entre as roupinhas de verão da mulherada bronzeada e o frio. Escolheram a gripe.
Na criação, os atrasados continuaram do mesmo jeito, chegando após as nove todos os dias. Após as dez na maioria dos dias. Os teclados do Ruy e do Peralta também permaneceram iguais, funcionando o tempo todo, desde bem cedo, até muito tarde. O Bruno continuou atrapalhado, cheio de desculpas, colando fitas na testa, caçando comida pela agência, achando toda mulher linda, bagunçando mais ainda a sua mesa. Continuou também rendendo absurdamente no final do dia. Mas que horas ele trabalha? Nove horas da noite, dez, às vezes onze, continuou sendo horário de trabalho para aqueles atrasados sempre acusados injustamente.
Dois anos trabalhando na mesma empresa. Já não fico mais sem graça de escovar meus dentes ao lado de redatoras, almoçar com diretores de arte. Um ano trabalhando com o Ruy, acostumei a gostar de ficar até mais tarde na agência. Quando ele tem um tempinho, entre uma cervejinha e outra, na sua mesa, acabo contando mais da minha vida do que contaria para meus pais.
Quem diria que encontrar diariamente Washington Olivetto seria a coisa mais normal do mundo? "De onde veio essa loirinha gostosinha?"
A gente acostuma com tudo nessa vida. Com mais um verão, mais um Natal, mais um diretor de arte, menos um diretor de arte. Acostuma com oito meses sem salário no atendimento sem reclamar. Depois acostuma a reclamar por mais de um ano do salário na criação.
Ansioso, como sempre, mais um verão chegou na agência. Como era de se esperar, começaram as brigas por causa do ar condicionado. Os homens tiveram que escolher entre as roupinhas de verão da mulherada bronzeada e o frio. Escolheram a gripe.
Na criação, os atrasados continuaram do mesmo jeito, chegando após as nove todos os dias. Após as dez na maioria dos dias. Os teclados do Ruy e do Peralta também permaneceram iguais, funcionando o tempo todo, desde bem cedo, até muito tarde. O Bruno continuou atrapalhado, cheio de desculpas, colando fitas na testa, caçando comida pela agência, achando toda mulher linda, bagunçando mais ainda a sua mesa. Continuou também rendendo absurdamente no final do dia. Mas que horas ele trabalha? Nove horas da noite, dez, às vezes onze, continuou sendo horário de trabalho para aqueles atrasados sempre acusados injustamente.
Dois anos trabalhando na mesma empresa. Já não fico mais sem graça de escovar meus dentes ao lado de redatoras, almoçar com diretores de arte. Um ano trabalhando com o Ruy, acostumei a gostar de ficar até mais tarde na agência. Quando ele tem um tempinho, entre uma cervejinha e outra, na sua mesa, acabo contando mais da minha vida do que contaria para meus pais.
Quem diria que encontrar diariamente Washington Olivetto seria a coisa mais normal do mundo? "De onde veio essa loirinha gostosinha?"
A gente acostuma com tudo nessa vida. Com mais um verão, mais um Natal, mais um diretor de arte, menos um diretor de arte. Acostuma com oito meses sem salário no atendimento sem reclamar. Depois acostuma a reclamar por mais de um ano do salário na criação.
Acostuma com a esperança de mais uma chance como estagiária e com mais uma despedida do melhor estagiário. Acostuma com coisas boas na mesma proporção desanimadora que acostuma com as tristes.
Foi assim que acostumamos com a presença do Washington. Foi assim que acostumamos com a falta dele. Acordamos, colocamos uma roupa bacana, trabalhamos pensando no almoço, almoçamos pensando no trabalho. Acabou o dia e nos resta pensar em todo o resto que existe além da W/Brasil.
Acostumamos. Acomodamos. Deixamos de pensar muitas vezes. Não dá tempo de pensar se planejamos fazer tudo o que precisamos. Recorri assustada à pessoa que mais admiro e respeito na agência quando percebi tamanha acomodação. Meus Deus tudo continua igual! Ele não está aqui e mesmo assim ninguém deixou de ser sacana, falar besteira, gastar dinheiro, transar, morrer de rir, dormir, sentir fome, fazer piadinhas de seqüestro. Será que somos frios? E ele me respondeu que não, somos sobreviventes.
Temos que fingir que está tudo bem até acreditarmos de verdade. Até cairmos em nossa própria lavagem cerebral diária. Temos que continuar apesar das gripes, do trânsito, das brigas com o namorado. Temos que continuar apesar dos corredores silenciosos. Apesar da mesa vazia, do computador cor de rosa, de um monte de revista empilhada.
Ninguém para comentar "como ninguém" os jogos do Corinthians. Ninguém para entender tão bem o Gabriel. Ninguém para elogiar tão bem quem merece elogio. Acostumamos com a falta de euforia, com a falta de genialidade, com a falta de um jeito de andar, de falar com as mãos, de levar a vida. De gostar da vida.
Ninguém para fazer a maior besteira do mundo ficar engraçada. Para ser indiscreto com classe. Para falar alto discretamente. Para ser inconveniente com inocência. Para ser Washington Olivetto sem arrogância. Ninguém para sintetizar a vida tão brilhantemente e com tanta simplicidade.
Cinqüenta e três dias. Mais um dia sem Washington. Menos um dia sem Washington.
Foi assim que acostumamos com a presença do Washington. Foi assim que acostumamos com a falta dele. Acordamos, colocamos uma roupa bacana, trabalhamos pensando no almoço, almoçamos pensando no trabalho. Acabou o dia e nos resta pensar em todo o resto que existe além da W/Brasil.
Acostumamos. Acomodamos. Deixamos de pensar muitas vezes. Não dá tempo de pensar se planejamos fazer tudo o que precisamos. Recorri assustada à pessoa que mais admiro e respeito na agência quando percebi tamanha acomodação. Meus Deus tudo continua igual! Ele não está aqui e mesmo assim ninguém deixou de ser sacana, falar besteira, gastar dinheiro, transar, morrer de rir, dormir, sentir fome, fazer piadinhas de seqüestro. Será que somos frios? E ele me respondeu que não, somos sobreviventes.
Temos que fingir que está tudo bem até acreditarmos de verdade. Até cairmos em nossa própria lavagem cerebral diária. Temos que continuar apesar das gripes, do trânsito, das brigas com o namorado. Temos que continuar apesar dos corredores silenciosos. Apesar da mesa vazia, do computador cor de rosa, de um monte de revista empilhada.
Ninguém para comentar "como ninguém" os jogos do Corinthians. Ninguém para entender tão bem o Gabriel. Ninguém para elogiar tão bem quem merece elogio. Acostumamos com a falta de euforia, com a falta de genialidade, com a falta de um jeito de andar, de falar com as mãos, de levar a vida. De gostar da vida.
Ninguém para fazer a maior besteira do mundo ficar engraçada. Para ser indiscreto com classe. Para falar alto discretamente. Para ser inconveniente com inocência. Para ser Washington Olivetto sem arrogância. Ninguém para sintetizar a vida tão brilhantemente e com tanta simplicidade.
Cinqüenta e três dias. Mais um dia sem Washington. Menos um dia sem Washington.
Eu estava tão acostumada com a angústia que não percebia mais o quanto estava angustiada. Que alívio.
