domingo, 6 de fevereiro de 2011

De tudo o que ele me deu, o melhor foi um pé na bunda.

Depois de um bom tempo dizendo que eu era a mulher da vida dele, um belo dia eu recebo um e-mail dizendo "olha, não dá mais". Tá certo que a gente tava quase se matando e que o namoro já tinha acabado mesmo, mas não se termina nenhuma história de amor (e eu ainda amava muito ele) com um e-mail, não é mesmo? Liguei pra tentar conversar e terminar tudo decentemente e ele respondeu "mas agora eu to comendo um lanche com os caras". Enfim, fiquei pra morrer algumas semanas até que decidi que precisava ser uma mulher melhor para ele. Quem sabe eu ficando mais bonita, mais equilibrada ou mais inteligente, ele não voltava pra mim? Foi assim que me matriculei simultaneamente numa academia de ginástica, num centro budista e em um curso de cinema.

Nos meses que se seguiram eu me tornei dos seres mais malhados, calmos, espiritualizados e cinéfilos do planeta. E sabe o que aconteceu? Nada, absolutamente nada, ele continuou não lembrando que eu existia. Aí achei que isso não podia ficar assim, de jeito nenhum, eu precisava ser ainda melhor pra ele, sim, ele tinha que voltar pra mim de qualquer jeito. Decidi ser uma mulher mais feliz, afinal, quando você é feliz com você mesma, você não põe toda a sua felicidade no outro e tudo fica mais leve. Pra isso, larguei de vez a propaganda, que eu não suportava mais, e resolvi me empenhar na carreira de escritora, participei de vários livros, terminei meu próprio livro, ganhei novas colunas em revistas, quintupliquei o número de leitores do meu site e nada aconteceu.

Mas eu sou taurina com ascendente em áries, lua em gêmeos e filha única! Eu não desisto fácil assim de um amor, e então resolvi que eu tinha que ser uma super ultra mulher para ele, só assim ele voltaria pra mim. Foi então que passei 35 dias na Europa, exclusivamente em minha companhia, conhecendo lugares geniais, controlando meu pânico em estar sozinha e longe de casa, me tornando mais culta e vivida. Voltei de viagem e tchân, tchân, tchân: nem sinal de vida.

Comecei um documentário com um grande amigo, aprendi a fazer strip, cortei meu cabelo 145 vezes, aumentei a terapia, li mais uns 30 livros, ajudei os pobres, rezei pra Santo Antonio umas 1.000 vezes, torrei no sol, fiz milhares de cursos de roteiro, astrologia e história, aprendi a nadar, me apaixonei por praia, comprei todas as roupas mais lindas de Paris. Como última cartada para ser a melhor mulher do planeta, eu resolvi ir morar sozinha. Aluguei um apartamento charmoso, decorei tudo brilhantemente, chamei amigos para a inauguração, servi bom vinho e comidinhas feitas, claro, por mim, que também finalmente aprendi a cozinhar. Resultado disso tudo: silêncio absoluto.

O tempo passou, eu continuei acordando e indo dormir todos os dias querendo ser mais feliz para ele, mais bonita para ele, mais mulher para ele. Até que algo sensacional aconteceu. Um belo dia eu acordei tão bonita, tão feliz, tão realizada, tão mulher que eu acabei me tornando mulher demais para ele.

Ele quem mesmo?

