sexta-feira, 29 de outubro de 2010

João e (a velha) Maria

Duas vezes eu quase morri de saudades de você. Uma quando eu vi Closer e lembrei que o amor, como deveria, não existe. E outra quando escutei sem esperar “Quem te viu, quem te vê” e lembrei que você era um pedaço charmoso de tudo o que o mundo e a vida têm de mais charmoso. Doeu lembrar ou aceitar que esse pedaço não existe mais nem no predinho azul e nem no sofá azul. Neste dia você finalmente morreu, e eu chorei de luto sem teatro, de luto não atual, de resto de luto. De um luto morto.
Você namora, casou, sei lá, com a menina de bolsas e saias bonitas que não tem cara de louca. E essa é a minha vingança, porque eu sei que você é mais feliz sem loucura, mas a felicidade e a normalidade não existem. Eu ainda acho que a gente tinha alguma verdade que faz você, nem que seja a cada 100 anos, arranhar um Chico Buarque em meu luto. Um luto cheio de vida.
Vez ou outra chegam aqueles seus emails que você responde por educação e são cheios de frases quase íntimas envoltas pela maior frieza do mundo. É como se a cada letra você reafirmasse que somos amigos cheios daquela inteligência de camaradas descolados e bem resolvidos que, como tudo na vida que ainda respira e tem cor, seguiram em frente.
Sim, somos isso mesmo, claro. Mas eu caguei para tudo isso e fico com o seu abraço naquele fim de festa estranho em que você foi o dj e, para a minha surpresa, me fez matar a saudade do meu mundo.
Eu fico com as danças que sem nenhum medo das críticas eu improvisei para o nosso espaço no universo. Dancei como uma bailarina que volta a funcionar milagrosamente, e pela última vez, numa caixinha de música quebrada.
Eu fico para sempre com o que você plantou em mim, essa erva do mal. Você sabia que me tornei uma mal-humorada-pseudo- intelectual totalmente insuportável e crítica? Você ao menos era culto de verdade.
Você está bem onde está, eu estou bem onde estou. Mas, como aconteceu naquele dia na praia, em que eu passei indo com meu novo amor e cruzei você vindo com seu novo amor, não tem como a gente não olhar para trás.

A tecla 'A'