Eu estava tão acostumada a ver vocês, sempre com as mesmas caras, que tinha esquecido como ficam bonitos quando estão cheios de esperança. Estava tão acostumada a trabalhar aqui, que tinha esquecido que um dia esse tinha sido o meu maior sonho.
Eu estava tão acostumada com a falta de amor dos noticiários. "Patrícia, meu amor, te amo, adoro." Graças a Deus você voltou chefe. Quando eu te vir, depois de tanto tempo, acho que vou me emocionar um pouco, mas depois eu acostumo.
Eu estava tão acostumada a ver vocês, sempre com as mesmas caras, que tinha esquecido como ficam bonitos quando estão cheios de esperança. Estava tão acostumada a trabalhar aqui, que tinha esquecido que um dia esse tinha sido o meu maior sonho.
Eu estava tão acostumada com a falta de amor dos noticiários. "Patrícia, meu amor, te amo, adoro." Graças a Deus você voltou chefe. Quando eu te vir, depois de tanto tempo, acho que vou me emocionar um pouco, mas depois eu acostumo.
Pot-pourri de assuntos
O que escrever para a próxima coluna? Listo prováveis assuntos: o mercado de trabalho, homens que cospem catarros horrorosos pelas ruas, minha bunda, sexo sem amor, a necessidade de ter alguém pra chamar de amor.
Demoro um dia inteiro para me decidir porque sou indecisa. Não me decido por nenhum porque sou possessiva e filha única: quero todos. Então vamos lá, seguindo a ordem.
Existe um boato por aí que publicitário tem a vida mansa e que todos eles são meio loucos. Isso dá uma coceirinha nos estudantes que acham esse papo muito cool e se matriculam aos montes pelas faculdades do país. Sou redatora publicitária e há dois anos e meio não tenho um salário decente apesar das mais de doze horas trabalhadas por dia. Já mudei de agência seis vezes e já mudei de assunto mais de mil quando amigos e parentes perguntam por que eu não tenho um horário fixo, um salário fixo e um lugar fixo para ir todos os dias. Aturo a crise mundial, a crise do país, a crise do mercado, a crise do mercado publicitário e a crise de meia-idade de colegas de trabalho com seus leões na mesa, suas baleias em casa e a tara por jovenzinhas deslumbradas e em aprendizado.
Demoro um dia inteiro para me decidir porque sou indecisa. Não me decido por nenhum porque sou possessiva e filha única: quero todos. Então vamos lá, seguindo a ordem.
Existe um boato por aí que publicitário tem a vida mansa e que todos eles são meio loucos. Isso dá uma coceirinha nos estudantes que acham esse papo muito cool e se matriculam aos montes pelas faculdades do país. Sou redatora publicitária e há dois anos e meio não tenho um salário decente apesar das mais de doze horas trabalhadas por dia. Já mudei de agência seis vezes e já mudei de assunto mais de mil quando amigos e parentes perguntam por que eu não tenho um horário fixo, um salário fixo e um lugar fixo para ir todos os dias. Aturo a crise mundial, a crise do país, a crise do mercado, a crise do mercado publicitário e a crise de meia-idade de colegas de trabalho com seus leões na mesa, suas baleias em casa e a tara por jovenzinhas deslumbradas e em aprendizado.
O boato da loucura é realidade, ninguém normal atura isso tudo. Quanto a ter a vida mansa, que vão todos para a merda antes que eu me esqueça.
Não sei de muitas coisas nesta vida, mas aprendi que entre a paixão e o ódio pela propaganda, tem sempre um catarro. Vou andando pelas ruas pensando em todos os lados bons e ruins da minha profissão: eu crio, eu não tenho um trabalho burocrático, chato, operacional, burro, exato. Eu movimento grana, eu emociono, eu faço as pessoas rirem. Plá, uma catarrada. Eu ganho mal, me deram uma porra de um PC em vez de um Mac, eu fico muito tempo sentada e minha bunda tá horrível, plá, outra catarrada.
Por que diabos esses imundos homens cospem essas melequeiras pelas ruas? Por que diabos? Por que diabos? Como eu odeio isso. ODEIO. Onde está escrito que o mundo permite essa escatologia exposta à luz do dia? Às vezes é preciso desviar para não sentir respingarem resquícios da nojeira no peito do pé. Desejo do fundo do meu coração que todos eles sufoquem entalados com suas crias gosmentas e fiquem tão verdes quanto elas.
Mas ainda mais nojento do que escutar aquela chupada suína que precede o plá da catarrada, é escutar o sugar de tesão de um escroto qualquer que você nunca viu na vida. É aquele "ssssssssss delícia", "ufffffffffffffffff gostosa".
Não sei de muitas coisas nesta vida, mas aprendi que entre a paixão e o ódio pela propaganda, tem sempre um catarro. Vou andando pelas ruas pensando em todos os lados bons e ruins da minha profissão: eu crio, eu não tenho um trabalho burocrático, chato, operacional, burro, exato. Eu movimento grana, eu emociono, eu faço as pessoas rirem. Plá, uma catarrada. Eu ganho mal, me deram uma porra de um PC em vez de um Mac, eu fico muito tempo sentada e minha bunda tá horrível, plá, outra catarrada.
Por que diabos esses imundos homens cospem essas melequeiras pelas ruas? Por que diabos? Por que diabos? Como eu odeio isso. ODEIO. Onde está escrito que o mundo permite essa escatologia exposta à luz do dia? Às vezes é preciso desviar para não sentir respingarem resquícios da nojeira no peito do pé. Desejo do fundo do meu coração que todos eles sufoquem entalados com suas crias gosmentas e fiquem tão verdes quanto elas.
Mas ainda mais nojento do que escutar aquela chupada suína que precede o plá da catarrada, é escutar o sugar de tesão de um escroto qualquer que você nunca viu na vida. É aquele "ssssssssss delícia", "ufffffffffffffffff gostosa".
Não se anime não, seu neanderthal urbano, que o que você está vendo é apenas o poder de uma calça jeans caríssima, que uma redatora publicitária em começo de carreira com seu salário de merda só pode ter comprado em cinco vezes sem juros. Cê não tá vendo, querido, que por trás disso é apenas a bunda de uma redatora publicitária que sofre várias crises de mercado e não tem tempo para uma academia? Tá caída, mermão! Já não é mais a mesma. Aliás, isso me lembrou a propaganda, mas este assunto já deu.
E por falar em dar... dar não é fazer amor. Dar é dar. Fazer amor é lindo, é sublime, é encantador, é esplêndido, mas dar é bom pra cacete. Dar é aquela coisa que alguém te puxa os cabelos da nuca, te chama de nomes que eu não escreveria, não te vira com delicadeza, não sente vergonha de ritmos animais. Dar é bom. Melhor do que dar, só dar por dar. Dar sem querer casar, sem querer apresentar pra mãe, sem querer dar o primeiro abraço no Ano Novo. Dar porque o cara te esquenta a coluna vertebral, te amolece o gingado, te molha o instinto. Dar porque a vida de uma publicitária em começo de carreira é estressante e dar relaxa. Dar porque se você não der para ele hoje, vai dar amanhã, ou depois de amanhã. Tem caras que você vai acabar dando, não tem jeito. Dar sem esperar ouvir promessas, sem esperar ouvir carinhos, sem esperar ouvir futuro.