O queijo do Amadeo

Eu tinha sido completamente louca por ele. Imaginem só, eu que não suporto papo-furado, doente por um garoto de 19 anos. Era a minha fase Gael Garcia e o garoto era a cara dele, eu faria o mesmo se hoje me aparecesse um clone do Clive Owen.
Ele havia me largado por uma moçoila acéfala de 19 anos, na verdade, ele havia me largado por 347 moçoilas nesse contexto. Na época eu quase morri.
O tempo passou, outras decepções vieram, outras loucuras ocuparam o espaço, o fato é: eu nem lembrava mais que ele existia.
Até que, numa tarde ensolarada em Ubatuba, escuto aquela voz desafinada de quem tem pouco a dizer, mas diz tudo: “Tatizinhaaaaaaahhhh!!!”
Em menos de duas horas estávamos na pousada que ele sempre alugava. Seus 458 amigos igualmente deliciosos e insignificantes estavam perdidos pelo mundo, ou seja: o quarto cheio de tênis, bitucas ilícitas e espumas de barbear, era só nosso.
Não entendi nada do que estava acontecendo. Eu não era mais aquela mulher que um dia achou graça naquele garoto. E pra piorar, aquele filho da mãe já tinha me magoado muito, o que exatamente eu estava fazendo ali?
Tentei relaxar, fechar os olhos, recuperar nem que fosse um centésimo da magia perdida com o tempo… nada. Ele não conseguia me fazer sentir nada, a não ser desdém. Desdém pelo quarto e suas bagunças adolescentes, desdém pela voz desafinada de quem não diz nada que interessa, desdém pelas 347 moçoilas e os 458 amigos. Quanta gente chata, quanta gente chata que tinha ficado no meu passado. Pra que remexer nesse monte de gente chata e superada? Pra que fuçar no passado?
Outro dia eu estava andando por aí, sozinha, feliz da vida. A tarde era composta por uma pracinha, uma sacolinha com miniaturas lindas para meu novo ap e meu sapato de bolinhas. Eu tava que não me aguentava de alegria.
Aí, de repente, vejo ele parando o seu suntuoso carro num boteco nojento. Congelei. Será que ia doer ver o que eu já imaginava que veria um dia?
Logo depois dele, a morena inexpressiva desceu do carro, tirou a calcinha do meio da bunda, tropeçou de leve no meio fio e sorriu sem grandes emoções. Ele, para desespero total do meu ser, colocou a mão direita no ombro dela.
Sentei num banquinho e dediquei horas e horas da minha tarde me dizendo: mas já faz tento tempo, mas já faz tanto tempo, mas já faz tanto tempo.
De nada adiantou o mantra da aceitação, quando vi, eu já estava ligando para ele:
-é você dentro desse boteco nojento com essa morena sem graça?
-…
-não faz isso comigo, por favor, fale comigo, eu posso morrer!
-….
-você não quer falar comigo?
-não!
-por que?
-porque já faz tanto tempo!
Chorei o que ainda me restava de tarde e depois voltei a me perguntar: pra que remexer no passado? Pra que voltar a sentir aqueles tormentos que duraram anos por uma pessoa que já está superada há anos?
Fiquei com essa dúvida na cabeça nos últimos dias. Eu estou numa nova fase tão boa, leve, feliz, equilibrada… então por que raios ainda me pego querendo cheirar poeira mesmo sabendo da minha rinite gravíssima?
Hoje eu acordei com uma vontade louca de comer uma coisa que eu não sabia o que era. Revirei a geladeira, revirei os armários, fui até a padaria da esquina, repassei mentalmente todas as opções do supermercado mais próximo… nada adiantou.
Foi então que, aos poucos, meu paladar melancólico foi me dando pistas a respeito do meu desejo. Tinha cheiro de infância, gosto de sessão da tarde, era fresquinho, geladinho, branco, furadinho e combinava com tudo.
Eu estava alucinada por uma fatia do queijo minas do Amadeo, era isso! Amadeo era um velho português, dono de um armazém famoso no bairro em que morei na minha infância.
Desde que mudei de endereço, há dez anos, e mudei também de cabelo, de carro, de roupas, de gostos, de amores, de amigos e de manias, eu nunca mais tinha comido o tal do queijo minas do Amadeo, sem dúvida, o melhor do mundo.
Peguei um trânsito de uma hora para ir e outro de duas horas para voltar. Quando cheguei em casa, devorei mais de um quilo de queijo e tive a certeza de que, mesmo a gente evoluindo e mudando de ares, uma visita às quinquilharias faz parte da vida, ainda que o preço sejam lágrimas, arrependimentos ou uma baita caganeira.