Quem tem MAC sabe a dificuldade que é arrumar um cara que entenda de MAC. PC qualquer CPD formado em segundo grau técnico sabe mexer. Já MAC é coisa para uns tipos estranhos. Um cara que fica entre um engenheiro frustrado e um artistas plástico mais frustrado ainda.
Com sorte fui apresentada a um tipo desse, semana passada. Meu computador tava todo bichado e o tipo estranho veio na hora certa. Por 300 paus deixo seu computer zerado e ainda arrumo seu i-pod, moça.
Beleza. Topei. Nem sei se fui roubada, mas topei porque o cara trabalha na esquina da minha rua e isso pra mim foi um sinal de que aquele cara merecia todo o dinheiro do mundo. Depois da minha mãe que mora há 3 quadras de mim e sabe fazer nhoque de mandioquinha, o Marcelo dos MAC acabava de ser eleito o cara mais legal do universo.
Ele falou que ia precisar passar a tarde com o meu computador e eu quis sofrer com isso, afinal: eu trabalho nele. Afinal: minha vida tá nele. Afinal, caceta: eu tenho dezenas de fotos da minha bunda nua nesse computador! Fotos que fui tirando ao longo dos anos pra ver se anda servindo de algo o dinheiro gasto com cremes, massagens e malhação. Minha empregada outro dia falou: “vixi, a senhora não percebe, mas antes era muito pior”! Adoro a Maria, ela sabe valorizar a minha bunda como ninguém.
Foi então que inventei uma desculpa aqui, uma curiosidade ali, e resolvi ir junto com o meu computador. O tempo que fosse necessário eu ia ficar alí, junto dele e do Marcelo dos MAC.
O Marcelo olhou pra mim e falou: “a senhora não confia quando faz um exame médico? É a mesma coisa, tem que confiar no profissional!”
Pois então, mas eu confio tanto nos médicos que inclusive eu vou junto com o meu corpo ser examinada por eles, não? Enfim, fiquei 4 horas e meia na casa do cara. Olhando meu filho ser desmontado, remontado, desmontado de novo e cuidando para que nenhuma foto da minha bunda antiga fosse descoberta. Da bunda nova até vai lá!
E quatro horas na casa de um desconhecido estranho só poderia resultar em um papo muito estranho. Afinal, eu posso ser tudo (ser louca o suficiente pra ficar anos fotografando minha bunda, ser louca o suficiente pra ficar 4 horas na casa de um cara cuidando para que ele não visse nenhuma das fotos, sendo que o mais fácil era ter gravado as fotos num cd e apagado do computador), mas eu não sou mal educada. Ou seja: puxei papo com o cara.
Contei que era escritora, coisa e tal. Trabalhava em casa. Tinha até uma dúzia de fãs aqui e ali. E ele olhou sério pra mim e falou: você escreve sobre amor, não é?
Poxa. Tá tão óbvio assim? Só porque sou menina de batom rosinha? Só porque sou tão carente e possessiva que não consegui ficar longe do meu computador 4 horas? Só porque meu i-pod só tem musiquinha mela cueca? Porque falei que tenho fãs meninas? Por que? Heim? Por que?
E ele me mostrou com simplicidade da onde tinha tirado aquela idéia, apontando para a tecla “A” do meu computador: “tá apagada, de tanto você escrever sobre o amor o “A” apagou”.
E foi naquele momento, nos fundos de uma casinha simples e cheia de monitores e teclados mortos, e que um dia já receberam e escreveram muitas cartas de amor, que eu tive a brilhante idéia: tá na hora de mudar um pouco esse foco! Cheeeeega desse assunto! Não agüento maaaais falar disso! Preciso trabalhar, viver e ser feliz com minhas outras teclas!
Aí cheguei em casa e resolvi escrever o primeiro texto de não amor do ano. Melhor: resolvi recomeçar o ano escrevendo o meu primeiro texto que não fala de amor. Um texto que fala de qualquer coisa, do meu MAC que quebrou, por exemplo. Ou da minha rua que fica perto de tantos lugares legais como a casinha do Marcelo dos MAC. Ou das fotos progressivas da minha bunda, da minha empregada Maria, do nhoque da minha mãe. Ou até mesmo de uma tarde qualquer e sem grandes emoções como tantas.
E foi então que eu descobri uma coisa fantástica, talvez a mais fantástica de todas: quando a gente pára de procurar desesperadamente por um amor, a gente percebe que pode amar qualquer coisa. Eu posso amar meu computador, minha rua, minhas fotos, minha empregada, o nhoque da minha mãe. Ou até mesmo uma tarde qualquer e sem grandes emoções como tantas.
Droga, e eu achando que dessa vez não ia bater na mesma tecla.