Dar é bom. Na hora. Durante um mês. Para as mais desavisadas, talvez por anos. Mas dar é dar demais e ficar vazia. Dar é não ganhar. É não ganhar um "eu te amo" baixinho, perdido no meio do escuro. É não ganhar uma mão no ombro quando o caos da cidade parece querer te abduzir. É não ter alguém pra querer casar, para apresentar pra mãe, pra dar o primeiro abraço de Ano Novo e pra falar: "Que cê acha, amor?". Dar é inevitável, dê mesmo, dê sempre, dê muito. Mas dê mais ainda, muito mais do que qualquer coisa, uma chance ao amor, esse sim é o maior tesão. Esse sim relaxa, cura o mau humor, ameniza todas as crises e faz você flutuar o suficiente pra nem perceber as catarradas na rua."
E por falar em dar... dar não é fazer amor. Dar é dar. Fazer amor é lindo, é sublime, é encantador, é esplêndido, mas dar é bom pra cacete. Dar é aquela coisa que alguém te puxa os cabelos da nuca, te chama de nomes que eu não escreveria, não te vira com delicadeza, não sente vergonha de ritmos animais. Dar é bom. Melhor do que dar, só dar por dar. Dar sem querer casar, sem querer apresentar pra mãe, sem querer dar o primeiro abraço no Ano Novo. Dar porque o cara te esquenta a coluna vertebral, te amolece o gingado, te molha o instinto. Dar porque a vida de uma publicitária em começo de carreira é estressante e dar relaxa. Dar porque se você não der para ele hoje, vai dar amanhã, ou depois de amanhã. Tem caras que você vai acabar dando, não tem jeito. Dar sem esperar ouvir promessas, sem esperar ouvir carinhos, sem esperar ouvir futuro.
Dar é bom. Na hora. Durante um mês. Para as mais desavisadas, talvez por anos. Mas dar é dar demais e ficar vazia. Dar é não ganhar. É não ganhar um "eu te amo" baixinho, perdido no meio do escuro. É não ganhar uma mão no ombro quando o caos da cidade parece querer te abduzir. É não ter alguém pra querer casar, para apresentar pra mãe, pra dar o primeiro abraço de Ano Novo e pra falar: "Que cê acha, amor?". Dar é inevitável, dê mesmo, dê sempre, dê muito. Mas dê mais ainda, muito mais do que qualquer coisa, uma chance ao amor, esse sim é o maior tesão. Esse sim relaxa, cura o mau humor, ameniza todas as crises e faz você flutuar o suficiente pra nem perceber as catarradas na rua."
E VOCÊ? O QUÊ?
Me dei ,me dei ...mudei.
E você, o quê?
Fiz tudo, te dei o meu mundo.
E você o quê?
Joguei, lutei, arrisquei, amei!!!!
Gostei, um amor maior: impossível.
E você o quê?
Ultrapassei meu íntimo.
Fechei meus olhos, os olhos da alma. Decidi ignorar meus padrões.
Ocultei minhas raivas, algumas vezes não deu, disfarcei meus ciúmes, amaciei minhas mágoas.
Sua voz me tranqüilizara, teu sexo me domava.
Fiz como pude e como não pude.
Do seu jeito fui levando, algumas vezes amor próprio me faltou, mas eu só queria seu amor.
Por inúmeras vezes te amava mais do que o tudo...
E pergunto: E você ? O quê ?
Armei sua lona, fiz seu circo , pintei seu mundo. Fiz de você meu primeiro.
Usei suas cores, anulei as minhas.
Aceitei suas verdades intactas, anulei as minhas.
E você amor ? O quê ? O quê você fez?
Despedacei meu ego, levantei nossa bandeira
Me julguei egoísta, fui contra a seu favor.
Chorei, chorei, chorei até faltar vazio em mim.
Fui no fundo, no profundo do meu âmago.
Pra merecer teus carinhos, teus gemidos, tua língua,
teu prazer, teu sorriso, tua atenção, teu apreço.
Pra me sentir mulher, me fiz criança.
Fiz pirraça, cena, novela.
Decorei um texto pra nada dar errado.
Abri a mente, fiz preces, fantasiei um mundo.
Amei teu corpo, teu jeito, teu cheiro,
tua sombra, abri meu peito acreditei na gente.
Desconfiei muito, mas confiei demais
E você amor? O quê ?
Ouviu minha canção? Abriu o peito? Cortou seus cabelos? Trocou de canal?
Falou "aquela" frase? Fez planos pra mim?
Escolheu um filme pra nós dois?
Foi minha companhia para todos os momentos?
Foi a um show? Usou "aquela" blusa? Amou-me de verdade? Pensou em mim?
No que construímos? No que alcançamos?
Tudo um dia tem fim. Tudo na vida tem volta.
Tranqüilo você pode ficar, riscos de amar sem ser amado, você não há de correr não.
Amor de verdade você não sabe diferenciar.
Dizer que vou ser feliz agora? Quem sabe?
Dizer que você vai se dar bem? Tomara!
Aprendizados são pra vida toda, mas amor unilateral na vida da gente uma só vez é suficiente...
E você, o quê?
Fiz tudo, te dei o meu mundo.
E você o quê?
Joguei, lutei, arrisquei, amei!!!!
Gostei, um amor maior: impossível.
E você o quê?
Ultrapassei meu íntimo.
Fechei meus olhos, os olhos da alma. Decidi ignorar meus padrões.
Ocultei minhas raivas, algumas vezes não deu, disfarcei meus ciúmes, amaciei minhas mágoas.
Sua voz me tranqüilizara, teu sexo me domava.
Fiz como pude e como não pude.
Do seu jeito fui levando, algumas vezes amor próprio me faltou, mas eu só queria seu amor.
Por inúmeras vezes te amava mais do que o tudo...
E pergunto: E você ? O quê ?
Armei sua lona, fiz seu circo , pintei seu mundo. Fiz de você meu primeiro.
Usei suas cores, anulei as minhas.
Aceitei suas verdades intactas, anulei as minhas.
E você amor ? O quê ? O quê você fez?
Despedacei meu ego, levantei nossa bandeira
Me julguei egoísta, fui contra a seu favor.
Chorei, chorei, chorei até faltar vazio em mim.
Fui no fundo, no profundo do meu âmago.
Pra merecer teus carinhos, teus gemidos, tua língua,
teu prazer, teu sorriso, tua atenção, teu apreço.
Pra me sentir mulher, me fiz criança.
Fiz pirraça, cena, novela.
Decorei um texto pra nada dar errado.
Abri a mente, fiz preces, fantasiei um mundo.
Amei teu corpo, teu jeito, teu cheiro,
tua sombra, abri meu peito acreditei na gente.
Desconfiei muito, mas confiei demais
E você amor? O quê ?
Ouviu minha canção? Abriu o peito? Cortou seus cabelos? Trocou de canal?
Falou "aquela" frase? Fez planos pra mim?
Escolheu um filme pra nós dois?
Foi minha companhia para todos os momentos?
Foi a um show? Usou "aquela" blusa? Amou-me de verdade? Pensou em mim?
No que construímos? No que alcançamos?
Tudo um dia tem fim. Tudo na vida tem volta.
Tranqüilo você pode ficar, riscos de amar sem ser amado, você não há de correr não.
Amor de verdade você não sabe diferenciar.
Dizer que vou ser feliz agora? Quem sabe?
Dizer que você vai se dar bem? Tomara!
Aprendizados são pra vida toda, mas amor unilateral na vida da gente uma só vez é suficiente...