Meu nome é Tati Pinto

Ela preencheu durante toda a noite o buraco fundo abaixo dos meus olhos, meu cansaço sem fim e sempre enojado de tanta simplicidade masculina.
Enquanto os debilóides arrotavam, riam alto, se amavam quase sexualmente em seus guetos medrosos e nos olhavam como pedaços de carne numa feira em promoção, Teresa tentava aprender a dançar sem cruzar os braços, Teresa tentava aprender a viver sem proteger seu coração.
São tão poucos os momentos de encantamento nessa vida que quis prestar uma homenagem a ela e me esqueci imóvel numa cadeira baixa. Depois quis sobrevoar Teresa e me esquecer de tanto lixo pesado que guardo em mim.
Ela quis ser minha amiga e perguntou inocentemente o que eu fazia da vida, nada demais. O problema é que Teresa é míope e pra falar comigo colou seu rosto no meu rosto.
Queria te contar, Teresa, enquanto tiros os nós do seu cabelo, toda a dor que eu guardo em mim, todo o nojo, toda a sujeira, toda essa merda que eu carrego. Queria te contar sobre tudo isso que me aconteceu, sentindo que liberto o seu shampoo para afastar esse cheiro quase podre de tudo o que quase morreu.
Chega a ser pecado contar isso nos seus ouvidos, mas eu preciso me purificar, eu preciso sentir que esse veneno que me corrói vira groselha quando escorre pela sua orelha. Me desculpe, Tereza, mas você é tão linda que eu vou te enterrar com as minhas merdas.
Ele não me beijava mais e seus olhos não escravos cresciam sobre a minha cabeça enjaulada, até hoje tenho esses pesadelos, ontem mesmo sonhei que a musa dele era um espírito que vagava seguro pelo meu corredor. Todo mundo morreu mas na verdade eu é que me sinto fora desse mundo e embaixo de tantas terras que não são minhas.
Eu me agarrei nas saias de Tereza e fui embora, chicoteada de um lado para o outro. Isso mesmo, minha princesa, me tire daqui, eu estou congelada nessa vida que acabou e tanta vontade de me cortar inteira só pode ser porque preciso derreter esse gelo com o meu sangue, tanta vontade de me rasgar inteira só pode ser porque chegou o tempo de mudar de casca.
Você é linda, você tem útero, você gera vidas, você tem esse buraco enorme e peludo que pode apenas me guardar sumida por uns tempos e nunca mais me furar tanto em praça pública. Não sei o que te dizer, meu amor, não sei o que querer, mas sei que nos seus passinhos pequenos e na sua requebrada quase que como se espreguiçando, eu salvei segundos do meu dia, eu salvei algumas pulsações malucas da minha cabeça que continuam confundindo todo o lixo que deixaram em mim com restos de prazer.
Veja o caldo que eu exalo, esse caldo de dor azeda, como é que se chama mesmo? E Tereza corre até o meu ouvido, seu seio direito é maior que o esquerdo e chega milésimos de segundos antes. Ela fala baixinho colada em mim novamente: é chorume, o nome desse caldo é chorume.
Então dance pra mim, só isso, continue fazendo esse beicinho para fingir que sabe a letra, continue me olhando com esse mistério profundo, negro, de uma criança que equilibra deslumbramento com alguma dor. Esse olhar que só os olhares um pouco árabes têm. Continue rodando a saia, continue ajeitando o ferro do sutiã por baixo da camisetinha justa, continue olhando miopemente para o mundo que pára por você.
Continue, por favor, alivie minhas marteladas, meus tormentos, me tire desse mundo que errou e me aprisionou como perdedora. Só quem quer ganhar muito se aprisiona por perder, e eu sempre quero ganhar muito. Tereza, eu não sei viver, por isso, continue me fazendo de mera espectadora, continue me inebriando com a sua vida.
Se eu sentir qualquer coisa que não seja você, volto a sentir o lixo, volto a me lembrar que aquelas cabeças nojentas e estúpidas querem se enfiar em mim sem nenhuma poesia. Essas cabeças imundas e covardes só prestam para rasgar a nossa verdade que carrega o universo inteiro, só prestam para provar ao mundo que são maiores que a beleza e a interrogação porque podem transformá-las em ódio, e o ódio nunca é bonito e muito menos tem dúvidas.
Quero me agarrar à minha unidade e nunca mais me despedaçar assim, quero me agarrar a tudo o que é meu e nunca mais precisar de ninguém, a não ser você. Quero andar por aí sem sentir que o vento atravessa minhas janelas.
Por favor, Tereza, me ame como só eu posso me amar, me ame com a urgência assustadora que eu cobro do mundo, me ame com o peso sufocante que eu coloco no mundo, me ame com as horas intermináveis que eu espero do mundo. Me ame sem amar porque nenhum amor é assim tão assustador, mas eu vivo assustada e precisando desse amor. Me dê esse amor, nem que seja para eu descobrir finalmente que ele existe e parar de querer tanto ele só pela mania de querer o que não existe.