Além do castelo

Quando eu tinha meus doze anos de idade, não entendia absolutamente nada da vida, e pra piorar não tinha irmãos para dividir a descoberta. Era eu no quarto escuro querendo conjugar um verbo difícil adivinhando o que estava acontecendo, o que tinha acontecido e o que iria acontecer.
Foi então que idealizei o maldito príncipe encantado, aquele que traria respostas, complementos e acalantos para meu ser, e foi aí também que aprendi a me ver como metade, uma metade que carregaria angústia pelo mundo afora até que a cara metade aparecesse.
Passei toda a adolescência sonhando e esperando por ele, muitas vezes chorando porque nunca era ele, mas eu sempre fantasiava que era e forçava ser para não me frustar. Comecei a vida adulta fazendo o mesmo. Vício é vício, e se você não se tratar a tempo, pode passar uma vida inteira com doze anos de idade.
Foi então que uma coisa muito legal aconteceu, meu amigo Marcelo, que nunca fala nada, resolveu disparar a matraca naquele jantar.
Cansado de me ver tentando ser feliz com pessoas que simplesmente não me faziam feliz, ele me disse: você faz ao contrário, você cisma que alguém é a pessoa da sua vida e tenta fazer dar certo de qualquer maneira, sendo que o certo era alguém simplesmente dar certo de qualquer maneira e aí sim você fazer a pessoa ser da sua vida.
Voltei pra casa dando 100% de razão a ele e pensando quão ridículo é o desespero. Sim, eu já tenho 27 anos, não suporto nem ouvir a palavra “balada”, tenho pavor de jovens bobos e perdidos pela noite, estou sem saco para sexo sem amor e estou louca para encontrar alguém que queira construir uma vida comigo, dividir coisas, crescer juntos e... tá bom, vai, eu confesso: meus hormônios clamam por uma família, ainda que eu não esteja lá muito preparada para isso.
Mas essa vontade não pode ser forte o suficiente para que eu simplesmente pegue o primeiro coitado que aparecer querendo se divertir e coloque todo esse peso sobre ele. Esse desejo não pode ser grande o suficiente para que eu coloque em um homem que não tem nada a ver comigo a aura do homem perfeito e fique cobrando isso dele 24 horas por dia.
Mas e o que eu faço então da minha vida se esse cara aparecer só daqui 50 anos ou simplesmente não aparecer? E se eu nunca conhecer alguém legal que traga o troço todo das respostas, acalantos e complementos para a minha metade angustiada?
Sábado eu acordei bem cedo e fui sozinha para a minha aula de meditação, sai de lá com uma alegria simples e profunda de quem apenas é e não precisa ser nada para ninguém. Depois tava um friozinho com sol e eu resolvi almoçar com a minha mãe naquele restaurante cheio de árvores e pessoas bonitas. Olhei bem para a minha mãe e senti uma saudade imensa dela: fazia pelo menos uns dez anos que eu não a via mesmo morando com ela e a vendo todos os dias.
Resolvi ir sim no churrasco da minha amiga que mora do outro lado da cidade, por que não? Ela é das amigas mais antigas e merece que eu atravesse a cidade. A mãe dela, entre um doce e outro que tentou me empurrar, disse “quem diria que aquela gorducha de Maria Chiquinha ia virar uma moça tão talentosa?”. Estar dentro do meu mundo e da minha história me deu uma ótima sensação de paz, tudo ia dar certo.
Depois passei pra ver meu pai e o Nestor, seu cãozinho que se mija todo e fica de pau duro quando vê mulher. Meu pai olha pra ele como uma criança e foi bom passar algumas horas ao lado de um homem que sempre vai me amar exatamente como eu sou, mesmo ele não sabendo disso direito.
Fui ao cinema com meu novo amigo Fábio e ganhei uma calcinha da Betty Boop com o seguinte cartão “para a única mulher que me faz feliz mesmo nunca dando para mim”. Depois de mais um genial filme argentino, a gente experimentou todos os perfumes de uma loja fina e não levou nenhum, mas estávamos muito cheirosos e não podíamos voltar para casa. Fomos comer pizza até estourar.
A noite peguei a Lolita, minha cachorra que me ama até com remela, bafo e prisão de ventre e juntas lemos algumas páginas do “O Anjo Pornográfico”. Esse sim era o homem da minha vida.
Eu não preciso controlar a vida, meus hormônios, meu futuro, os outros, minha felicidade. Eu só preciso levar a vida, eu só preciso desfocar do sonho que me deixa míope e enxergar além, ou melhor: enxergar o que está na minha cara. Ver o quanto o resto todo já é perfeito e está lá, eu já conquistei, é meu.
Antes de dormir rezei, mas dessa vez não pedi o moço de cavalo branco (carro do ano) e da espada gigante (vocês entenderam), apenas agradeci por estar me sentindo tão inteira, feliz, em paz e, principalmente, por não precisar de ninguém ao meu lado para estar bem.
Mas no fundo, no fundo, confesso: pensei também que quanto mais inteira, feliz, tranquila e independente eu for, mais chances eu tenho dele aparecer. Vício é vício.
 