Somos um livro de citações
Você é uma mulher ou uma lesma? Ou você aprende a dançar a valsa ou abre uma pousada no meio do nada. Quem você pensa que é com esses peitos "mixurucus"? Dá vontade de fazer uma música com o que você escreve. É fácil gostar do difícil.
Tem frases que você não esquece nunca mais, ou porque mudaram sua vida para melhor, mostrando alguma verdade óbvia e nunca antes exposta com tanta força; ou para pior: porque rimaram perfeitamente com a sua baixa auto-estima.
Tem aquelas também que apenas imortalizam-se como um dos melhores elogios que você já recebeu: "você é a mulher mais linda do mundo", me disse uma vez o meu avô, quando eu era criança, com a esperança que eu acreditasse e parasse de subir no bidê para alcançar o espelho do banheiro, podendo causar algum acidente caseiro. Eu acreditei e parei.
Eu era praticamente virgem (só tinha transado, male e male, com um carinha que nem entendia muito da coisa) quando o homem que pontuaria o instante exato da transformação da minha vida pacata e sem grandes emoções, em histórias divertidas, proibidas e complicadas, se virou pra mim, no meio de cerimônias cínicas e timidez quase indecente, e disse, acariciando a aliança gigante: mulher gosta mesmo é de uma encrenca.
Em menos de uma semana, eu era inteira sorriso e confirmava para mim mesma, enquanto ele, atrasado, tomava um banho rápido, a afirmação dita com tanta clareza de incontestação: mulher gosta mesmo é de uma encrenca, e como.
O Serginho, um garoto de onze anos, foi quem mais forte esmurrou minha vaidade pré-adolescente. Mas é também um forte candidato a responsável, hoje, por gavetas e cabides lotados de roupas decotadas. "Quem você pensa que é com esses peitos mixurucus"?, disse, querendo, na imbecilidade de sua mente verde e punheteira, que eu tivesse, aos dez anos, os seios das vagabundas de bocas entreabertas e línguas de fora das revistas que ele deveria colecionar.
Quem eu penso que sou não tem nada a ver com meus peitos, mas parte superficial da minha auto-estima, hoje, eu devo a eles, que cresceram substancialmente nos últimos 15 anos que se seguiram depois que o Serginho, hoje gordo, careca e casado com uma despeitada, desbundada e sem nenhum sal, ousou dizer a frase que me deixaria corcunda, deprimida e mais pobre (por causa das terapias e fisioterapias) durante a adolescência. Frases são macabras com as crianças.
Pode apostar, as frases que mais te marcaram, e mais são responsáveis por muito do que você é hoje, você ouviu na infância. Assim como Freud, na minha opinião, estava certo quando elevava o sexo ao centro de suas especulações a respeito das razões humanas, também não estava errado quando dizia que tudo é culpa da sua mãe, do seu pai e de quem mais participou da sua criação. "Mas eu também amo você", foi o que minha mãe me disse quando eu, aos dez e poucos anos (o idadezinha marcada pela desgraça) perguntei se ela amava o namorado. Errado mãe, você deveria ter respondido "mas eu amo muito mais você", eu não tenho dúvidas de que eu era a predileta, afinal, filho é filho e ela nunca deixou de me colocar em primeiro lugar, mas não foi o que ela respondeu, naquele momento em que me enchi de coragem para testar o quanto o centro do mundo (que aos 10 anos é a sua mãe) me amava, simplesmente não foi. E foi naquele dia que ela, fritando um bife e sem paciência para conjeturar sobre as coisas da vida, me apresentou para a minha alma solitária e cheia de ódios.
Posso estar cercada de mundo que me sinto numa ilha deserta. Posso estar cercada de amor que me sinto traída e posta de lado. Estou sempre em busca do verdadeiro amor, só meu, só para mim, e estou completamente cega para ele.
Mas foi também, naquele momento, que eu criei a consciência de que eu não era única no universo e que, para sobreviver, tinha que aprender a dura arte de dividir meu espaço com o mundo. Tudo isso entre uma virada e outra no bife.
Outra dos meus pais, muito repetida durante toda a minha adolescência e super esclarecedora e motivadora para quem está em busca da própria identidade: "você é igual seu pai", dizia minha mãe. "Igualzinha à mãe", dizia meu pai. É, na loucura com certeza eu herdei muito dos dois.
Mas apesar dos garotos estúpidos de onze anos que, no auge da sua insegurança com as mulheres (auge que dura até os trinta e poucos anos) só querem detonar com elas, dos deslizes dos pais e mães que, ao contrário do que a gente espera, são humanos e também erram, das armadilhas da vida (que são ainda mais atrozes para uma menina mimada e filha única), e dos homens divertidos que nos alertam que a vida também pode ser muito divertida e o nosso corpo também pode divertí-los bastante, um dia a gente cresce e precisa trabalhar. Trabalhar para valer, ser alguém. "Eu não vou perder por pouco" me disse, uma vez, o meu chefe querido que me deu a primeira chance para virar uma redatora e continua não perdendo por pouco chegando todos os dias antes de todo mundo e indo embora depois. Para mim ele é perfeito, para a família, bom, vamos esperar um dia um texto do filho dele falando sobre seus próprios traumas, tipo esperar o pai até duas da manhã todos os dias e nem vê-lo sair pela manhã.
"Eu não vou perder por pouco" é o que me faz continuar escrevendo mesmo quando o meu fortíssimo lado preguiçoso tenta me convencer de que o trabalho já está pronto. Lado preguiçoso que sempre foi comentado, com maestria, simplicidade e ironia, pelo meu avô, que entre outras frases célebres ao meu respeito, como "onde encosta, dorme", referia- se à minha preguiça dizendo "essa aí não vai dar em nada". Lembro disso achando graça, beleza e com a certeza de que ele estava errado, taí o Domenico de Massi que não me deixa mentir.
Mas nem tudo são flores na vida de quem luta por um lugar ao Sol: cá estou eu, mais uma vez, sem um grande amor. E isso, para botar um sorriso esculachado nesse meu rosto, que segundo um inesquecível namorado "é dotado de uma beleza renascentista", me lembra a despreocupada frase de um amigo, excelente redator e extremamente charmoso, que me disse, certa vez, no meio de uma de suas risadas escandalosas: "ce já tá na pior, piorar não vai".
E piorar não vai mesmo, "o mundo pode desabar que eu continuo de pé", é o que minha psicóloga, muito bem paga por toda a minha adolescência, tentou colocar na minha cabeça, como um mantra, e conseguiu. Essa frase sempre grita na minha mente quando o corpo tende a dar umas tombadas medrosas e fracas.
E assim vou seguindo, às vezes deitada, às vezes curvada, às vezes de quatro, mas sempre de pé, minha vida. Com a certeza de que sou uma mulher, e não uma lesma, como me desafiou uma mega atleta da faculdade, quando meu viu parar, esbaforida, no meio da escada de cinco andares que nos levava até a classe.
Vou seguindo, dançando a valsa da sociedade enquanto me convir, amando o difícil enquanto me der tesão e tentando escrever textos que causem qualquer coisa em qualquer pessoa. Assim como um texto do Walcyr Carrasco, na Vejinha, que dizia como uma frase dele, a respeito dos escritores, tinha feito um amigo, que nunca lia, virar um leitor assíduo, me causou a maior vontade de escrever esse texto.
Eu poderia ficar aqui dias inteiros lembrando de ditos memoráveis e contando suas histórias, mas a frase "você fala demais", repetida mais de uma centena de vezes, e boa parte delas por homens que eu adoraria que tivessem me calado à força, me faz lembrar que já é hora de parar.