Tereza corre de volta, eu não ligo que ela tenha um pouco de pêlo escuro no braço, eu não ligo que ela use sapatos de boneca gastos, eu não ligo que ela tenha um fiapo do seu cachecol na sobrancelha, eu não ligo que ela tenha os dentes tão pequenos. Ela se aproxima e me faz a pergunta idiota: você é louca ou se faz de louca? Os dois, meu amor, os dois. Eu me faço de louca para que ninguém descubra que eu sou louca. Agora volte para lá e continue respirando e se mexendo por mim. Volte para lá e continue fazendo eu me sentir um homem nojento com sua pica nojenta pronto para estragar a sua perfeição. Eu preciso me sentir um pouco menos porque a solidão de ser mais é ainda pior do que a mediocridade. Eu preciso vagar como uma besta pelo universo e não ser mais o universo.
Tereza, por favor, enfie esse seu sapato boneca gasto pela minha goela, me enforque com o seu cachecol, faça qualquer coisa para me tirar desse esgoto de porra em que eu vim parar.
Eu não quero lembrar que não me sobrou nada do que eu acreditei que era o meu castelo, nada. Eu não quero me lembrar que, depois do e-mail gigante de parabéns que eu escrevi para ele, ele apenas respondeu que sua namorada vai muito bem, obrigado. Eu não quero me lembrar que, depois do e-mail gigante que eu escrevi para ele, ele me respondeu que estava de férias e tinha deletado tudo, eu não quero me lembrar que, depois do e-mail gigante que eu escrevi para ele, eu apaguei tudo. Eu não quero lembrar que o mundo é simples e segue em frente enquanto eu não consigo nem levantar mais da minha cama de tanto que eu peso.
Eu não quero mais nenhuma mão nojenta tentando segurar os poucos fios que eu deixei na nuca, não quero mais que ele me ligue de madrugada só para me comer e me fale naquele sotaque meio paraíba meio argentino que eu sou muito novinha para entender a vida. Ele que é muito velho para estar vivo.
Eu não quero mais desejar aquele velho filho-da-puta que responde cada dor minha com o seu típico “hehehehehe” de quem disfarça a nossa história ou faz de conta que não sabe o quanto me assusto com pessoas rasas.
Eu não sei o que fazer, por favor, chame o carro, me tire daqui, me leve ver o pôr-do-sol, diga que vai ficar tudo bem. Eu preciso ver coisas bonitas, eu preciso sentir coisas bonitas, eu preciso não viver mais dentro desse planeta arrasado pela guerra e pelo cheiro de carniça.
Eu não sei mais o que fazer se tenho nojo de todo mundo, medo de todo mundo, descrença em todo mundo. Como se vive num mundo tão hipócrita tendo tanta verdade dentro do coração? Como, depois de tantas noites em claro agradecendo a Deus por aquela visão, a visão simplesmente sorri o mais alto possível da minha dor, arregala os olhos o máximo que pode para a minha cegueira e simplesmente vai comer um lanche no boteco da esquina?
No que eu devo acreditar agora, Tereza? Por favor, apenas seja você. Não abra mais a boca, não queira saber nada de mim, não me deixe mais sentir seu seio direito no meu braço, não vá embora, não queira entender a vida. Apenas permaneça exatamente assim, dançando alegremente e sem que isso a torne menos especial. Eu sei que a gente dança não porque é feliz, mas porque ficar feliz no meio de tudo isso também faz parte. E eu estou feliz olhando você feliz.
Então, por favor, volte aqui. Sei lá por que, e isso nunca tinha me acontecido, eu preciso que você exista tão enorme na minha visão que não sobre um centímetro do quadro para qualquer outra pessoa.
Eu quero sentar você no meu colo, eu quero enfiar meu cérebro inimigo no meio da sua nuca quente, eu quero agarrar as suas pernas e dirigir você pra sempre. Eu quero amar alguém de verdade, e você, sozinha nesse cantinho, com seus passos, seus sorrisos e sua preguiça de sentar naquele vaso imundo pra fazer xixi, é a única coisa de verdade que eu conheço.
Eles não, eles mijam em qualquer canto, eles dormem sujos, eles comem qualquer vadia, eles esquecem tanto amor, eles batem punheta vendo canal pago, eles trocam tantas trocas inteligentes e profundas por um e-mail de agradecimento mais curto e grosso que seus paus. Eles não imaginam o que se passa dentro da gente, mas eu sei o que se passa dentro de você, Tereza, e só por isso sou digna de estar aí dentro.
E, se por um acaso, meu amor, você precisar da minha superficialidade, te dou meus dedos todos, meu cotovelo, meus pés, meu queixo, meu nariz, minha língua, te dou todos os meus cantos, Tereza.
Agora vá embora, por favor, eu sou mulher demais para ser prática, eu sou mulher demais para colocar um final em tudo isso, eu sou mulher demais para corromper a sua dança.