Romântica pra cacete

Nem todo dia tem Sol, nem toda sobremesa é cheese cake e nem toda relação homem e mulher é romance.
E você vai fazer o quê?
Vai se matar por causa do cinza acima da sua cabeça? Vai tremer hipoglicêmica e carente porque só sobrou torta holandesa? Vai se manter virgem e intacta até aparecer o homem que vai te dar uma casa com cerquinhas brancas, cachorrinhos e bebês?
Claro que não, você vai viver a vida, curtindo o que ela tem de melhor. E o que um bonitão que só quer te comer pode ter de melhor? Bom, eu poderia fazer uma lista. Mas a droga do romance estraga tudo isso, a droga dos filmes românticos nos enganam como as propagandas de cerveja que enchem de gostosas os babacas segurando um copinho.
Por que raios a gente tem de romantizar qualquer demonstração de carinho de um homem se na maioria dos casos eles só querem nos comer? E por que ficamos tão putas se eles apenas nos comem e caem fora?
Quem disse que eles são obrigados a nos amar eternamente só porque conheceram de perto a nossa beleza interior? E, finalmente: que mal há em sermos gostosas e os homens quererem nos comer? Por que isso parece ofensivo? Por que nos sentimos usadas se ambos estão lá de livre e espontânea vontade?
Isso é herança das mulheres pudicas, sonhadoras e donas de casa do século passado ou a célula do romance vai eternamente se multipilcar e passar de geração em geração através das mulheres?
Eu tento, juro que tento. Mas a droga do romance não me deixa em paz.
É uma praga.
Conscientemente eu sei que nem todos os caras querem namorar comigo, e mais conscientemente ainda eu sei que eu também não quero namorar com a maioria deles. Mas lá dentro fica a dúvida: será que fui usada?
Da onde vem esse sentimento fraco, submisso, antigo, arcaico, pobre e idiota de que numa relação sexual o homem é o dominante que come e a mulher a coitada que é comida? E por que se ele te tratou tão bem, com tanto carinho e respeito, só quis te comer e caiu fora? Precisava se dar tanto trabalho?
A vida é complicada. E a vida é complicada porque nós mulheres romantizamos tudo, ou quase tudo. Ou justamente o que não deveríamos.
A gente faz planos mesmo em cima dos silêncios deles. A gente vê beleza em cada sumiço. A gente vê olhares de amor no mais puro olhar de tesão. A gente acaba de trepar e é batata: deita no peito deles!
Ah, o romance! Mulher que é mulher não consegue fugir de um.
Você vai para o banho super senhora de si, mas enquanto a água escorre, você fica na dúvida entre se ele vai ligar no dia seguinte e o nome dos filhos. Será que ele vai ter os olhos do pai?
Eu cansei de ser assim, por que não consigo ver os homens como diversão se eles conseguem tão facilmente nos ver assim? Por que não posso aceitar que nem tudo é romance?
Por que a droga da chuva me lembra todas as vezes que eu voltei para casa sonhando e no dia seguinte me deparei com a frieza do dia seguinte?
Aonde está você pelo amor de Deus! Aonde está você? Não vê que estou cansada de pertencer a todos e não ser de ninguém? Não vê que minha devolução me enfraquece cada vez mais em me entregar?
Não vê que na loucura de te encontrar não meço as entregas? E elas nunca são entregas porque eles nunca são você.
Porque comecei este texto tão bem e mais uma vez esqueci de ser a mulher moderna que eu tanto gostaria de ser para lembrar a mulher romântica que espera por você a cada esquina, a cada decote, a cada riso nervoso que solto em forma de grito à espera do seu socorro.
Eu vou continuar vendo você em todos esses crápulas que fingem ser você para vulgarizar o meu amor. Eu vou continuar cheirando você em todos esses suores fugazes que me querem num conto pequeno. Eu vou continuar lendo a nossa história em contos pequenos.
Cadê você que some a cada som que não me procura? Cadê você que parece ser e nunca é porque desaparece no cansaço das relações?
O meu amor acaba por todos, a minha espera cansa por todos, a minha raiva ameniza por todos. Mas a minha fé por você cresce a cada dia.
Eu posso transar no primeiro encontro, eu posso transar por transar. Eu posso trepar. Eu posso te encontrar num flat na hora do almoço para uma rapidinha. Eu posso reclinar o banco do meu carro e mandar ver. Eu posso deixar você não me beijar na boca. Eu posso aceitar que você nunca me leve de mãos dadas a um cinema. Eu posso ser uma noite e nada demais. Eu posso ser um banheiro e nada mais. Eu posso ser nada mais.
Mas eu nunca, em nenhum momento, deixo de romantizar a vida, cada segundo, por mais podre que seja, dela. Eu nunca deixo de procurar você. Eu nunca deixo de acreditar que você exista, e eu nunca deixo de acreditar que você faz o mesmo a minha espera.