Tem frases que você não esquece nunca mais, ou porque mudaram sua vida para melhor, mostrando alguma verdade óbvia e nunca antes exposta com tanta força; ou para pior: porque rimaram perfeitamente com a sua baixa auto-estima.
Tem aquelas também que apenas imortalizam-se como um dos melhores elogios que você já recebeu: "você é a mulher mais linda do mundo", me disse uma vez o meu avô, quando eu era criança, com a esperança que eu acreditasse e parasse de subir no bidê para alcançar o espelho do banheiro, podendo causar algum acidente caseiro. Eu acreditei e parei.
Eu era praticamente virgem (só tinha transado, male e male, com um carinha que nem entendia muito da coisa) quando o homem que pontuaria o instante exato da transformação da minha vida pacata e sem grandes emoções, em histórias divertidas, proibidas e complicadas, se virou pra mim, no meio de cerimônias cínicas e timidez quase indecente, e disse, acariciando a aliança gigante: mulher gosta mesmo é de uma encrenca.
Em menos de uma semana, eu era inteira sorriso e confirmava para mim mesma, enquanto ele, atrasado, tomava um banho rápido, a afirmação dita com tanta clareza de incontestação: mulher gosta mesmo é de uma encrenca, e como.
O Serginho, um garoto de onze anos, foi quem mais forte esmurrou minha vaidade pré-adolescente. Mas é também um forte candidato a responsável, hoje, por gavetas e cabides lotados de roupas decotadas. "Quem você pensa que é com esses peitos mixurucus"?, disse, querendo, na imbecilidade de sua mente verde e punheteira, que eu tivesse, aos dez anos, os seios das vagabundas de bocas entreabertas e línguas de fora das revistas que ele deveria colecionar.
Quem eu penso que sou não tem nada a ver com meus peitos, mas parte superficial da minha auto-estima, hoje, eu devo a eles, que cresceram substancialmente nos últimos 15 anos que se seguiram depois que o Serginho, hoje gordo, careca e casado com uma despeitada, desbundada e sem nenhum sal, ousou dizer a frase que me deixaria corcunda, deprimida e mais pobre (por causa das terapias e fisioterapias) durante a adolescência. Frases são macabras com as crianças.
Pode apostar, as frases que mais te marcaram, e mais são responsáveis por muito do que você é hoje, você ouviu na infância. Assim como Freud, na minha opinião, estava certo quando elevava o sexo ao centro de suas especulações a respeito das razões humanas, também não estava errado quando dizia que tudo é culpa da sua mãe, do seu pai e de quem mais participou da sua criação. "Mas eu também amo você", foi o que minha mãe me disse quando eu, aos dez e poucos anos (o idadezinha marcada pela desgraça) perguntei se ela amava o namorado. Errado mãe, você deveria ter respondido "mas eu amo muito mais você", eu não tenho dúvidas de que eu era a predileta, afinal, filho é filho e ela nunca deixou de me colocar em primeiro lugar, mas não foi o que ela respondeu, naquele momento em que me enchi de coragem para testar o quanto o centro do mundo (que aos 10 anos é a sua mãe) me amava, simplesmente não foi. E foi naquele dia que ela, fritando um bife e sem paciência para conjeturar sobre as coisas da vida, me apresentou para a minha alma solitária e cheia de ódios.
Posso estar cercada de mundo que me sinto numa ilha deserta. Posso estar cercada de amor que me sinto traída e posta de lado. Estou sempre em busca do verdadeiro amor, só meu, só para mim, e estou completamente cega para ele.
Mas foi também, naquele momento, que eu criei a consciência de que eu não era única no universo e que, para sobreviver, tinha que aprender a dura arte de dividir meu espaço com o mundo. Tudo isso entre uma virada e outra no bife.
Outra dos meus pais, muito repetida durante toda a minha adolescência e super esclarecedora e motivadora para quem está em busca da própria identidade: "você é igual seu pai", dizia minha mãe. "Igualzinha à mãe", dizia meu pai. É, na loucura com certeza eu herdei muito dos dois.
Mas apesar dos garotos estúpidos de onze anos que, no auge da sua insegurança com as mulheres (auge que dura até os trinta e poucos anos) só querem detonar com elas, dos deslizes dos pais e mães que, ao contrário do que a gente espera, são humanos e também erram, das armadilhas da vida (que são ainda mais atrozes para uma menina mimada e filha única), e dos homens divertidos que nos alertam que a vida também pode ser muito divertida e o nosso corpo também pode divertí-los bastante, um dia a gente cresce e precisa trabalhar. Trabalhar para valer, ser alguém. "Eu não vou perder por pouco" me disse, uma vez, o meu chefe querido que me deu a primeira chance para virar uma redatora e continua não perdendo por pouco chegando todos os dias antes de todo mundo e indo embora depois. Para mim ele é perfeito, para a família, bom, vamos esperar um dia um texto do filho dele falando sobre seus próprios traumas, tipo esperar o pai até duas da manhã todos os dias e nem vê-lo sair pela manhã.
"Eu não vou perder por pouco" é o que me faz continuar escrevendo mesmo quando o meu fortíssimo lado preguiçoso tenta me convencer de que o trabalho já está pronto. Lado preguiçoso que sempre foi comentado, com maestria, simplicidade e ironia, pelo meu avô, que entre outras frases célebres ao meu respeito, como "onde encosta, dorme", referia- se à minha preguiça dizendo "essa aí não vai dar em nada". Lembro disso achando graça, beleza e com a certeza de que ele estava errado, taí o Domenico de Massi que não me deixa mentir.
Mas nem tudo são flores na vida de quem luta por um lugar ao Sol: cá estou eu, mais uma vez, sem um grande amor. E isso, para botar um sorriso esculachado nesse meu rosto, que segundo um inesquecível namorado "é dotado de uma beleza renascentista", me lembra a despreocupada frase de um amigo, excelente redator e extremamente charmoso, que me disse, certa vez, no meio de uma de suas risadas escandalosas: "ce já tá na pior, piorar não vai".
E piorar não vai mesmo, "o mundo pode desabar que eu continuo de pé", é o que minha psicóloga, muito bem paga por toda a minha adolescência, tentou colocar na minha cabeça, como um mantra, e conseguiu. Essa frase sempre grita na minha mente quando o corpo tende a dar umas tombadas medrosas e fracas.
E assim vou seguindo, às vezes deitada, às vezes curvada, às vezes de quatro, mas sempre de pé, minha vida. Com a certeza de que sou uma mulher, e não uma lesma, como me desafiou uma mega atleta da faculdade, quando meu viu parar, esbaforida, no meio da escada de cinco andares que nos levava até a classe.
Vou seguindo, dançando a valsa da sociedade enquanto me convir, amando o difícil enquanto me der tesão e tentando escrever textos que causem qualquer coisa em qualquer pessoa. Assim como um texto do Walcyr Carrasco, na Vejinha, que dizia como uma frase dele, a respeito dos escritores, tinha feito um amigo, que nunca lia, virar um leitor assíduo, me causou a maior vontade de escrever esse texto.
Eu poderia ficar aqui dias inteiros lembrando de ditos memoráveis e contando suas histórias, mas a frase "você fala demais", repetida mais de uma centena de vezes, e boa parte delas por homens que eu adoraria que tivessem me calado à força, me faz lembrar que já é hora de parar.