Larga a mão de ser criança.

Tatá era uma criança muito pensativa, entediada e sofria da pior síndrome psicológica que uma criança pode sofrer: não se sentia desse planeta.
Ela fazia todo mundo rir com suas danças esdrúxulas, suas caretas bizarras e seu raciocínio incomum, mas por dentro ela sabia que todo mundo ria e ia embora, logo ela estaria de volta ao seu solitário e chato planetinha neurose.
Um dia, quando Tatá tinha lá pelos seus sete anos, eu sentei com ela na escada vermelha da casa da nossa avó e prometi, acreditando na promessa: calma garotinha pálida de perninhas tortas, um dia você vai viver uma vida de cinema, um dia todos os dias serão incríveis, todas as comidas serão de chefs renomados (desde aquele tempo eu já era metida), todos os amores serão intensos e eternos, todos os dinheiros serão acessíveis, todas as viagens serão possíveis, todos os amigos morrerão pela sua companhia, todas as casas serão com vista para o mar e um campo florido, todas as tardes serão lilás, todas as noites estarão à sua espera.
Tatá arregalou os olhos, me abraçou e nunca mais chorou pedindo a Deus uma vida com mais emoções. Sempre que ela comia quiabo ou assistia a algums desses programas dominicais com a família inteira roncando na sala, ela apenas se dizia em voz baixa: um dia nada será rotina, nada será chato, nada será morno, nada será banal. Um dia eu vou acontecer e o mundo estará aos meus pés.
Esse foi o jeito que eu arrumei, na época, de seguir em frente. Sim, as garotinhas bailarinas do recreio desfilavam enquanto ninguém olhava pra mim, as crianças normais praticavam esportes e nadavam no mar enquanto eu e meus óculos fugíamos de bolas e serenos, afinal, minha família sempre me fez acreditar que eu era mais frágil (e vai ver eu era…).
Sim, as crianças normais do meu prédio se machucavam na quadra, tomavam chuva, pegavam doenças estranhas umas das outras (eu nunca tive um sarampinho na vida!) e vire e mexe subiam o elevador chorando e aprendendo a parar de chorar. Eu brincava o tempo todo no carpete da sala, sempre protegida de tudo e de todos, menos da minha cabecinha maluca que achava que o mundo todo era feliz e se divertia muito, menos eu.
Mas tudo bem, eu pensava, um dia vou nadar mais que todo mundo, praticar esportes mais que todo mundo, ir para a praia mais que todo mundo, ter mais amigos que todo mundo, ser mais bonita que todo mundo, mais rica, mais popular, mais amada, mais desejada, mais inteligente, mais incrível… tudo bem, é só eu ter paciência, um dia eu vou ser a melhor do mundo.
Vinte anos depois aqui estou eu, mais meia boca do que nunca. Não sei mais se quero publicar um livro, será que essas linhas valem uma capa? Não sei mais se quero amar alguém, afinal, o amor é imperfeito e sempre me decepciona. Se com 27 anos não consegui ter o corpo das atrizes do Malhação, não vai ser com 37.
Eu não conquistei o mundo porra nenhuma, muito pelo contrário, eu não conquistei nem a minha cachorra, que prefere a empregada.
Não dei um jeito no rodamoinho do meu cabelo sempre sem jeito, não dei um jeito na minha canela fina, não dei um jeito na minha bunda de preguiçosa. Continuo fugindo de bolas, friagens, águas profundas e vírus. Tenho sim uma boa centena de amigos, mas só gosto, e de vez em quando tenho saco, para uns dois ou três.
Outro dia desses eu ganhei uma viagem para ficar num hotel mil estrelas com mil mordomias, mil festas e com vista para a Riviera Francesa. Adivinhem? Acordava triste todos os dias, afinal, não era bem a Riviera Francesa que eu tinha me prometido há 20 anos, era o mundo inteiro.
Não aguento nenhum emprego, afinal, todos são chatos. Não aguento nenhum namorado, afinal, nenhum é perfeito. Não aguento mais levantar da cama de manhã, afinal, nenhum dia é exatamente como eu gostaria que fosse. Não me aguento mais, afinal, eu não virei a mulher que eu queria.
Eu era uma fraude, um erro, eu não tinha dado certo. Minha vida era chata, meu dia era chato, as raras felicidades sempre acabavam ou se mostravam mentiras da minha cabeça. Quem ia me aturar assim, sempre insatisfeita? Eu própria não dava conta das minhas exigências e não me suportava mais. Tudo tinha dado errado, eu continuava me sentindo de outro planeta e, pra piorar, eu tinha mentido para a minha menininha, a única que eu prometi fazer feliz na vida.
Escolhi o vigésimo andar do prédio que eu trabalho e dalí fiquei olhando para a infinita escada vermelha. Estava decidida, fechei os olhos, levantei os pés, soltei a mão do corrimão, enclinei o corpo.
De repente, uma mãozinha pequena e gorducha agarrou na minha camisa e me puxou com uma força que eu jamais poderia acreditar que era dela. Estava escuro mas eu reconheci o rodamoinho na testa, as botinhas ortopédicas e os dentes cheios de aparelho. Foi então que ela me disse, ajeitando os óculos: ei, larga a mão de ser criança!

Gira-gira

Eu tinha treze anos, ele uns quinze. Não lembro o nome exatamente, mas me recordo que ele torcia para o Palmeiras e,quando tinha jogo, eu escutava seus berros desafinados.Ele tinha as sobrancelhas grossas e pulava na piscina gelada sem medo de levar bronca da mãe.
A roupa dele tinha cheiro de amaciante e por alguma razão aquilo me trazia conforto.
Um dia ele olhou bem no fundo dos meus olhos, apertou meu braço e disse que à noite eu teria uma surpresa.
Eu esperei por ele a noite toda,de pé,espiando pela janela do meu quarto.Meu quarto ainda tinha bonecas e bichinhos de pelúcia,e todos eles tiveram pena do meu cansaço e da minha ingenuidade.
No dia seguinte eu acordei sem hálito de criança e perdi pra sempre o doce da boca.Eu tive minha primeira azia com lactose no café da manhã e vomitei.Foi a última vez que vomitei na vida.
Eu tinha dez anos,ele também. nome era Felipe e ele se sentava duas carteiras à frente da minha.Ele jogava bola tão bem que podia faltar à aula para ir aos campeonatos da escola.
Um dia ele escreveu "Te amo,quer namorar comigo?" num bilhete e entregou para mim.Eu lembro que li e tive uma tontura tão grande que achei que fosse morrer antes da prova de matemática(e fiquei feliz, porque não tinha estudado).
Quando fechei o bilhete,vi que estava escrito "Melissa".Ele havia dado o bilhete apenas para eu entregar para a menina que sentava atrás de mim.
Eu senti tanta vergonha,tanta vergonha,tanta vergonha,que pedi à professora para ir ao banheiro.Quando cheguei no banheiro,fiz várias caretas para o espelho.Até hoje não sei por que exatamente.Talvez quisesse ficar tão feia quanto estava me sentindo.
A calça da escola me deixava horrível e eu amarrava o moletom na cintura.A Melissa não precisava disso,ela ficava linda naquela calça,era bailarina.Apertei tão forte aquele moletom na minha barriga que as marcas do elástico ficaram por quatro dias desenhadas na minha cintura.