O mau elemento

Eu olho pra sua tatuagem e pro tamanho do seu braço e pros calos da sua mão e acho que vai dar tudo certo. Me encho de esperança e nada. Vem você e me trata tão bem. Estraga tudo. Mania de ser bom moço, coisa chata. Eu nunca mais quero ouvir que você só tem olhos pra mim, ok? E nem o quanto você é bom filho. Muito menos o quanto você ama crianças. E trate de parar com essa mania horrível de largar seus amigos quando eu ligo. Colabora, pô. Tá tão fácil me ganhar, basta fazer tudo pra me perder. E lá vem ele dizer que meu cabelo sujo tem cheiro bom. E que já que eu não liguei e não atendi, ele foi dormir. E que segurar minha mão já basta. E que ele quer conhecer minha mãe. E que viajar sem mim é um final de semana nulo. E que tudo bem se eu só quiser ficar lendo e não abrir a boca. Com tanto potencial pra acabar com a minha vida, sabe o que ele quer? Me fazer feliz. Olha que desgraça. O moço quer me fazer feliz. E acabar com a maravilhosa sensação de ser miserável. E tirar de mim a única coisa que sei fazer direito nessa vida que é sofrer. Anos de aprimoramento e ele quer mudar todo o esquema. O moço quer me fazer feliz. Veja se pode. E aí passa a maior gostosa na rua e ele lá, idolatrando meu nariz. E aí o celular dele toca e ele, putz, perdeu a ligação porque demorou trinta mil horas pra desvencilhar os dedos do meu cabelo. Com tanto potencial pra me dar uns tapas, o moço adora me fazer carinho com a ponta dos dedos. Não dá, assim não dá. Deveria ter cadeia pra esse tipo de elemento daninho. Pior é que vicia. Não é que acordei me achando hoje? Agora neguinho me trata mal e eu não deixo. Agora neguinho quer me judiar e eu mando pastar. Dei de achar que mereço ser amada. Veja se pode. Trinta anos servindo de capacho, feliz da vida, e aí chega um desavisado com a coxa mais incrível do país e muda tudo. Até assoviando eu tô agora. Que desgraça. Ontem quase, quase, quase ele me tratou mal. Foi por muito pouco. Eu senti que a coisa tava vindo. Cruzei os dedos. Cheguei a implorar ao acaso. Vai, meu filho. Só um pouquinho. Me xinga, vai. Me dá uma apertada mais forte no braço. Fala de outra mulher. Atende algum amigo retardado bem na hora que eu tava falando dos meus medos. Manda eu calar a boca. Sei lá. Faz alguma coisa homem! E era piada. Era piadinha. Ele fez que tava bravo. E acabou. Já veio com o papo chato de que me ama e começou a melação de novo. Eita homem pra me beijar. Coisa chata. Minha mãe deveria me prender em casa, me proteger, sei lá. Onde já se viu andar com um homem desses. O homem me busca todas as vezes, me espera na porta, abre a porta do carro. Isso quando não me suspende no ar e fala 456 elogios em menos de cinco segundos. Pra piorar, ele ainda tem o pior dos defeitos da humanidade: ele esqueceu a ex namorada. Depois de trinta anos me relacionando só com homens obcecados por amores antigos, agora me aparece um obcecado por mim que nem lembra direito o nome da ex. Fala se tão de sacanagem comigo ou não? Como é que eu vou sofrer numa situação dessas? Como? Me diz? Durmo que é uma maravilha. A pele está incrível. A fome voltou. A vida tá de uma chatice ímpar. Alguém pode, por favor, me ajudar? Existe terapia pra tentar ser infeliz? Outro dia até me belisquei pra sofrer um pouquinho. Mas o desgraçado correu pra assoprar e dar beijinho.