Comendo o próprio rabo
Ainda é cedo e a vida escurece atrás dele. Tenho um pouco de medo daquelas duas rodelas verde musgo que me encaram como se eu pudesse ser reduzida a um segundo: tem muita sujeira ali naquela alma. Ignoro meu peito amaldiçoando o meio das minhas pernas e aceito o convite para ver de perto o cheiro do ralo. Ele não mora muito longe da doceria e vamos a pé mesmo. A cada passo morre em mim mais e mais da garota que tinha ficado feliz com o brigadeiro de colher.
Adoro camas que não são camas e ele tem uma dessas. Minha vontade é deitar ali e fazer alguma graça, minha vontade é que ele tire meus sapatinhos de boneca com calma e beije meus pés, afinal: pintei minhas unhas de vermelho só para ele. Minha vontade é que ele me pergunte se quero um pouco de chá gelado e se eu gostaria de ver um dos seus filmes estirada nas grandes almofadas.
Mas ele não quer saber dos meus pés, dos meus olhos deslumbrados com aquela vida de cinema, do meu dente sujo de chocolate ou da minha garganta que arde. Ele quer mergulhar em mim, ele quer entrar em mim, ele quer me descobrir a fundo. Mas ele quer tudo isso sem sequer tocar em mim.
Eu mais uma vez me pergunto como é mesmo que se faz a coisa mais profunda do mundo com total superficialidade. Como é que se ama sem amor? Como é que se entrega de dentro de uma prisão? Nunca soube.
Tenho vontade de perguntar baixinho: você não gosta nem um pouquinho de mim? Nem sequer um tiquinho? Olha só: eu tenho os dedinhos do pé bem estranhos. Eles não são absurdamente merecedores de amor? Mas ele não quer perder tempo com dedinhos de pé, pintinhas brancas ou antebraços molinhos. Ele quer morar em mim mas está cagando para todas as belezas da casa.
Algumas horas depois sou devolvida às ruas. Faço o mesmo trajeto mas agora voltando, mas agora sozinha.
Ainda é cedo e eu preciso de amor. Só um pouquinho de amor. Não posso dormir sem paz no coração. Ele não mora muito longe da cama que não era cama e a cada passo esfolo mais e mais meu esmalte vermelho.
Adoro camas que não são camas e ele tem uma dessas. Minha vontade é deitar ali e fazer alguma graça, minha vontade é que ele tire meus sapatinhos de boneca com calma e beije meus pés, afinal: pintei minhas unhas de vermelho só para ele. Minha vontade é que ele me pergunte se quero um pouco de chá gelado e se eu gostaria de ver um dos seus filmes estirada nas grandes almofadas.
Mas ele não quer saber dos meus pés, dos meus olhos deslumbrados com aquela vida de cinema, do meu dente sujo de chocolate ou da minha garganta que arde. Ele quer mergulhar em mim, ele quer entrar em mim, ele quer me descobrir a fundo. Mas ele quer tudo isso sem sequer tocar em mim.
Eu mais uma vez me pergunto como é mesmo que se faz a coisa mais profunda do mundo com total superficialidade. Como é que se ama sem amor? Como é que se entrega de dentro de uma prisão? Nunca soube.
Tenho vontade de perguntar baixinho: você não gosta nem um pouquinho de mim? Nem sequer um tiquinho? Olha só: eu tenho os dedinhos do pé bem estranhos. Eles não são absurdamente merecedores de amor? Mas ele não quer perder tempo com dedinhos de pé, pintinhas brancas ou antebraços molinhos. Ele quer morar em mim mas está cagando para todas as belezas da casa.
Algumas horas depois sou devolvida às ruas. Faço o mesmo trajeto mas agora voltando, mas agora sozinha.
Ainda é cedo e eu preciso de amor. Só um pouquinho de amor. Não posso dormir sem paz no coração. Ele não mora muito longe da cama que não era cama e a cada passo esfolo mais e mais meu esmalte vermelho.
Quero que ele veja o quanto mudei por causa dele, na esperança de que seu riso congelado saia do automático e eu ganhe um único sorriso verdadeiro. Não foi só o muque que ficou mais duro, mas minha autopiedade também aprendeu a ser menos molenga. <b>Talvez meu amor tenha aprendido a ser menos amor só para nunca deixar de ser amor.</b> Mas ele não quer saber de almas evoluídas, meditações, planos futuros e todos os últimos segundos de uma vida dedicados a ele. Ele quer que eu coloque aquela calcinha preta das antigas e fique de quatro. Mais uma vez me pergunto como é mesmo que se pode viver ou respirar em meio a tantas pessoas e intenções mortas. Mas então ele morreu? Ufa! Doeu, mas doeu pela última vez.
As ruas agora parecem um grande cemitério e eu mais uma vez carrego o peso morto do meu coração. Minhas costas doem e a cada passo mais e mais meus ombros se curvam. Apesar de tudo, ainda é cedo e eu já me conheço bem: não desisto de entregar meu coração a alguém que saiba, finalmente, dar um pouco de chá gelado a ele.
A casa dele não fica muito longe da marcha fúnebre e resolvo passar para fazer uma visita. Quem sabe numa visita eu não volto a visitar minha alegria?
Ele me serve chá quente e me escuta contar tudo sobre esmaltes vermelhos, corações pesados que se arrastam por ruas, ralos e calcinhas pretas. Mas apesar das grandes orelhas que todo velho aprende a ter, ele não está muito interessado em resolver meu problema. Talvez ele me ame, sim, talvez ele me ame aquele pouquinho que eu estava buscando. De todos, talvez ele seja o único que pode me dar, se não um pacote inteiro de rosquinhas, ao menos uma semicircunferência. Já é alguma coisa.
As ruas agora estão todas entrecortadas. Algumas casas têm apenas o telhado, outras apenas o jardim. A vida é só um pouquinho boa, as pessoas são só um pouquinho bonitas e as músicas duram apenas algumas notas. Sou inteira um pseudo algo, desejo pseudo coisas e quase sei para onde ir agora.
O meio homem não fica muito longe da casa que é quase velha.
As ruas agora parecem um grande cemitério e eu mais uma vez carrego o peso morto do meu coração. Minhas costas doem e a cada passo mais e mais meus ombros se curvam. Apesar de tudo, ainda é cedo e eu já me conheço bem: não desisto de entregar meu coração a alguém que saiba, finalmente, dar um pouco de chá gelado a ele.
A casa dele não fica muito longe da marcha fúnebre e resolvo passar para fazer uma visita. Quem sabe numa visita eu não volto a visitar minha alegria?
Ele me serve chá quente e me escuta contar tudo sobre esmaltes vermelhos, corações pesados que se arrastam por ruas, ralos e calcinhas pretas. Mas apesar das grandes orelhas que todo velho aprende a ter, ele não está muito interessado em resolver meu problema. Talvez ele me ame, sim, talvez ele me ame aquele pouquinho que eu estava buscando. De todos, talvez ele seja o único que pode me dar, se não um pacote inteiro de rosquinhas, ao menos uma semicircunferência. Já é alguma coisa.
As ruas agora estão todas entrecortadas. Algumas casas têm apenas o telhado, outras apenas o jardim. A vida é só um pouquinho boa, as pessoas são só um pouquinho bonitas e as músicas duram apenas algumas notas. Sou inteira um pseudo algo, desejo pseudo coisas e quase sei para onde ir agora.