Eu tinha 5 anos, ele 6. Ele se chamava Thiago e tinha um irmão chamado Pablo. Ele corria tanto com o gira-gira que eu achava que meu coração fosse pular pela boca. Ele colocava a mão sobre a minha quando eu fazia que ia sair do gira-gira, e apertava a minha mão. Eu sempre fazia que ia sair só para ele colocar a mão sobre a minha.
Um dia eu simplesmente o agarrei e dei um beijo de língua nele. A professora chamou minha mãe na escola para contar e minha mãe, puxando de leve a minha maria-chiquinha, perguntou à professora quem era o Thiago.
"É aquele ali na aula de ginástica." Quando olhamos, ele estava todo sujo e com o nariz escorrendo.
Eu ouvi da minha família toda, até poucos anos atrás, que eu gostava de "ranhentos".
Um dia ele me trocou pela Dani, uma garotinha de sardas que tinha irmãos e não usava botinhas ortopédicas. Eu lembro até hoje de ter perguntado à minha mãe se sardas eram doença. Torcendo muito para serem.
Hoje tenho 25 e eles têm idades, nomes e manias variadas. E por mais que eu olhe para o meu escarpin, ainda vejo aquelas botas grosseiras numa canelinha fina.
As Danis com sardas e Melissas bailarinas ainda existem, e elas continuam tendo a família mais descolada do mundo e ficando lindas em calças de moletom.
Por mais que meu corpo durma, minha alma continua na janela esperando você aparecer, ingênua e cansada.
Eu continuo acordando todos os dias com saudade do doce e com medo do azedo. Eu continuo fazendo caretas e sou a única que não vejo muita graça nelas.
O gira-gira não pára nunca, meu coração continua acelerado e continuo fazendo que vou pular fora para você me socorrer. Para você segurar bem firme na minha mão e me fazer ter coragem de arriscar o vento na cara e o mundo muito rápido. Coragem para o mundo que dá tantas voltas.
Eu ainda espero chegar a minha vez de receber o bilhete "Te amo. Quer namorar comigo?" apesar do moletom na cintura e das marcas causadas por ele e por todo o resto.

Muito prazer (2005)

Uma breve apresentação da minha pessoa para o ano que chega.

Eu tenho medos bobos e coragens absurdas. Eu vivo cercada de pessoas por fora da minha bolha egocêntrica, infantil e sensível.

Eu preciso de sal e açúcar para não virar os olhos de pressão baixa e hipoglicemia, já tive ptiríase aliquenóide crônica e tenho prolapso da válvula mitral.

Eu quase nunca sei se uma palavra começa com e ou com i.

Escrevo por três motivos simples: preciso aparecer e não sou bonita o suficiente, preciso matar o tempo e preciso não morrer.

Sou fútil, entro em pânico pela moda, mas meto um chinelinho pra parecer desencanada. Sou romântica, entro em pânico por não ser amada, mas meto um... Bom vocês já entenderam o contexto pobre.

Eu vivo à espera daquele momento, mas não sei que porra de momento é esse.

Às vezes sinto cheiros e morro de saudades de coisas que já não me lembro mais.

Eu me orgulho de todas as minhas lembranças ingênuas, mas tenho consciência de que foi a minha fragilidade cansada que me transformou numa pessoa irônica.

Eu tenho uma risada escandalosa que me envergonha e uma mania ridícula de imitar a Madonna nas pistas de dança. Às vezes eu só queria estar deitada com meu diário, olhando as estrelas e me masturbando, igual o Leonardo DiCaprio naquele filme de drogados.

Passo metade do dia odiando minha vida e querendo ser sugada pela minha própria insignificância. A outra metade passo rindo do quanto sou dramática e exagerada.

Eu sei de cor o nome de todos eles, mas faço de conta que já perdi a conta. Eu sei de cor tudo o que tenho que fazer para dar certo, mas tenho medo da responsabilidade de ser notada.