Estar sozinho

Estar sozinho é engraçado, louco, angustiante, libertário e triste,
tal qual estar com alguém.
No entanto, estar sozinho é absolutamente o oposto de estar com alguém.
Estar sozinho é fechar as mãos no nada quando se atravessa a rua correndo e não se tem uma mão para segurar.
É acordar sem saber o que será do dia porque planejar sozinho dá preguiça
A vida simplesmente acontece para quem está sozinho, às vezes sem que a gente perceba, pois é mais fácil ter noção de si mesmo através de outra pessoa.
É o doce que substitui mal e amargamente o sexo.
Estar sozinho, ou estar sozinha, pode acontecer com qualquer um.
E você torce para que aconteça com a sua melhor amiga, ou com aquele homem que você gostaria de experimentar como uma pílula para a sua solidão.
Estar sozinha é não suportar ouvir a palavra solidão porque ela faz sentido.
É conferir a caixa de e-mails com uma freqüência que beira a compulsão.
É chorar do nada. É acordar do nada. É morrer de medo do nada que fica no estômago.
Estar sozinho é uma coisa física, ou melhor, é a falta dela.
Você se sente oco por dentro, por isso aquele respiro profundo de lamentação.
Quando chove, venta, escurece, e você está sozinho, você lembra de Deus
e do quanto é pequeno.
Estar sozinho é detestar ficar em casa.
Ficar em casa sozinho, quando se está sozinho, é muita solidão.
É estar pronta para algo novo e não agüentar mais dias iguais.
É ocupar a vida dos outros com reclamações, lamentações, dúvidas e carências.

Resumindo:
estar sozinho é triste, enche o saco dos outros e deve fazer mal para a saúde.

Moby dick invade Nova York

Começou assim: eu subi as escadas e lá estava você, querendo parecer jovem com uma camiseta brega manchada de pasta de dente. Eu caí da escada e demorei anos pra me levantar.
Eu te amava com uma mistura de todos os meus personagens e, por isso, tão intensamente. Eu era uma menina deslumbrada que amava ver suas invenções por aí, era uma menina carente que amava seu jeito de pai, uma mulher em formação que se formou com você, uma depressiva neurótica que precisava das suas piadas que deixavam tudo leve, até sua ausência e impossibilidade eu amava com toda a minha vontade de grudar em você pra sempre. Até que cheguei ao ponto de te amar sei lá por que, o que deve ser o verdadeiro amor. Eu nunca dormi de verdade ao seu lado para não perder nenhum dos segundos rápidos e preciosos que você me dava. Eu queria suas malas perdidas e suas lacunas falsamente calmas num canto descascado de uma sala morta, esperando a minha vida e a minha cor. Agora elas estão lá, e eu nem sinto vontade de saber onde.
Por que raios você foi ultrapassar a linha da minha espera como alguém que testa sem intensidade o meu amor? Um dia seu cheiro começou a me dar um azedo na alma. Seu jeito, uma preguiça de me encantar. Suas palavras, um zumbido chato que me animava a prestar atenção em outra coisa. Era o instinto me dizendo que não dava mais pra sofrer. Amor também morre de saudade, sabia? E eu tinha saudade de te amar pura. Depois de levantar duzentas vezes e ir para o canto do ringue, cuspir sangue e ouvir a torcida dentro do meu coração gritar pedindo mais, eu fui a nocaute.
Você sabia melhor do que ninguém que a felicidade me esmagava e eu ficava ainda mais carente quando ganhava carinho. Por isso você era em doses homeopáticas a pessoa mais carinhosa do mundo e também o ser mais frio do planeta. Muito em pouco, o máximo no mínimo, quase nunca pra sempre, nunca mais todos os dias.
Mas agora você se distrai com as três passagens que comprou: uma para você e duas para a sua nova namoradinha, que é tão agraciada com culotes que precisa de dois lugares no avião. Ela não me parece dessas mulheres vaidosas mas, caso seja, e caso use cremes na bunda, sua nécessaire provavelmente será despachada. Não é inveja, nem ciúme, nem dor, é cansaço dessa vida banal que me arrota na cara toda vez que eu engulo ar para aumentar ainda mais a minha intensidade. Por que as pessoas são assim tão esquecíveis, banais e passageiras? Por que planejar uma agenda de motivos para não ser de alguém com medo de se perder? É bode de imaginar patas grosseiras e mal cuidadas de elefante caminhando por seu assoalho que brilha vida nova, é tristeza em saber que suas mãos inchadas do batuque nunca mais vão me assumir, mas desfilam com a porpeta por esse mundinho idiota e fechado em que vivemos, é nojo de imaginar você adentrando naquela caverna gigante, peluda e úmida.
Uga-buga para todos vocês, e fodam-se.