O meio homem não fica muito longe da casa que é quase velha.
Quer saber de uma coisa? Acho que ainda é cedo. Enquanto ando, perco mais e mais o que eu já nem sei mais o que. Só sei que perco. Mas não posso terminar mais um dia sem amor, não posso. Pago o que for, pego a fila que for, encaro o que for. O lugar está cheio, as pessoas vazias. O lugar está quente, as pessoas frias. O lugar está insuportável, mas as pessoas juram que são legais. Sugo ali, num cantinho qualquer acompanhada de qualquer pessoa, o que pode restar de bom na alma de alguém. Mas ele não quer saber de canudinhos, desentupidores de pia e súplicas por um final ao menos justo. Eu sou um saco com restos de pano preto, achocolatados, plantinhas e tinta vermelha. E ele quer apenas furar o saco, para que eu estoure para bem longe dali. Sem dar nenhum trabalho.
As ruas não existem, não existe mais o que perder, não existe amor em lugar nenhum. Acho que finalmente está ficando tarde demais.
As ruas não existem, não existe mais o que perder, não existe amor em lugar nenhum. Acho que finalmente está ficando tarde demais.
Um banho de feira
Eu estava há meses achando tudo feio, cinza, falso e limitado. Da cama ia para o trabalho, do trabalho para a cama. Me arrumar pra que se não existem pessoas interessantes no mundo? Sair pra que se quase todo mundo é igualmente sem graça? Ir para onde se todos os lugares são feios e sem novidades?
Parei de fazer as unhas, pintar os cabelos, comprar roupas novas e malhar com o Paulão, personal que todo mundo achava lindo, menos eu.
Ao me ouvir comentar que estava há exatos 7 meses sem fazer sexo, minha amiga Laura, baiana legítima, no entanto loira de olhos claros, teve a idéia brilhante: Pai João!
João era seu “pai de santo” desde a adolescência, quando ela precisou de uma forcinha para entrar na faculdade. Depois disso, João de Deus conseguiu emprego, casa própria em São Paulo, namorado e até namorada para sua “filha” loira.
Eu ri incrédula e simpática, acenando que não com todas as partes do meu corpo. Mas ela não se convenceu, ligando para ele no dia seguinte e dando meu nome completo, data de nascimento e outras coisas que não faço idéia.
Às exatas cinco e meia de uma tarde chata de quinta-feira recebo uma ligação em meu celular com o prefixo de Salvador. Achei que meu celular havia sido clonado novamente e não atendi. Mas o tal do João não era homem de desistir fácil e continuou insistindo, até que eu atendi:
-Mia fia, ô lê lê, tu tá com um encosto bravo em cima di ocê, ô lê lê! Vai tomá cinco banho com girassol, hortelã, gengibre, mel e vai me ligá no último dia do banho. Ô lê lê. Ocê vai ve como a vida vai ficar bonita de novo. Upa lê lê!
Fiquei sem entender nada, fiquei fula da vida com a minha amiga que deu meu telefone para aquele homem sem me avisar, fiquei achando que aquele pai de santo era um médico perfeito pras minhas dores de garganta (mel? gengibre?) e não pra minha falta de apetite sexual!
Parei de fazer as unhas, pintar os cabelos, comprar roupas novas e malhar com o Paulão, personal que todo mundo achava lindo, menos eu.
Ao me ouvir comentar que estava há exatos 7 meses sem fazer sexo, minha amiga Laura, baiana legítima, no entanto loira de olhos claros, teve a idéia brilhante: Pai João!
João era seu “pai de santo” desde a adolescência, quando ela precisou de uma forcinha para entrar na faculdade. Depois disso, João de Deus conseguiu emprego, casa própria em São Paulo, namorado e até namorada para sua “filha” loira.
Eu ri incrédula e simpática, acenando que não com todas as partes do meu corpo. Mas ela não se convenceu, ligando para ele no dia seguinte e dando meu nome completo, data de nascimento e outras coisas que não faço idéia.
Às exatas cinco e meia de uma tarde chata de quinta-feira recebo uma ligação em meu celular com o prefixo de Salvador. Achei que meu celular havia sido clonado novamente e não atendi. Mas o tal do João não era homem de desistir fácil e continuou insistindo, até que eu atendi:
-Mia fia, ô lê lê, tu tá com um encosto bravo em cima di ocê, ô lê lê! Vai tomá cinco banho com girassol, hortelã, gengibre, mel e vai me ligá no último dia do banho. Ô lê lê. Ocê vai ve como a vida vai ficar bonita de novo. Upa lê lê!
Fiquei sem entender nada, fiquei fula da vida com a minha amiga que deu meu telefone para aquele homem sem me avisar, fiquei achando que aquele pai de santo era um médico perfeito pras minhas dores de garganta (mel? gengibre?) e não pra minha falta de apetite sexual!
Mas depois parei e pensei: como é que esse homem adivinhou que ando achando tudo feio? Eu não tinha dito isso pra ninguém e, no entando, ele adivinhou! Resumindo: lá fui eu comprar os ingredientes.
Depois de ir a três floriculturas grandes do meu bairro, eu já estava desistindo de encontrar os girassóis, até que me lembrei de uma feira no Parque da Àgua Branca, não muito longe da minha casa, que ocorreria na manhã do dia seguinte. Quem está há sete meses achando a vida um saco, e sem ninguém para amar, pode ficar mais um dia, não é mesmo?
Estacionei dentro do parque e resolvi fazer uma longa caminhada antes de ir às compras. Era bem cedinho e não estava nem frio, nem calor, o tempo perfeito para reparar mais nos outros do que em si mesmo. E foi exatamente o que eu acabei fazendo: reparei nos outros. Crianças, casais de namorados, casais casados, bebês, babás, velhinhos passeando de mãos dadas, intelectuais e seus óculos lendo embaixo de árvores, pessoas correndo no ritmo do Ipod último modelo, atletas acompanhados de profissionais que cronometravam o tempo. Que tempo? O tempo parou para mim, sentei num banquinho para tomar água de coco e, aos poucos, voltei a não julgar tanto a vida e ser mais feliz.
Uma mulher de moletom cor-de-rosa passou por mim e sorriu, ela tinha os olhos bem profundos, o cabelo bem curtinho e a nuca exposta, era tão linda que acompanhei seus passos até ela ficar bem minúscula na minha visão. Na sequência um homem com o shorts mais curto do mundo parou na minha frente para se alongar. Pernas, pêlos, músculos, cheiro de homem. Algo que não acontecia comigo há muito tempo de repente desaflorou: eu fiquei boba, encantada, querendo arrumar os cabelos e passar batom.
Lentamente o dia se impunha, as árvores se mexiam, a poeira de terra levantava, os passarinhos competiam usando o máximo de suas goelas, como em um concurso sertanejo, e as borboletas voavam em bando, ainda que fossem diferentes em tamanho e cores.
Depois de ir a três floriculturas grandes do meu bairro, eu já estava desistindo de encontrar os girassóis, até que me lembrei de uma feira no Parque da Àgua Branca, não muito longe da minha casa, que ocorreria na manhã do dia seguinte. Quem está há sete meses achando a vida um saco, e sem ninguém para amar, pode ficar mais um dia, não é mesmo?