Adoro o toque do telefone que quebra o barulho do abandono, a força leve da caneta no papel que pode transformar tantas coisas e o som do carro chegando na chuva para me salvar. Eu adoro ouvir música bem alta, do som da agulha no disco e do resto do Sol que entra pela janela me trazendo calmaria por pertencer a algo e faniquito por não pertencer a tudo.


Às vezes, eu gosto apenas da folha em branco, do silêncio, da noite e da janela fechada, de preferência todos juntos.

Adoro o som de crianças num parquinho, mas como nem tudo são flores adoro o pai sentado no banquinho da praça louco para brincar no trepa-trepa.

Apesar da minha espera em viver um agrande amor, abasteço meus buracos de falsos cognatos. Homens que parecem ser.

Acho tudo o que se refere ao amor extremamente brega. Acho tudo o que não se refere ao amor extremamente infeliz.

Não sou lésbica mas adoro as mulheres, seus cheiros, cabelos, cinturas e mil faces para disfarçar o óbvio. Quando vejo uma mulher bonita, em vez de invejá-la me pego imaginando como ela seria fazendo amor: suas caras, bocas e sons.

Tenho crises de pânico mas nunca tomei nenhum remédio, acho normal que às vezes o ar se despeça do meu mundinho fechado e me faça vagar pela falta de pressão do universo. Minha mão fica tão gelada e meu coração tão quente que eu pareço um petit-gateau.

Tenho medo de vomitar e não parar nunca mais de vomitar. De bater a cabeça desmaiada na pia e morrer solitariamente, entregando ao mundo por impotência minhas vísceras magoadas e sujas.

Eu tenho vontade de pisar na grama cheia de insetos que pinicam, de me sujar na bosta do cavalo, de corroer minhas neuroses no ácido do meu fígado, de dormir melada de amor. Mas sou mais viciada em banhos do que em qualquer outra coisa.

Eu cansei de papo furado à luz de velas, eu cansei da ansiedade e da ilusão de princesa. Eu prefiro um DVD e um pijamão com a minha cachorrinha e todas as minhas guloseimas no armário da cozinha.

Mentira. Tudo mentira. Eu corro atrás o tempo todo. Mas acabo dando de cara com a minha bunda. E eu odeio a minha bunda.

A maior alegria para mim é colocar a música “This Fire” do Franz Ferdinand e berrar, até porque depois de berrar eu fico rouca e posso fingir que sou outra pessoa.

A última vez que tentei ser meiga falei: não tá vendo que agora eu sou meiga, porra!

É isso, não vou falar do Bush, não vou falar do Lula, não vou falar do beijo de sangue do filme Os Sonhadores. Não vou falar de nada que não seja meu umbigo. Sou essa mala monotemática mesmo, chata, obsessiva e sem sobrancelhas, mas que ama muito mais do que odeia, apesar de odiar isso.

Feliz tudo para todos vocês.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Eu não sei voar

Ela pisou sem dó no meu meio sorriso, fazendo ele virar um pavor inteiro e verdadeiro.
Eu canso dos meus meio sorrisos tanto, tanto, que prefiro que a vida seja assim mesmo. E aí me pergunto se chorei de tristeza profunda ou alegria libertadora, o que acaba dando no mesmo porque minha profundidade me liberta.
A barata preta, enorme e voadora posou no canto da minha boca. E eu pude chorar todos os meus medos no seu sofá e eu pude ficar curvada do jeito que a minha sombra, que só eu vejo, é. E eu pude borrar todos os meus disfarces e ficar feia sem culpa, porque a dor consegue ser sempre maior do que qualquer culpa, por isso o meu vício em sofrer.
Eu chorei a nossa imperfeição, eu chorei a saudade enganada da nossa perfeição, eu chorei a nossa necessidade de não se largar, eu chorei a nossa necessidade de se largar, a nossa necessidade de fugir do mundo em nós e a nossa necessidade de fugir de nós encontrando amigos.
Eu chorei o nosso ego que sempre tem respostas para tudo e não pode perder, chorei o nosso silêncio cansado de perguntas e desprovido de interesses, a pobreza do mundo que nos impossibilita de sermos felizes sem culpa, a falta de simplicidade que eu tenho para ser feliz e eu chorei o espaço da nossa alma que ainda falta evoluir.
Eu chorei o nosso medo de não sermos o que sonhamos. Eu chorei o medo que eu tenho de não ser quem você quer e o medo que eu tenho de ser exatamente o que você quer.
Eu chorei porque precisava de colo, porque precisava te mostrar a minha fragilidade escondida no meu mau-humor. Eu chorei de birra do meu lado homem.
Eu chorei porque vez ou outra ele ainda bate na minha porta e eu o deixo entrar, e eu sei que isso é medo do tanto que você habita todos os lugares.
Eu chorei porque eu te amo mas eu não sei amar. Eu chorei porque eu sempre canso de tudo e tudo sempre cansa de mim. Chorei de cansaço profundo de sempre cansar de tudo e tudo sempre cansar de mim. Chorei de apego ao cheiro do novo e principalmente de melancolia pelo cheiro do velho. E chorei porque tudo envelhece com novos cheiros e a vida nunca volta. Eu chorei de pavor da rotina, de pavor do fim, de pavor de sair da rotina e começar outros fins.
Eu chorei meu medo de submissão, o meu medo de vomitar, o meu medo de me mostrar pra você tanto, tanto, e não ter mais o que mostrar. Eu chorei minha infinidade de coisas e o medo de você não querer abrir os mais de um milhão de baús que existem escondidos na caixa cerrada que eu guardo embaixo do meu peito. Eu chorei meu fim e o medo do meu infinito.
E eu teria chorado cinco anos se você não me dissesse que já era hora de parar. E eu chorei depois cinco anos escondida, porque eu não sei a hora de parar e não quero que ninguém me diga.
Aliás, eu quero sim. Eu quero que você me diga quando for a hora de parar, de continuar e de não pensar em nada disso.
Eu quero que você me acorde com uma lista de horas e outras lista de anos e outra lista de encarnações. Eu quero que você me dê a mão e me ensine o que é um relacionamento porque eu só sei andar de quatro, cheirando xixis nas ruas e rabos alheios.
Eu quero que você me ensine a ser uma mulher para você.
Ao mesmo tempo eu quero que vocë suma porque eu só quero ser uma mulher para mim. Eu me quero só para mim.
Era minha a dor de ser solitariamente para mim. E você a substituiu pela dor de não querer mais ser solitariamente só para mim. Mas tudo é dor afinal, e eu não sei ser leve, eu não sei voar, mas a barata que vôou para o canto da minha boca, sabe.
Eu carrego o esgoto no meu ventre negro, mas não sei voar como ela. Por isso ela ainda consegue ser melhor do que eu.
E com todos os meus poderes para estragar a vida de alguém, eu ainda tenho medo da barata.
Porque ela sabe ser misteriosa, ela sabe incomodar sem abrir a boca, ela sabe enojar o mundo com sua meleca branca sem ter que mostrá-la a ninguém.
Ela é muito mais misteriosa do que eu.
Em comum temos as chineladas do mundo e todos os seres amedrontados que querem acabar com a nossa raça. Mas o poder dela ainda é muito maior do que o meu, porque ela não ama, ela não se sente traída pelas chineladas do mundo.
Ela não sabe o que é não entender nada desse mundo e ter medo do tempo. Ela não sabe o que é ter nas mãos o poder de construir e destruir e ter tanto medo desse poder.
Ela vive no esgoto e não sabe o que é ter tanto medo dele.
Ela aparece sem ser desejada e não sabe o medo que não ser desejada causa.
Ela é uma barata e nunca vai saber o medo que a gente sente de se sentir uma.
E eu chorei tanto que finalmente transformei meu meio canto de boca num bico inteiro. E chorei porque tenho tanto medo de tudo o que é inteiro, que prefiro viver tudo na cabeça, enquanto o corpo relaxa na minha cama, longe de tudo.
Eu deito na minha cama e imagino tudo o que pode acontecer, enquanto não toco de verdade na vida para não cansar demais e depois não ter forças para viver de verdade. Mas acabo dormindo e deixo pra depois.
Mas eu chorei justamente porque descobri que viver na cabeça também é um tipo de coragem, porque eu não protejo a alma de feridas e nem de descanso.
Mas aí ela, preta, imunda, nojenta, indesejada, um pedaço do esgoto, vôa em minha direção e me coloca em movimento. E eu corro pra bem longe e não penso, só corro.
E isso é tão diferente para mim, estar em movimento de fora para dentro, que eu choro de emoção.
Eu não pensei, eu vivi. Eu corri dela, eu vivi o medo. Eu vivi o nojo. E eu chorei de dor de sair da minha bolha interna.
Ela me fez ter vontade de gritar para o mundo nojento para que ele deixe meu coração em paz. Meu coração que quer amar em paz e esquecer que a vida pode ser nojenta.
E eu corri de tudo o que é nojento, e eu chorei porque com tantas coisas lindas me acontecendo, eu precisei de uma barata para me lembrar de sentir a vida fora da minha bolha.
Ela perfurou minha proteção e saiu da minha rotina. Ela invadiu tudo e me lembrou que as coisas podem dar erradas sim, quando se menos espera, e não adianta nada estar com o chinelo preparado na mão para se defender da vida.
A vida voa na sua cara, esbarra no seu rosto, suja sua vaidade, corrompe suas certezas, e você não pode fazer nada. A não ser lavar o rosto e começar tudo de novo