Estacionei dentro do parque e resolvi fazer uma longa caminhada antes de ir às compras. Era bem cedinho e não estava nem frio, nem calor, o tempo perfeito para reparar mais nos outros do que em si mesmo. E foi exatamente o que eu acabei fazendo: reparei nos outros. Crianças, casais de namorados, casais casados, bebês, babás, velhinhos passeando de mãos dadas, intelectuais e seus óculos lendo embaixo de árvores, pessoas correndo no ritmo do Ipod último modelo, atletas acompanhados de profissionais que cronometravam o tempo. Que tempo? O tempo parou para mim, sentei num banquinho para tomar água de coco e, aos poucos, voltei a não julgar tanto a vida e ser mais feliz.
Uma mulher de moletom cor-de-rosa passou por mim e sorriu, ela tinha os olhos bem profundos, o cabelo bem curtinho e a nuca exposta, era tão linda que acompanhei seus passos até ela ficar bem minúscula na minha visão. Na sequência um homem com o shorts mais curto do mundo parou na minha frente para se alongar. Pernas, pêlos, músculos, cheiro de homem. Algo que não acontecia comigo há muito tempo de repente desaflorou: eu fiquei boba, encantada, querendo arrumar os cabelos e passar batom.
Lentamente o dia se impunha, as árvores se mexiam, a poeira de terra levantava, os passarinhos competiam usando o máximo de suas goelas, como em um concurso sertanejo, e as borboletas voavam em bando, ainda que fossem diferentes em tamanho e cores.
A feira estava começando a acontecer. Os cachorros dormiam sonolentos nas sombras, os homens fortes descarregavam tudo a que tinham direito. As frutas novinhas e coloridas faziam uma composição linda que explodia aos poucos com o brilho do sol que ainda se espreguiçava.
Eu nunca tinha reparado, mas o dono da barraquinha de verduras era um tipo bem másculo e interessante. Herdeiro de uma fazenda razoavelment e lucrativa… Hmmm fazenda, imagina só a gente andando a cavalo, rolando na grama, dormindo ao som de cigarras e acordando ao som de passarinhos? Delícia. Fiquei até com vontade de fazer uma piada com ver-dura, mas achei que não era o caso, apenas sorri e segui adiante.
Na barraca de flores um homem de terno tentava se resolver entre margaridas e rosas, flores básicas e que dizem muita coisa, pelo menos para mim. Adorei ver aquele homem muito cheiroso desviando de poças e de frutas esmagadas em nome do amor. O amor, que lindo, ele existia sim, ainda havia homens como aquele, gentil, de terno, cheiroso e apaixonado. Homens que acordam cedo e dormem tarde, tudo para agradar uma mulher.
Ou será que ele levaria as flores para uma amante? Ou será que ele levaria as flores para se desculpar por ter uma amante? Gentilmente o homem pagou as margaridas e não quis aceitar o troco, antes de sair apressado para corrigir algum erro ou dar início a ele, dedicou alguns segundos para me devorar com os olhos.
O homem que comprava as maçãs tinha a mão enorme e os dedos fortes, o jovem da barraca de sementes e folhas secas parecia me convidar com seus olhos de loucura para um chá alucinógeno, ainda que estivéssemos falando apenas de camomila. A delicada japonesinha tinha a pele tão clara e macia que me deu vontade de comer vários pêssegos com casca e tudo.
Eu nunca tinha reparado, mas o dono da barraquinha de verduras era um tipo bem másculo e interessante. Herdeiro de uma fazenda razoavelment e lucrativa… Hmmm fazenda, imagina só a gente andando a cavalo, rolando na grama, dormindo ao som de cigarras e acordando ao som de passarinhos? Delícia. Fiquei até com vontade de fazer uma piada com ver-dura, mas achei que não era o caso, apenas sorri e segui adiante.
Na barraca de flores um homem de terno tentava se resolver entre margaridas e rosas, flores básicas e que dizem muita coisa, pelo menos para mim. Adorei ver aquele homem muito cheiroso desviando de poças e de frutas esmagadas em nome do amor. O amor, que lindo, ele existia sim, ainda havia homens como aquele, gentil, de terno, cheiroso e apaixonado. Homens que acordam cedo e dormem tarde, tudo para agradar uma mulher.
Ou será que ele levaria as flores para uma amante? Ou será que ele levaria as flores para se desculpar por ter uma amante? Gentilmente o homem pagou as margaridas e não quis aceitar o troco, antes de sair apressado para corrigir algum erro ou dar início a ele, dedicou alguns segundos para me devorar com os olhos.
O homem que comprava as maçãs tinha a mão enorme e os dedos fortes, o jovem da barraca de sementes e folhas secas parecia me convidar com seus olhos de loucura para um chá alucinógeno, ainda que estivéssemos falando apenas de camomila. A delicada japonesinha tinha a pele tão clara e macia que me deu vontade de comer vários pêssegos com casca e tudo.
O cheiro de manhã misturado ao de mato me deu uma vontade louca de me misturar a todos e sentir o desejo de todos. De repente o mundo inteiro respirava e exalava sexualidade. Eu queria devorar e ser devorada por todos.
Por fim encontrei meus girassóis, comprei logo um monte porque, além do meu banho de cinco dias, me deu vontade também de enfeitar a casa.
Esperei a água esfriar um pouco e joguei uma meleca muito cheirosa e marrom da minha cabeça, que tinha novas mechas loiras, até os eus pés, que usavam agora esmalte vermelho.
O gosto era realmente bom, tanto que dediquei o resto da tarde a dar umas lambidinhas de leve nos meus braços.
Eu tinha recuperado o meu gosto por mim mesma , pela vida e, por consequência: pela minha cidade. São Paulo conseguiu ficar tão bonita quanto uma visão ampla da Baia de Todos os Santos, vista da casa do tal do Pai João, como fiquei sabendo depois.
Não sei se por causa dele ou apenas porque alguém me tinha feito reparar que algo estava errado, eu estava diferente. Talvez, simplesmente porque deve ser normal morrer, de vez em quando, para renascer melhor depois.
O texto deveria acabar aqui, com um fim bonito, poético e até meio religioso. Mas é preciso contar que o meu problema dos sete meses sem “ver a coisa”, com direito a margaridas espalhadas para tudo quando foi lado, também foi resolvido. Ô lê lê, e como foi.
Por fim encontrei meus girassóis, comprei logo um monte porque, além do meu banho de cinco dias, me deu vontade também de enfeitar a casa.
Esperei a água esfriar um pouco e joguei uma meleca muito cheirosa e marrom da minha cabeça, que tinha novas mechas loiras, até os eus pés, que usavam agora esmalte vermelho.
O gosto era realmente bom, tanto que dediquei o resto da tarde a dar umas lambidinhas de leve nos meus braços.
Eu tinha recuperado o meu gosto por mim mesma , pela vida e, por consequência: pela minha cidade. São Paulo conseguiu ficar tão bonita quanto uma visão ampla da Baia de Todos os Santos, vista da casa do tal do Pai João, como fiquei sabendo depois.
Não sei se por causa dele ou apenas porque alguém me tinha feito reparar que algo estava errado, eu estava diferente. Talvez, simplesmente porque deve ser normal morrer, de vez em quando, para renascer melhor depois.
O texto deveria acabar aqui, com um fim bonito, poético e até meio religioso. Mas é preciso contar que o meu problema dos sete meses sem “ver a coisa”, com direito a margaridas espalhadas para tudo quando foi lado, também foi resolvido. Ô lê lê, e como foi.
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